Só nos primeiros três meses de 2026, pelo menos 75 projetos de data center avaliados em cerca de US$ 130 bilhões foram bloqueados ou atrasados nos Estados Unidos. O número, levantado pela Data Center Watch, firma de pesquisa especializada em desenvolvimento de infraestrutura de dados, equivale ao total registrado durante todo o ano de 2025 — e o trimestre já havia encerrado quando a contagem foi feita.
O dado sinaliza que a corrida americana pelo domínio em IA está colidindo frontalmente com um muro de resistência popular que cresce mais rápido do que qualquer roadmap de expansão de capacidade computacional.
Da vizinhança para o Congresso: a oposição que virou bipartidária
O movimento contrário aos data centers não é novo, mas ganhou massa crítica em velocidade surpreendente. Uma pesquisa da Ipsos realizada no fim de 2025 já mostrava que quase metade dos americanos não queria um novo projeto de data center perto de sua casa. Poucos meses depois, esse número saltou para 70%, tornando a infraestrutura de IA menos popular nas comunidades do que usinas nucleares. As razões são pragmáticas: aumento expressivo nas contas de energia elétrica, consumo intensivo de água e poluição sonora por infrassom, frequências que não registram em decibelímetros convencionais mas irritam moradores de forma consistente.
O reflexo político foi imediato. Até maio de 2026, pelo menos 69 unidades de governo local haviam aprovado proibições ou moratórias sobre novos projetos, com mais jurisdições se somando à lista após essa data. A oposição atravessa o espectro político: apesar da pressão da gestão Donald Trump por expansão de IA nos EUA, legisladores de ambos os partidos têm respondido aos seus eleitores aprovando regulações que pausam ou barram construções enquanto estudam os impactos locais.
Seattle barra Amazon e Microsoft no quintal
O caso mais emblemático até agora é o de Seattle: cidade-sede de Microsoft e Amazon, ela se tornou a maior metrópole a aprovar uma moratória de um ano sobre novos projetos de data center, colocando em espera cinco empreendimentos propostos. A ironia geográfica não passou despercebida: as duas maiores forças por trás da expansão de infraestrutura de IA nos EUA não conseguiram construir nem em casa.
No Maine, o cenário chegou perto de outro extremo: o estado quase aprovou uma proibição estadual abrangente sobre novos grandes data centers válida até outubro de 2027. O projeto só não virou lei porque a governadora vetou a medida, e o motivo declarado foi que a proibição afetaria um projeto específico considerado relevante. O episódio mostra o quanto essa discussão já saiu do nível de bairro e chegou ao topo do executivo estadual.
O fator externo: amplificação artificial do debate
A fonte também registra um elemento que complica ainda mais o panorama: há relatos de que usuários chineses estiveram amplificando as críticas à infraestrutura de data centers americanos enquanto se passavam por cidadãos dos EUA nas redes sociais. A OpenAI chegou a banir contas vinculadas à China que estavam potencializando o backlash relacionado ao aumento nos preços de energia elétrica. Isso não invalida as preocupações reais das comunidades, mas adiciona uma camada geopolítica ao problema: os mesmos EUA que competem com a China pelo topo da corrida de IA podem estar tendo sua infraestrutura de compute travada, ao menos em parte, por operações de influência vindas de lá.
O gargalo que nenhum chip resolve
Para empresas como a Anthropic, que já enfrenta dificuldades para acessar capacidade computacional suficiente, cada projeto bloqueado é um gargalo a mais numa cadeia que já opera sob pressão. O governo federal, por sua vez, vê a situação com preocupação estratégica: bloquear data centers é, na prática, bloquear a infraestrutura que sustenta a competitividade americana em IA frente à China.
Fonte: Tom’s Hardware
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Esta postagem foi modificada pela última vez em 15/06/2026 11:35