IPv6 já está habilitado para 60% dos usuários de Internet no Brasil
O Brasil alcançou um novo marco na modernização de sua infraestrutura de Internet. Segundo dados do Asia Pacific Network Information Centre (APNIC), 60% dos usuários de Internet no país já possuem conexões capazes de utilizar o protocolo IPv6, tecnologia desenvolvida para superar as limitações de endereçamento do antigo IPv4.
A marca foi anunciada pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), com base na métrica IPv6 Capable, que acompanha a capacidade de utilização do protocolo em conexões de diferentes países.
O avanço é significativo porque o IPv6 permite ampliar a quantidade de dispositivos conectados à Internet sem depender tanto dos mecanismos de compartilhamento de endereços utilizados atualmente.
Apesar disso, atingir 60% não significa que o IPv4 deixou de ser utilizado no Brasil. Os dois protocolos continuam funcionando em paralelo, e a transição ainda está em andamento.
Por que o IPv6 é tão importante para a Internet?
Para entender a importância desse avanço, é necessário conhecer uma limitação da tecnologia que sustentou o crescimento da Internet durante décadas.
O IPv4 utiliza endereços de 32 bits, permitindo aproximadamente 4,3 bilhões de combinações. Embora esse número parecesse suficiente durante os primeiros anos da rede, a expansão dos computadores, smartphones e dispositivos conectados tornou o espaço de endereçamento insuficiente para atender à demanda global.
Uma das soluções adotadas foi o NAT (Network Address Translation), tecnologia que permite que vários dispositivos compartilhem um mesmo endereço IP público.
O IPv6 foi desenvolvido para enfrentar esse problema. Com endereços de 128 bits, o protocolo oferece aproximadamente 340 undecilhões de endereços possíveis, uma quantidade imensamente superior à disponibilizada pelo IPv4.
Na prática, essa capacidade facilita a expansão das redes, reduz a dependência do compartilhamento de endereços públicos e oferece mais flexibilidade para provedores e administradores de infraestrutura.
Isso não significa, entretanto, que o IPv6 torne automaticamente a conexão mais rápida ou segura. O desempenho e a segurança continuam dependendo de fatores como equipamentos, configuração da rede e infraestrutura dos provedores.
Brasil ultrapassou os 60% após duas décadas de investimentos
Segundo o NIC.br, o avanço brasileiro resulta de um trabalho iniciado há aproximadamente 20 anos.
Em 2006, o Registro.br começou a distribuir endereços IPv6 no país. Dois anos depois, foi criado o Projeto IPv6.br, iniciativa dedicada à formação de profissionais e à disseminação de conhecimento técnico. Desde então, aproximadamente 11 mil especialistas participaram das capacitações promovidas pelo projeto.
Outras medidas também contribuíram para ampliar a adoção. Em 2009, o NIC.br disponibilizou uma estrutura experimental de IPv6 no IX.br de São Paulo, permitindo que provedores testassem a tecnologia em condições reais.
O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) também publicou recomendações para estimular a implementação do protocolo entre provedores, fabricantes, empresas, órgãos públicos e instituições de ensino.
De acordo com Antonio Moreiras, gerente de projetos e desenvolvimento do NIC.br, o percentual registrado pelo APNIC não representa uma oscilação isolada.
A métrica considera uma média das medições dos 30 dias anteriores. Além disso, os resultados diários passaram a permanecer acima de 60% a partir de 2 de outubro de 2026, indicando uma tendência consistente de crescimento.
O que muda para quem utiliza Internet no Brasil?
Para a maioria dos usuários, a adoção do IPv6 acontece de maneira transparente. Não é necessário instalar um aplicativo específico ou substituir o computador simplesmente porque o protocolo passou a ser utilizado.
Quando o provedor, o roteador e o dispositivo oferecem suporte adequado, a conexão pode utilizar IPv6 automaticamente para acessar serviços compatíveis.
Uma das principais vantagens está na infraestrutura. Com uma disponibilidade muito maior de endereços, provedores podem ampliar suas redes com menor dependência de mecanismos como o CGNAT, utilizado para compartilhar endereços IPv4 públicos entre diferentes clientes.
Isso pode simplificar determinadas aplicações que dependem de conexões diretas entre dispositivos, embora o funcionamento continue sujeito a configurações de firewall e outras restrições de rede.
O usuário também pode verificar se sua conexão oferece suporte ao protocolo por meio de ferramentas como o Teste IPv6, que identifica a disponibilidade de IPv4 e IPv6.
Mesmo com o avanço brasileiro, a substituição completa do IPv4 ainda não tem prazo definido. Como os dois protocolos não são diretamente compatíveis, provedores e serviços precisam manter mecanismos que permitam a comunicação durante a transição.
O marco de 60% demonstra, portanto, que o IPv6 já está presente em uma parcela expressiva das conexões brasileiras, mas também evidencia que a modernização da Internet continua sendo um processo gradual.
Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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