Um exemplo criativo do valor dos drivers livres

A creative example of the value of free drivers

Autor original: Jonathan Corbet

Publicado originalmente no: https://lwn.net/

Tradução: Roberto Bechtlufft

Há muitos pontos em que os sistemas operacionais livres diferem dos proprietários. Uma das diferenças mais evidentes aos usuários é a oferta de drivers de dispositivos. Nos sistemas livres, os drivers de dispositivos também são são livres, e já vêm incluídos no sistema. Os sistemas proprietários costumam oferecer um número relativamente pequeno de drivers; os drivers proprietários, por sua vez, são vendidos junto com o hardware em questão e devem ser instalados. Aconselho àqueles que se perguntam qual metodologia dá melhores resultados a se informarem sobre os eventos do dia 28 de março, data em que a Creative Labs interditou um desenvolvedor independente que trabalhava em melhorias nos drivers da Creative.

A Creative, como você deve saber, fabrica há anos equipamentos de áudio. As opiniões sobre a qualidade de seus produtos variam, mas não há dúvidas de que a Creative tem sido muito bem-sucedida nesse mercado. Os consumidores da Creative, no entanto, estão passando por maus bocados na migração para o Vista. Parece que os drivers da Creative não conseguem oferecer no Vista o mesmo nível de funcionalidade que oferecem em versões anteriores do Windows, e seus consumidores acabam ficando com um hardware capenga. Obviamente os usuários não estão nem um pouco satisfeitos com a situação.

Eis que surge um desenvolvedor chamado “Daniel_K”. Daniel se dedicou a descobrir como o hardware funcionava e criou patches para os drivers da Creative para que eles, mais uma vez, permitissem o acesso a todo o potencial do hardware. E então ele tornou os drivers disponíveis pela internet. Os donos de hardware da Creative adoraram: finalmente alguém havia resolvido seus problemas. Era de se esperar que a Creative também ficasse contente; clientes satisfeitos costumam ser bons para os negócios.

Mas não é bem assim que as coisas funcionam. Pelo contrário, a Creative apagou os links para os drivers do seu fórum e postou uma carta pública de “cease-and-desist” – uma espécie de “pare agora ou vamos te processar”. Nas palavras de Phil O’Shaughnessy, da Creative:

Ao permitir que nossa tecnologia e propriedade intelectual sejam utilizadas em placas de som para as quais não foram originalmente destinadas, você está, em termos práticos, roubando nossos produtos. Ao pedir doações pelos pacotes que oferece, você está lucrando com algo que não é seu. Se nós decidimos desenvolver e oferecer suporte a determinadas funções em algumas placas e não em outras, essa é uma decisão de negócios, e só nós temos o direito de tomá-la.

Não há dúvidas de que a Creative está operando dentro da lei. Ela é a proprietária dos direitos de seus drivers, e impõe aos seus usuários o habitual acordo de licença do tipo “não usarás engenharia reversa”. Então, ainda que Daniel_K tivesse (ou não) o direito legal de fazer engenharia reversa com o driver (o que depende do país em que ele mora), ele com certeza não tinha o direito de redistribuir versões modificadas dos drivers da Creative. Pedir doações para continuar seu trabalho não ajudou a torná-lo popular na Creative. Quando se lida dessa maneira com software proprietário, é de se esperar uma reação dessas.

A lei pode estar ao lado da Creative, mas é interessante analisar a situação. Os usuários talvez atribuíssem o problema dos drivers à falta de competência da Creative, ou talvez aos tormentos que, como seu editor tem ouvido por aí, são lugar-comum no Vista. Mas a verdade é que os drivers capengas da Creative são o resultado de uma “decisão de negócios”. Ao invés de dar aos seus consumidores o máximo que seus equipamentos têm a oferecer, a Creative decidiu restringir a funcionalidade deles, numa presumível tentativa de motivar seus consumidores a comprarem hardware novo e bem suportado. Ao trazer alegria para os consumidores da Creative, Daniel_K estava ameaçando o plano de negócios dela.

Agora, tomemos como exemplo um fabricante cujo hardware é suportado por drivers livres. Esse fabricante não tem a possibilidade de usar drivers capengas como maneira de “encorajar” seus consumidores a comprarem hardware novo. Pelo contrário, o fabricante tem todos os motivos para oferecer o melhor hardware possível e garantir que que ele funcione com força total. Nesse caso, um desenvolvedor independente que tornasse os produtos do fabricante ainda melhores teria mais chances de conseguir um emprego do que de receber uma carta de “cease-and-desist”. Ao invés de convocar seus advogados, esse fabricante poderia se preocupar em ser um fabricante de hardware.

Seu editor sabe de quais fabricantes ele deve comprar hardware. Embora esse costume ser o resultado, os drivers livres não são apenas um caminho para um suporte de maior qualidade. Eles não são apenas uma maneira de contribuir para a estabilidade e a depuração do kernel. Eles também não são apenas uma maneira de garantir que todos possam aprender e se beneficiar do trabalho que foi realizado para que o hardware funcione. Eles são, sim, uma maneira de fugir à manipulação imposta pelos fabricantes de hardware que chegaram à conclusão de que oferecer o maior valor possível a seus consumidores não é mais uma estratégia vitoriosa. Esse é o tipo de liberdade que vale a pena ter.

Créditos a Jonathan Corbethttps://lwn.net/

Tradução por Roberto Bechtlufft <robertobech at gmail.com>

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Esta postagem foi modificada pela última vez em 02/06/2009 22:26

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