A computação em 2020: derrubando as barreiras homem-PC

Computing in 2020: erasing the boundary between human and PC

Autor original: John Timmer

Publicado originalmente no: https://arstechnica.com/

Tradução: Roberto Bechtlufft

É natural pensarmos que a interface do computador é um tanto parada. A interação homem-computador (mais conhecida pela sigla HCI, ou Human-Computer Interaction) não mudou muito desde o advento das interfaces com janelas e movidas a mouse, há mais de 20 anos. Mas a proliferação de dispositivos móveis está começando a mudar esse quadro, e como se isso já não bastasse, está em curso uma grande mudança no tipo de informação que é disponibilizada hoje aos computadores, e na maneira como nós a acessamos. Em março de 2007, o centro de pesquisas da Microsoft convidou 45 pesquisadores a especularem sobre o cenário da HCI em 2020; agora, um relatório apresentando as conclusões dos participantes foi liberado ao público.

O relatório é bem abrangente, e é difícil resumi-lo de maneira concisa. Mas para nossa felicidade, há alguns pontos bastante óbvios e fáceis de sintetizar. O relatório conclui, por exemplo, que a interação por gestos e por voz terá um papel de destaque na HCI, e sugere que os impulsos nervosos por si só já poderão começar a ser usados para controlar os computadores, o que seria especialmente interessante para portadores de deficiência. O relatório prevê ainda que, quando combinada a um maior poder de processamento, a conectividade pervasiva que permite aos computadores agirem como substitutos a nossa memória começaria a dar a eles a capacidade de complementar a razão humana.

Mas há conclusões menos óbvias. Os computadores já são capazes de nos identificar por meio de tecnologias como reconhecimento facial e RFID, e de nos seguir usando GPS e circuitos fechados de vídeo. O fato é que quando vamos a um aeroporto nós já estamos interagindo involuntariamente com sistemas computacionais. Os experts dizem que essa tendência deve continuar crescendo em ritmo cada vez mais acelerado, o que levanta questões importantes sobre privacidade. Em alguns casos, como nos implantes médicos, a fronteira entre o homem e o computador praticamente não existe mais – ou há alguma “interface humana” entre o coração e um dispositivo que monitora e manipula suas batidas?

Outra tendência vai interagir e se combinar a essa. O relatório sugere que ainda estamos engatinhando na era da computação móvel, mas que em 2020 estaremos na era da computação ubíqua. Isso significa que os computadores estarão em todo lugar, e que ao invés de termos acesso às informações e recursos de uns poucos computadores e dispositivos, nós estaremos conectados a milhares deles por meio de uma rede pervasiva, que estará a nossa volta sem que nós sequer tenhamos consciência disso.

Uma vez que tudo a respeito de uma pessoa seja gravado, copiado e twitterizado, e que essa informação esteja constantemente disponível, o relatório sugere que chegaremos ao fim do efêmero. Ao ter suas informações médicas, fotos pessoais e cada minuto de seus pensamentos armazenados online de forma permanente, as pessoas irão fornecer voluntariamente mais informações do que qualquer espião federal ou agência de publicidade seria capaz de reunir.

Para lidar com essas mudanças, dizem os pesquisadores, é preciso pensar com cuidado em como conscientizar às pessoas das situações em que esse armazenamento pervasivo estará em curso, e dar a elas a decisão de participar ou não dele. Ao se referirem aos sistemas de navegação por GPS, os autores destacam: “se as pessoas parecem tão dispostas a obedecer cegamente às instruções dadas por computadores simples, deveríamos começar a nos preocupar com o relacionamento que as pessoas terão com os computadores mais complexos que serão desenvolvidos até 2020.”

Para que tudo dê certo, o relatório sugere a adição de um quinto passo ao tradicional processo de estudar/planejar/construir/avaliar que orienta o design: compreender. Para os autores, não é suficiente desenvolver um objeto para cumprir uma tarefa. Numa era em que as informações sobre aquela tarefa podem ser compartilhadas e armazenadas para sempre, os designers terão que levar em conta valores humanos, como privacidade, segurança pessoal, a distinção entre a vida pessoal e a profissional etc. É um admirável mundo novo este em que entramos, e a interação homem-computador vai ter que se transformar para que seus ocupantes possam navegar por ele.

Créditos a John Timmerhttps://arstechnica.com/

Tradução por Roberto Bechtlufft <robertobech at gmail.com>

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