Linux: Um estudo de caso

Por: Vitor Nunes Caetano

Para quem não conhece de perto a filosofia que rege o mundo dos softwares livres, a presença de muitas distribuições LINUX, pode causar, a princípio, uma certa confusão. Isso porque estamos acostumados a um mundo regido pela lógica da concorrência, onde através da força do interesse comercial, se busca estabelecer o produto ideal, aquele capaz de superar e desbancar todos os outros, candidatando-se a detenção de uma hegemonia, quase que perpétua.

No mundo dos softwares livres as coisas não são assim, pois o que se busca é a garantia da saudável diversidade, onde produtos similares possam coexistir e assim satisfazer diferentes gostos, fruto do trabalho cooperativo e solidário de diferentes comunidades, formadas por usuários e desenvolvedores espalhados pelo mundo. Esse é o caso dos muitos LINUX’s que conhecemos, pois apesar da enorme variedade, uma análise mais apurada pode nos fazer perceber, que as reais diferenças podem ser, na verdade, bem menores do que imaginamos, diria para ser mais exato, bem sutis.

Quando falamos de LINUX, precisamos reaprender alguns conceitos de informática, relembrando por exemplo, que os programas instalados em nossos micros formam um sistema computacional, formado pelo sistema operacional e os diversos aplicativos. O termo LINUX, por exemplo, refere-se ao KERNEL do sistema operacional, o que corresponde somente a uma parte do sistema computacional, pois sem os diversos aplicativos, não se realizaria nenhuma tarefa. Mas a nossa experiência anterior com Windows, acaba por nos confundir e assim, por força do velho hábito, enxergamos o todo como LINUX, o que nos impede de desfrutar daquilo que há de melhor no mundo dos softwares livres, a diversidade. Nesse mundo tudo é plural, pois falamos de navegadores de internet, editores de texto, player’s de áudio e vídeo, ambientes gráficos, etc, o que nos devolve o sagrado poder da escolha, de eleger para si, seja solitariamente ou em comunidade, o que julgar melhor.

O KERNEL é o elemento responsável em fazer com que os componentes físicos – os hardwares dos computadores – conversem com os softwares. Ao digitar esse texto, o KERNEL estabeleceu uma interface entre os sinais emitidos pelo teclado e o texto, que será criado pelo editor e visualizado em seu monitor. Essa é uma explicação bem simples para uma ação que é bem mais complexa, mas que serve ao propósito.

O KERNEL LINUX foi criado por Linus Torvald e continua sendo desenvolvido por ele e uma equipe de programadores espalhados pelo mundo. Cada versão do KERNEL recebe uma numeração, indicando que novos aprimoramentos foram incorporados a ela. Atualmente a versão estável responde pelo numeração 2.6.24.4 e o acompanhamento do lançamento de novas versões podem ser realizados pelo site The Linux Kernel Archives.

Desde 2006 venho participando de um grupo que está testando um software para produção de animação, o MUAN, gerenciado pelo pessoal do ANIMA MUNDI. Veja mais em: https://www.muan.org.br/. Uso esse caso para fazer mais algumas considerações.

A versão atual do MUAN foi homologada para rodar sobre a versão do KERNEL 2.6.10, tendo como base a distribuição FEDORA. Contudo a versão mais atual do KERNEL, referente a data de postagem desse texto atende agora pelo número 2.6.24.4. A que está instalada na versão remasterizada do KURUMIN 7, que eu estou usando em meu computador é a 2.6.18. Diante disso podemos nos perguntar: o que uma versão de KERNEL mais recente poderia trazer de benefícios imediatos? Posso apontar aqui melhor suporte a hardware, principalmente se viermos a utilizar micros mais novos, como por exemplo, oferecer maior facilidade de reconhecimento de placas de rede, som, vídeo, mas também das placas de capturas, placas firewire, câmeras digitais, etc, que especificamente favoreceriam a quem queira trabalhar com o programa MUAN, permitindo que os hardwares conectados tenham melhor desempenho.

Vamos então a um pequeno exercício: Se a Joana roda o MUAN pelo FEDORA, o Bernardo pelo MANDRIVA, o Antônio pelo DEBIAN, o Vitor pelo KURUMIN, qual deles estará usando o melhor LINUX? Se você ficou tentado a fazer uma escolha, não faça, pois essa questão, pode não fazer o menor sentido. Se todos eles estão fazendo o MUAN rodar, tanto faz a distribuição. Se todos usam a mesma versão de KERNEL, nesse quesito não há rigorosamente nenhuma diferença entre elas. Problemas poderão surgir se a versão de LINUX escolhida rodar sobre uma versão de KERNEL já obsoleto, o que dificultará no reconhecimento dos hardwares e pacotes necessários para que o MUAN funcione plenamente. Dessa forma não há rigorosamente nenhum impedimento para que o MUAN rode em qualquer distribuição, que utilize o

KERNEL LINUX que exista ou venha a existir. Isso vale, de certa forma, para qualquer programa, pois se o aplicativo [A] foi feito para rodar no LINUX X, deveria em tese também rodar no LINUX Z. A questão principal aqui é garantir que as chamadas dependências, para a instalação do programa,sejam satisfeitas.

O MUAN foi desenvolvido a partir do FEDORA, um sistema que utiliza praticamente os mesmos softwares livres que estão presentes em todos os outros LINUX. As diferenças portanto são bem mais sutis e se baseiam em gostos, elas estão por exemplo no tipo de ambiente gráfico utilizado; no tipo de empacotamento usado para carregar esses softwares para o sistema; nos pacotes que estão disponibilizados em seus repositórios, que efetivamente podem ser instalados via internet ou por Cd’s, que podem ser adquiridos através da distribuição. O FEDORA, por exemplo, usa o ambiente gráfico GNOME, instalado como padrão do sistema, como o UBUNTO. No entanto, os programas são empacotados de forma diferente nesses dois LINUX, pois o FEDORA utiliza os chamados pacotes RPM, já o UBUNTU, os pacotes DEB, que foram criados pela distribuição DEBIAN, usados também pelo KURUMIN.

Dessa forma, em qualquer distribuição que utilize pacotes RPM, poderemos também instalar o MUAN usando os pacotes que foram compilados para o FEDORA. No caso das distribuições que usam pacotes DEB, podemos usar programas que façam essa transformação, como o ALIEN. O problema maior, de novo, está em como fazer isso, mas só se você não compreender aquilo que o mundo do software livre tem de melhor, que é o espírito de cooperação e solidariedade. Quem sabe fazer disponibiliza para quem não sabe e quer usar, e assim todo mundo se beneficia e compartilha experiências. Dessa forma deixamos de ser meros usuários para nos tornamos participantes de um processo continuo de melhoramento desses softwares.

Vitor Nunes Caetano

Especialista em Informática Educativa e Mídias;

Professor das redes públicas Municipal e Estadual do Rio de Janeiro

Atua no desenvolvimento de projetos de Informática Educativa e Mídia – Rádio e Imprensa Escolar – com alunos do ensino fundamental e médio;

Participa de projetos de capacitação de professores no uso de TIC’s – Tecnologias de Informação e Comunicação.

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Esta postagem foi modificada pela última vez em 02/06/2009 22:26

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