Em entrevista à Computer World, Linus Torvalds (criador do kernel Linux) falou um pouco da sua vida e da criação do Linux, além da situação atual do projeto. Temas como open source versus software proprietário, adoção do Linux pelo governo e as licenças open source fazem parte da entrevista. Claro, não tem como não falar da Microsoft, mas para Linus ela é simplesmente irrelevante – uma empresa como qualquer outra. Ele ainda fala, em resposta às perguntas, sobre seu “receio” de perder os créditos do Linux quando começou a soltá-lo abertamente, e deixa claro que nunca teve a intenção de montar uma empresa. Concluindo, valeu a pena, o que seria do mundo sem o Linux hoje?!
Respondendo uma questão sobre a “batalha Linux vs Microsoft”, Linus mantém sua posição firme e tranqüilo, confira um trecho:
ComputerWorld – Você está preparado para essa batalha? Será que Linus Torvalds e a comunidade do software livre podem vencer esta guerra contra as legiões de Bill Gates?
Torvalds – Não vejo isso como uma “batalha”. Faço o que faço porque gosto e acho que vale à pena, e não estou nessa por causa de nenhuma cruzada anti-Microsoft. Usei alguns produtos da Microsoft ao longo dos anos, mas nunca nutri uma forte antipatia contra eles. A Microsoft simplesmente não me interessa. E o movimento de código aberto não é um movimento anti-Microsoft, apesar de haver certos grupos que talvez participem devido aos seus sentimentos anti-Microsoft.
O código aberto é um modelo sobre como fazer coisas, e eu acredito que este é um jeito muito melhor de fazer as coisas. O código livre vai tomar conta do mercado não por causa de nenhuma “batalha”, mas simplesmente porque jeitos melhores de fazer as coisas eventualmente tomam o lugar de métodos inferiores.
Por acaso a “ciência” é uma batalha contra a “ignorância”? Não, a ciência simplesmente é. E ela funciona tão bem que assume o lugar de velhas noções ignorantes. Não precisamos nos preocupar com gatos pretos cruzando a nossa frente, passar por baixo de escadas ou espelhos quebrados, pois hoje sabemos como o mundo funciona, e nos demos conta de que gatos pretos não são mais um sinal de perigo.
CW – O governo brasileiro está na linha-de-frente da promoção do software livre nas suas mais diversas instâncias. Você está a par disto?
Torvalds – Estou, embora não siga o assunto de perto. Funciona um pouco como os fornecedores comerciais. Acho muito importante ver todos estes diversos grupos de interesse envolvidos, mas eu pessoalmente sou motivado pela tecnologia e não quero me envolver diretamente com os interesses dos diferentes grupos.
Este é mais um exemplo da importância dos usuários, e como o código aberto permite aos usuários tomar suas próprias decisões ao se envolver com o desenvolvimento. Falando estritamente, um governo é apenas um outro usuário, e que tem o seu próprio conjunto de interesses e de motivações.
Agora falando sobre o software livre e a “perda” da propriedade intelectual…
CW – Você não temia perder a propriedade intelectual quando liberou o Linux?
Torvalds – Eu não pensava nesses termos (e ainda não penso). Nunca se tratou de algo ligado à “propriedade individual”, mas ao esforço que havia despendido no projeto. Mas sim, eu fiquei um pouco preocupado, pois sendo um desenvolvedor totalmente desconhecido na Finlândia, alguém talvez decidisse pura e simplesmente ignorar minha licença, usar o meu código e não fornecer de volta suas modificações. Por outro lado, o que no fundo eu tinha a perder?
Além disso, olhando para trás, francamente, não é algo com o que valha a pena se preocupar. Em primeiro lugar, mesmo que eu fosse o cara mais esperto do planeta, e compilasse algo realmente brilhante, ainda assim levaria anos para fazê-lo. Em outras palavras, levaria muito tempo antes que o resultado valesse a pena para alguém roubá-lo. Portanto ao torná-lo público desde o início, não tinha que me preocupar com pessoas ou empresas que quisessem roubar o meu trabalho. E quando o código tornou-se algo valioso, o projeto já era suficientemente conhecido de modo que ninguém poderia fraudá-lo em larga escala sem ser pego. Em larga medida foi de fato a liberdade do projeto que garantiu a sua segurança.
Se existem pessoas usando o Linux sem respeitar a licença? Claro! O copyright não é algo necessariamente honrado em todas as partes do mundo, e existe gente inescrupulosa e empresas que agem deliberadamente fora da lei. São coisas que acontecem. Mas uma vez que o projeto se torna grande o suficiente para que estas coisas aconteçam, não há mais razão para se preocupar. Aqueles que fazem mal uso do projeto não estão limitando o acesso aos outros, mas a eles mesmos! Se alguém usa o Linux sem seguir o GPLv2, está limitando o seu próprio mercado. Não pode vendê-lo legalmente no mundo desenvolvido sem se preocupar com o lado legal, e não obterá a vantagem do código livre que as empresas que seguem a licença obtêm, isto é, ter seus aprimoramentos acrescentados ao produto. Esta era uma coisa que me preocupava antes de liberar o Linux, mas ao longo dos anos me dei conta que não valia a pena dar importância a isto. Existem gente e empresas sem escrúpulos? Sim, mas não são eles que fazem importam ou fazem a diferença.
Veja a entrevista completa e traduzida no ComputerWorld Brasil:
https://computerworld.uol.com