Opinião: A lenta adoção do Vista

Um dos grandes fatores que sustenta a permanência do Windows como o sistema mas usado é a inércia. O Windows é o sistema que vem pré instalado em mais de 99% dos PCs novos. A grande maioria das pessoas não se preocupa muito com qual sistema está
instalado, nem tenta entender muito sobre a configuração ou os detalhes internos de seu funcionamento. Desde que ele rode os programas que querem usar, reconheça a webcam que comprou na lojinha da esquina e seja capaz de acessar o youtube e o orkut, estão
felizes.

Como a maioria das pessoas usa Windows, o trabalho dos técnicos de 30 reais também fica mais fácil, pois quando são chamados para resolver qualquer problema mais grave, só precisam reinstalar o sistema e os programas. Os fabricantes de hardware também
ficam numa posição cômoda, já que precisam desenvolver drivers e se preocupar com a compatibilidade com um único sistema. Como podemos ver, um sistema “tamanho único”, adotado pela maioria tem lá suas vantagens.

Esta mesma inércia que dificulta a popularização das diferentes distribuições Linux e, basicamente, de qualquer sistema “não Windows” vem resultando num efeito curioso. Assim como mostram pouco interesse para migrar para outro sistema, a maioria das
pessoas e também empresas têm demonstrado pouco interesse em migrar para o Vista. A lei da inércia parece estar se virando contra a Microsoft.

Na época do Windows 95/98, uma das grandes queixas era a instabilidade do sistema. Isso fez com que os sistemas baseados no Windows NT, com destaque para o Windows 2000, fossem adotados rapidamente pelas empresas e usuários mais técnicos.

Inicialmente, o Windows XP encontrou dificuldades, já que ele era mais pesado. Apesar disso, conforme PCs novos com ele pré-instalado foram chegando ao mercado e os buracos foram sendo tapados, ele acabou substituindo as versões anteriores, mais rápido
do que muitos pensavam. No final, o XP acabou agradando à maioria. Depois de dois service packs e uma caminhão de atualizações, ele se tornou um sistema razoavelmente estável. Com a evolução do hardware e a popularização dos micros com 256 MB de RAM ou
mais, ele também passou a ser visto como um sistema relativamente leve para os padrões atuais. O sistema de ativação também é facilmente burlável, de forma que qualquer um pode obter uma cópia muito facilmente. No final das contas, o XP acaba sendo um
sistema “livre” para a maioria.

Chegamos então ao Vista. Bem, indo direto ao assunto, você conhece alguém que tenha comprado a caixinha nas lojas, ou que tenha comprado um micro novo com ele pré instalado e esteja utilizando-o como sistema principal? Considerando a brutal publicidade
feita, o número de pessoas realmente rodando o sistema é bastante baixo.

O fato de ser mais pesado, elimina uma grande parte dos possíveis usuários, que não possuem uma máquina com condições de rodar o Vista dignamente e não pretendem trocar de máquina num futuro próximo. Mesmo entre os usuários com máquinas mais parrudas,
um grande número prefere o XP, já que o sistema é mais leve, e outro tanto tem curiosidade em instalar o Vista, mas acaba desistindo ao ver os amigos falarem mal.

O novo sistema de ativação também tem se voltado contra o sistema, já que, fora dos países mais ricos, pouca gente realmente paga pelo sistema operacional. A grande maioria simplesmente pirateia e outros tantos utilizam as versões OEM, fornecidas junto
com os micros. Apenas uma pequena minoria realmente vai às lojas comprar as caixinhas. Neste ambiente, um sistema difícil de piratear, acaba sendo um sistema também pouco usado. Com a hesitação do público, os fabricantes continuam oferecendo micros novos
com o Windows XP, oferecendo o Vista apenas nas configurações mais parrudas. Recentemente a Microsoft divulgou que vai encerrar a venda de cópias do Windows XP a partir do final do ano, fazendo com que os fabricantes tenham que adotar o vista “na marra”,
o que para mim soa mais como um gesto desesperado para acelerar a adoção do novo sistema. Afinal, financeiramente falando, faz pouca diferença se os fabricantes vendem PCs com o XP ou com o Vista, já que as versões OEM de ambos custam aproximadamente o
mesmo valor.

Temos ainda a questão das empresas, que acabam sendo ainda mais conservadoras que os usuários domésticos com relação à adoção de novos sistemas. Comprar novas máquinas e arcar com os demais custos de migração e treinamento não soa como uma idéia muito
interessante. É de se esperar que, eventualmente, o Vista acabe encontrando seu lugar no mercado, de uma forma ou de outra. A questão é, em que velocidade e a que custo.

Embora ainda esteja numa posição bastante confortável em termos de market-share e lucros, não se pode negar que este é um momento vulnerável para a Microsoft. Ao contrário de 2001, quando os principais concorrentes ainda eram “feios e difíceis de
usar”, temos hoje distribuições Linux bastante fáceis de usar, como o Mandriva, SuSE e mesmo o Ubuntu. No Brasil, o custo do sistema não vem muito ao caso, pois, como comentei anteriormente a maioria não paga por ele em primeiro lugar, mas as dificuldades
relacionadas ao processo de ativação do Vista, a relativa falta de drivers, as diferenças de configuração em relação ao XP e o grande número de aplicativos incompatíveis, tem feito com que muitos passem a apontar as distribuições Linux como opções mais
fáceis de upgrade para quem atualmente usa o XP do que o próprio Vista, o que é inédito.

Não vejo o Windows abandonando a posição de sistema mais utilizado nos próximos anos, mas é bem provável que as “dores do parto” custem ao sistema vários pontos nas estatísticas de uso.

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