Usar fones Bluetooth seria parecido com colocar um pequeno forno de micro-ondas ao lado da cabeça? A comparação parece assustadora, mas foi justamente dessa maneira que o médico cirurgião e especialista em longevidade Patricio Ochoa introduziu uma explicação sobre a radiação emitida por esses dispositivos.
A conclusão dele, porém, é bem menos alarmante: não existem evidências de que a radiofrequência emitida por fones Bluetooth, nos níveis encontrados nesses aparelhos, cause danos cerebrais, câncer ou alterações neurológicas.
Bluetooth e micro-ondas realmente usam frequências parecidas
A comparação de Ochoa tem uma base física. Muitos dispositivos Bluetooth trabalham na faixa de aproximadamente 2,4 GHz, também utilizada por fornos de micro-ondas. Isso não significa, entretanto, que os dois equipamentos exponham o corpo à mesma quantidade de energia.
“Um micro-ondas usa entre 700 e 1.200 watts de potência”, explica Ochoa. Já um fone Bluetooth trabalha com potências medidas em miliwatts, uma diferença de várias ordens de grandeza.
É justamente a potência que muda completamente a situação. Um forno foi projetado para transferir energia suficiente para aquecer alimentos. A transmissão Bluetooth precisa apenas enviar dados a poucos metros de distância.
A radiofrequência também pertence ao grupo das radiações não ionizantes. Diferentemente de raios X e outras radiações ionizantes, ela não possui energia suficiente para ionizar átomos ou danificar diretamente o DNA dessa forma.
Quanto dessa energia chega ao corpo?
Ochoa também menciona a SAR, ou taxa de absorção específica, usada para estimar quanta energia de radiofrequência é absorvida pelo corpo.
Segundo o médico, medições feitas em fones Bluetooth ficam muito abaixo dos limites internacionais de exposição. As diretrizes da Comissão Internacional de Proteção contra Radiação Não Ionizante (ICNIRP), atualizadas em 2020, incluem explicitamente tecnologias como Bluetooth, Wi-Fi, 5G e celulares.
Até agora, organizações de saúde não encontraram evidências consistentes de efeitos adversos causados pelas baixas exposições produzidas por tecnologias sem fio dentro dos limites estabelecidos.
Então o risco é zero?
Em 2011, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, classificou campos eletromagnéticos de radiofrequência como “possivelmente carcinogênicos para humanos” (Grupo 2B). A categoria indica que existem evidências limitadas e que uma relação causal não pôde ser estabelecida com segurança.
Isso também não significa que qualquer exposição classificada no Grupo 2B apresente o mesmo nível de risco. A própria IARC ressalta que suas categorias descrevem a força da evidência de que algo pode causar câncer, e não o tamanho do risco em uma exposição cotidiana.
Com as evidências disponíveis atualmente, portanto, usar fones Bluetooth normalmente não equivale a manter um micro-ondas funcionando ao lado do cérebro. Eles podem operar em frequências semelhantes, mas a quantidade de energia envolvida é radicalmente diferente.
“Quando falamos de física, a frequência indica apenas a velocidade de vibração da onda, não a sua intensidade”, completa Ochoa.
Esta postagem foi modificada pela última vez em 18/08/2026 10:31