i740: a história da primeira placa de vídeo da Intel que fracassou em vendas e até rendeu briga nos tribunais

A Intel dominou o PC nos anos 1990 de um jeito que poucas empresas dominaram qualquer coisa. Mais de 80% dos computadores pessoais do mundo rodavam com um processador Intel. O selo “Intel Inside” não era só um slogan, era um carimbo de superioridade que a empresa gravou na cabeça dos consumidores com campanhas publicitárias que viraram referência no marketing da indústria de tecnologia. Com tanto poder de mercado concentrado nas mãos, a lógica parecia óbvia: se a empresa conseguia ditar o ritmo nos processadores, por que não fazer o mesmo com as placas de vídeo?

A empresa fez um movimento para esse mercado no dia 12 de fevereiro de 1998, com o lançamento da i740. Mas não funcionou, e a história de como isso aconteceu, incluindo um processo federal nos Estados Unidos e prática de dumping em Taiwan, é muito interessante e merece ser contada. Vamos nessa!

Intel i740

Uma perda simbólica

A Intel chegou à segunda metade da década de 1990 marcada por uma perda recente. Robert Noyce, cofundador da empresa e coinventor do circuito integrado, morreu em 3 de junho de 1990 em Austin, Texas, de infarto, aos 62 anos. Era um fim abrupto para o homem que ajudou a criar o substrato físico sobre o qual toda a indústria de semicondutores foi construída. Mas o show não podia parar, o lançamento da linha Pentium em 1993 consolidou a Intel como a maior fornecedora de semicondutores do mundo. Mais de 80% dos PCs do planeta tinham um chip Intel. Nesse contexto de domínio quase absoluto, entrar no mercado de GPUs não parecia um risco, parecia algo natural.

O chip que não nasceu na Intel

O processador gráfico i740 não começou dentro da Intel. O projeto nasceu na Real3D, empresa que tinha como origem um spin-off da divisão de simuladores de voo da Lockheed Martin. A Real3D trabalhava com gráficos de alto desempenho para aplicações militares e de arcade, um currículo peculiar para uma empresa que acabaria ajudando a Intel a entrar no mercado consumidor de GPUs.

Em 1996, a Intel firmou uma parceria com a Real3D e com a Chips and Technologies, fabricante de semicondutores especializada em chips gráficos 2D. O projeto ganhou o codinome “Auburn”. A Intel adquiriu a Chips and Technologies em 1997 por US$ 430 milhões. No mesmo processo de entrada no mercado, a Intel comprou 20% de participação na Real3D no lançamento da i740, em 1998.

O chip resultante adotou o processo de fabricação de 350nm, moderno para os padrões de 1998, com 3,5 milhões de transistores e TDP de apenas 6 Watts. A placa foi construída ao redor do AGP 2x, padrão que a própria Intel havia estabelecido como sucessor do PCI, o que dava à empresa um incentivo adicional para empurrar uma GPU que forçasse a adoção do barramento.

Anúncio de uma configuração com Pentium II e i740 com o Pentium II. Repare que na publicidade é mencionado 440BX, esse era um chipset da Intel popular na época.

Especificações da Intel i740

A configuração de referência trazia:

  • GPU Intel i740 a 66 MHz

  • 2 a 8 MB de SDRAM ou SGRAM (100 MHz, interface de 64 bits, 800 MB/s de largura de banda)

  • RAMDAC de 200 MHz

  • AGP 2x (com versões parceiras no barramento PCI, chegando a 12 MB de memória)

  • Processo de 350nm

  • TDP de 6 Watts

Para comparação: a NVIDIA Riva 128, rival direta da época, também usava processo de 350nm, mas operava com clock de 100 MHz e uma largura de banda de memória levemente superior. A 3Dfx Voodoo2, lançada no mesmo ano, sequer tinha saída de vídeo própria, dependia de uma placa secundária, mas entregava desempenho 3D incomparável, especialmente em títulos que suportavam a API Glide.

Palit i740 Daytona

A i740 foi comercializada pela Intel sob dois nomes: Intel Real3D i740 Starfighter e Intel Express 3D. Parceiras lançaram versões próprias, a Palit i740 Daytona é um dos exemplos. Algumas dessas versões abandonaram o AGP em favor do PCI, mais comum nos sistemas da época, ganhando mais memória na troca, como versões com 12 MB de memória.

Algumas configurações vendidas com a Intel i740 na época.

 

O preço para OEMs e o comunicado otimista

No lançamento, a Intel precificou a i740 a US$ 34,75 na compra mínima de 10.000 unidades para fabricantes. No varejo, o consumidor final pagava entre US$ 80 e US$ 120. O comunicado oficial da Intel na época descrevia a placa como “alta performance para desenvolvedores e usuários finais”, otimizada para uso com o Pentium II, e citava títulos como Quake II, Red Line Racer, Incoming e Tonic Trouble como casos de uso emblematicos.

Mas o mercado não abraçou. A i740 entregou desempenho abaixo do esperado em jogos que demandavam aceleração 3D real, especialmente quando colocada frente a frente com a Voodoo2 da 3Dfx. Aproximadamente 45 empresas chegaram a exibir ou comercializar placas com o chip i740 embarcado, e as vendas totais chegaram a pouco mais de 4 milhões de unidades, um número que parece razoável até o momento em que se lembra que a 3Dfx, sozinha, vendia Voodoo em volumes muito maiores.

Algumas configurações eram vendidas apostando na combinação do processador K6 da AMD com a Intel i740

O processo federal

A Intel não se contentou em competir pelo produto. Em Taiwan, a empresa chegou a vender a i740 entre US$ 7 e US$ 18, contra um preço de varejo de US$ 80 a US$ 120 nos Estados Unidos, uma diferença que gerou denúncias de dumping na imprensa especializada da época. Correram também relatos de que era mais fácil para fabricantes de placas-mãe garantir fornecimento de processadores Pentium II se também comprassem i740. A Intel nunca abordou isso publicamente.

O que virou processo federal, em 8 de junho de 1998, foi outro motivo. A FTC abriu ação antitruste contra a Intel acusando a empresa de usar sua posição dominante no mercado de microprocessadores para cortar o fornecimento de informações técnicas e amostras de produtos da Compaq, da Digital Equipment Corporation e da Intergraph, todas elas envolvidas em disputas de patentes contra a Intel. 

A Intel respondeu no mesmo dia. Em comunicado oficial, F. Thomas Dunlap, vice-presidente e conselheiro geral da empresa, afirmou que a ação da FTC estava “baseada em uma interpretação equivocada da lei e dos fatos” e que a Intel havia “tomado medidas sem precedentes por mais de dez anos para garantir que todas as suas atividades estivessem em plena conformidade com a lei existente”. O argumento central da empresa era que cortar o acesso à sua propriedade intelectual para empresas que a processavam era um direito legítimo de defesa, não uma prática anticompetitiva. “Em nenhum desses casos a Intel negou a qualquer empresa o fornecimento de microprocessadores ou qualquer outro produto”, declarou a empresa em sua resposta formal à FTC

O caso foi encerrado em março de 1999 com um acordo, um dia antes do julgamento administrativo marcado. O acordo estabelecia que, se uma disputa de propriedade intelectual surgisse e o cliente optasse por não buscar uma liminar bloqueando a venda dos produtos Intel, a empresa continuaria fornecendo informações técnicas e amostras. A Intel assinou sem admitir culpa. Em setembro de 2000, a FTC fechou a investigação de vez.

A i752 e o retorno sem expressão

Em 1999, a Intel tentou uma segunda vez com a i752, lançada em tiragem muito limitada. Não gerou impacto. A empresa desistiu do segmento de GPUs dedicadas sem anúncio formal, redirecionando seus esforços para soluções integradas.

Primeiro nos chipsets, uma época em que o chip de vídeo vivia na ponte norte da placa-mãe, e depois diretamente nos processadores, o que se tornaria a base do negócio gráfico da Intel por mais de duas décadas. 

Em 2022, a Intel voltou ao mercado de placas de vídeo dedicadas com a família Arc. O resultado, até agora, novamente sem impacto. A empresa mantém cerca de 1% do segmento de placas de vídeo, segundo dados da Jon Peddie Research.

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Esta postagem foi modificada pela última vez em 06/06/2026 14:15

William R. Plaza: Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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