A Proton acaba de publicar um estudo que coloca em números o que muita gente suspeitava, mas preferia ignorar: os jogos mobile grátis mais baixados do mundo são, na prática, plataformas de coleta de dados disfarçadas de entretenimento. A empresa analisou os 100 jogos gratuitos mais populares para Android e encontrou um ecossistema de rastreamento que vai muito além de um banner de publicidade chato.
A Proton usou o Exodus Privacy, ferramenta especializada em identificar código de rastreamento dentro de aplicativos Android, para auditar os títulos mais baixados em quatro países. O resultado é difícil de ignorar: cada jogo carrega, em média, 29 trackers (rastreadores). Alguns chegam a 36. Juntos, esses 100 jogos já foram baixados quase 20 bilhões de vezes no mundo todo.
Nomes familiares aparecem na lista, como Block Blast! e Disney Solitaire. Não são aplicativos obscuros de desenvolvedores desconhecidos: são títulos mainstream, presentes nos dispositivos de centenas de milhões de pessoas. Os dados coletados por esses trackers incluem detalhes do dispositivo, hábitos de uso, informações de pagamento, idade, gênero e, o mais crítico de todos, localização.
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O rastreamento de localização é o ponto que a Proton destaca com mais ênfase, e com razão: ele consegue revelar onde você trabalha, dorme, viaja e passa o tempo. Não estamos falando de inferências vagas, mas de um perfil geográfico detalhado da rotina de qualquer pessoa. O dado mais perturbador do estudo é que isso acontece em categorias de aplicativos onde essa permissão não tem nenhuma justificativa funcional. Jogos de puzzle e de colorir não precisam saber onde você está. Mesmo assim, só em maio, os downloads de jogos com trackers de localização chegaram a 1,7 milhão nos Estados Unidos.
A origem dos trackers também levanta questões que vão além da privacidade individual. Nos EUA, 81% dos downloads envolveram trackers ligados a empresas chinesas, e 71% envolveram empresas russas. Em termos absolutos, isso representou, apenas em maio, cerca de 15,8 milhões de downloads com vínculos chineses e 13,7 milhões com vínculos russos. Para quem acompanha o debate sobre segurança de dados em âmbito geopolítico, os números têm um peso adicional.
O conselho da Proton e o paradoxo das soluções
A empresa não deixa muito espaço para otimismo regulatório: sua avaliação é que tanto as lojas de aplicativos quanto os órgãos reguladores fizeram pouco para conter essa prática. O argumento central da Proton é direto: se você não está pagando pelo produto, você é o produto. A partir disso, ela sugere duas saídas. A primeira é pagar por jogos, eliminando o incentivo financeiro para o rastreamento baseado em publicidade. A segunda é usar uma VPN com bloqueio de trackers para impedir que os aplicativos alcancem os domínios conhecidos dessas redes.
O problema é que a segunda solução tem um obstáculo próprio: a Proton encontrou trackers em 85% dos aplicativos de VPN baixados nos EUA. Ou seja, a ferramenta usada para se proteger pode estar te rastreando também. A recomendação da empresa é auditar qualquer VPN antes de instalar, o que, convenhamos, é um nível de diligência técnica que a maioria dos usuários simplesmente não vai executar.
Para o entusiasta que já sabe o que é um tracker e conhece ferramentas como o Exodus Privacy, o estudo da Proton é uma confirmação documentada do que a comunidade já discutia. O desafio agora é traduzir esses números para o público que baixa Block Blast! sem pensar duas vezes: enquanto esse gap de consciência existir, os 29 trackers vão continuar trabalhando em silêncio, a cada partida.
Fonte: Digital Trends