Quatro IAs do Google derrotam chefe final de Minecraft após 27 horas e 605 mortes
Uma equipe formada por quatro agentes de inteligência artificial do Google conseguiu derrotar o Ender Dragon, chefe final de Minecraft, após 27 horas de atividade ininterrupta. O experimento foi realizado sem orientações humanas durante a partida e terminou com um resultado curioso: os agentes morreram 605 vezes antes de alcançar a vitória.
O feito foi detalhado em um estudo publicado em 15 de outubro de 2026, no repositório científico arXiv. Os pesquisadores utilizaram o Gemini 4 Argon, modelo de inteligência artificial do Google, para investigar como diferentes agentes podem colaborar na execução de tarefas complexas durante longos períodos.
Ao contrário de jogadores tradicionais, os sistemas não utilizaram teclado, mouse ou imagens exibidas na tela. Em vez disso, controlaram seus personagens por meio de códigos em JavaScript, escritos e executados automaticamente ao longo da aventura.
O resultado chamou atenção pela autonomia demonstrada. Os agentes precisaram coletar recursos, fabricar equipamentos, explorar diferentes regiões, superar obstáculos e organizar suas atividades sem receber um roteiro específico para vencer o jogo.
Como quatro inteligências artificiais conseguiram completar Minecraft?
Para o teste, os pesquisadores criaram um mundo aleatório de Minecraft Java Edition 1.20.4, configurado no modo sobrevivência e na dificuldade Fácil. Cada agente recebeu o controle de um personagem por meio do Mineflayer, uma biblioteca de código aberto que permite automatizar ações dentro do jogo.
A única missão estabelecida era derrotar o Ender Dragon, respeitando as regras do modo sobrevivência. Nenhum participante recebeu uma função predeterminada ou uma estratégia elaborada pelos pesquisadores. A organização surgiu naturalmente durante os primeiros minutos da experiência.
Enquanto um agente procurava alimentos e suprimentos, outro se dedicava à mineração. Os demais ficaram responsáveis pela fabricação de equipamentos e pela preparação do portal para o Nether.
Para coordenar as atividades, os personagens utilizaram o chat do próprio Minecraft e um sistema de memória compartilhada, no qual registravam coordenadas, descobertas e informações importantes. Em aproximadamente duas horas, a equipe já havia conseguido ferramentas de ferro, diamantes e acesso ao Nether. A partir daí, o progresso ficou mais complicado.
Os agentes morreram centenas de vezes e precisaram aprender com os erros
Um dos maiores desafios foi reunir os materiais necessários para chegar ao End, dimensão onde acontece a batalha final. Os agentes precisaram enfrentar Blazes para conseguir varas de blaze e derrotar Endermen para obter pérolas do Ender, utilizadas na fabricação dos Olhos do Ender.
Durante essa etapa, a equipe desenvolveu estratégias próprias, incluindo a construção de abrigos baixos que permitiam atacar Endermen sem que as criaturas conseguissem entrar. Entretanto, nem tudo saiu conforme o planejado.
Em determinado momento, um dos agentes morreu queimado enquanto transportava materiais importantes. Em outra situação, uma bola de fogo disparada por um Ghast destruiu itens que haviam sido derrubados. Os acontecimentos fizeram os sistemas modificar suas estratégias e registrar orientações para evitar que os mesmos problemas se repetissem.
A colaboração também foi decisiva quando um dos personagens morreu afogado carregando os 12 Olhos do Ender necessários para ativar o portal. Seus companheiros compartilharam a localização dos itens e conseguiram recuperá-los antes que desaparecessem. Após aproximadamente 13 horas e 17 minutos, a equipe finalmente ativou o portal que dava acesso ao End.
A batalha contra o Ender Dragon levou quase 14 horas
Apesar de conseguir chegar à dimensão final, a equipe encontrou seu maior obstáculo justamente na batalha contra o Ender Dragon. Segundo o estudo, os agentes morreram 69 vezes em confrontos com o chefe, que permaneceu praticamente invencível durante boa parte da experiência. O problema estava relacionado aos dez cristais posicionados sobre pilares de obsidiana, responsáveis por recuperar a vida do dragão.
Somente após aproximadamente 21 horas de experimento um dos agentes identificou a importância de destruir essas estruturas e desenvolveu uma estratégia para alcançá-las utilizando blocos de terra. A equipe precisou de outras quatro horas e quarenta minutos para eliminar todos os cristais. Pouco depois, finalmente conseguiu derrotar o inimigo.
Ao longo das 27 horas e 14 minutos, os quatro agentes executaram 2.783 programas, trocaram 229 mensagens e acumularam 605 mortes. Aproximadamente 22% dos programas terminaram apresentando erros.
O experimento também contou com um quinto agente de inteligência artificial, responsável exclusivamente por acompanhar os acontecimentos e verificar possíveis irregularidades, sem participar diretamente da partida.
Quanto custou colocar quatro IAs para jogar Minecraft?
A experiência também mostra o custo computacional necessário para manter sistemas autônomos funcionando durante tantas horas. De acordo com o relatório, os quatro participantes processaram aproximadamente 1,35 bilhão de tokens de entrada e produziram cerca de 16 milhões de tokens de saída, realizando aproximadamente 24 mil chamadas ao modelo.
Considerando os preços promocionais da API do Gemini 4 Argon, a operação até a vitória custaria aproximadamente US$ 520. Com os preços padrão, o valor subiria para cerca de US$ 1.040. Já a sessão completa, que inclui o agente observador e um dia adicional de atividades após a vitória, foi estimada em US$ 810 com os preços promocionais, ou US$ 1.620 na tabela padrão.
Os pesquisadores ressaltam que esses números são estimativas baseadas nos preços públicos da API, não uma medição do custo real de execução nos servidores do Google.
Por que o Google está usando Minecraft para testar inteligência artificial?
Seu mundo aberto exige planejamento, gerenciamento de recursos, adaptação a acontecimentos inesperados e execução de tarefas que dependem umas das outras. Essas características tornam o título um ambiente útil para estudar o comportamento de agentes autônomos, especialmente em situações nas quais uma decisão incorreta pode comprometer horas de progresso.
O experimento também acontece poucos dias após a disponibilização mais ampla do Gemini 4 Argon, em 13 de outubro. O modelo foi desenvolvido com foco em tarefas complexas envolvendo programação, pesquisa e atividades profissionais que exigem várias etapas de raciocínio.

Para os pesquisadores, a capacidade de dividir responsabilidades, compartilhar descobertas e continuar trabalhando após sucessivas falhas é uma habilidade importante para futuras aplicações de inteligência artificial.
A equipe considera que os resultados podem contribuir para o desenvolvimento de sistemas capazes de executar projetos de software e outras atividades prolongadas com menor necessidade de supervisão constante. Entretanto, completar Minecraft não significa que essas tecnologias já sejam suficientemente confiáveis para trabalhar sem acompanhamento em ambientes reais.
Por enquanto, o experimento demonstra tanto as possibilidades quanto os desafios dessa abordagem: quatro agentes conseguiram atingir um objetivo complexo sem intervenção humana direta, mas precisaram de milhares de tentativas, centenas de mortes e mais de um dia para concluir a missão.
Fonte: IGN
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