Criador do PlayStation diz que games estão estagnados e alerta indústria: “No momento em que perde a curiosidade, acabou”

Criador do PlayStation diz que games estão estagnados e alerta indústria

A indústria dos games cresceu em tamanho, orçamento e qualidade gráfica nas últimas décadas, mas isso não significa necessariamente que tenha avançado na mesma velocidade quando o assunto é criatividade e produção de conteúdo. Essa é a avaliação de Ken Kutaragi, conhecido como o criador do PlayStation.

Durante um painel realizado em 29 de setembro na Universidade de Eletrocomunicações do Japão, Kutaragi afirmou que os jogos modernos ficaram maiores e visualmente mais sofisticados, mas que a maneira como o conteúdo é criado continua, em essência, muito semelhante ao que já existia durante o desenvolvimento do primeiro PlayStation, no início dos anos 1990.

Apesar da crítica, o veterano não demonstrou pessimismo sobre o futuro. Pelo contrário: ele acredita que a indústria está diante de um importante ponto de transformação e pode avançar para uma nova etapa nos próximos anos.

Para Kutaragi, gráficos evoluíram mais do que a forma de criar jogos

Ken Kutaragi participou da cerimônia de abertura do Creative Entertainment Research and Education Center (CEREC), novo centro da universidade japonesa voltado à pesquisa e formação profissional nas áreas de games e entretenimento.

O projeto reúne disciplinas como inteligência artificial, realidade virtual, robótica, semicondutores, interação humano-computador, medicina e psicologia, com o objetivo de aproximar pesquisa acadêmica e desenvolvimento de entretenimento.

Foi nesse contexto que Kutaragi comentou sobre a evolução dos videogames. Segundo ele, embora os títulos atuais sejam muito maiores e apresentem gráficos significativamente mais avançados, a estrutura usada para desenvolver conteúdo não mudou tanto quanto poderia desde os tempos do PlayStation original. A observação parte justamente de alguém que ajudou a conduzir uma das maiores transições tecnológicas da história dos consoles.

Durante o desenvolvimento do primeiro PlayStation, Kutaragi e sua equipe buscavam tornar possível em um aparelho doméstico aquilo que, no início dos anos 1990, exigia estações gráficas extremamente caras. A Sony queria combinar gráficos 3D com processamento em tempo real, permitindo que mundos tridimensionais respondessem imediatamente aos comandos do jogador.

A própria história oficial da Sony registra que Kutaragi defendia que a empresa deveria continuar desenvolvendo seu próprio console mesmo depois do fracasso da parceria com a Nintendo. O projeto eventualmente resultaria no PlayStation lançado no Japão em 1994 e em uma plataforma que ajudou a popularizar os gráficos 3D nos consoles domésticos.

“Não seguir a tecnologia, mas criá-la”

Ao recordar aquele período, Kutaragi argumentou que a indústria de games tinha uma característica diferente: em vez de simplesmente acompanhar tecnologias criadas por outros setores, os desenvolvedores buscavam criar soluções que ainda não existiam.

Segundo a cobertura da 4Gamer, o executivo descreveu aquele período como uma época em que a indústria buscava produzir algumas das tecnologias mais avançadas do mundo. Para ele, desenvolvedores e estudantes deveriam recuperar justamente essa mentalidade de tentar liderar avanços em vez de apenas acompanhar tendências existentes.

Essa filosofia também esteve presente na criação do PlayStation. A Sony relata que Kutaragi imaginava um sistema capaz de levar ao público experiências tridimensionais que, até então, estavam associadas principalmente a computadores gráficos especializados.

O resultado ajudou a estabelecer uma das maiores marcas da indústria. Quando Kutaragi deixou o comando executivo da Sony Computer Entertainment em 2007, PlayStation e PlayStation 2 já somavam uma base instalada superior a 200 milhões de consoles mundialmente, segundo números divulgados pela própria Sony na época.

Curiosidade seria fundamental para a próxima geração de desenvolvedores

Para Kutaragi, porém, tecnologia sozinha não é suficiente. Ao ser questionado sobre o que futuros desenvolvedores deveriam estudar, ele apontou uma característica que considera indispensável: curiosidade.

“No momento em que você perde a curiosidade e pensa: ‘Provavelmente é o melhor que posso conseguir’, tudo acaba”, diz ele.

O comentário foi direcionado principalmente aos estudantes presentes no evento. Kutaragi defendeu que quem pretende criar algo realmente diferente precisa pensar não apenas no que está acontecendo atualmente, mas também naquilo que ainda pode ser criado nos próximos anos.

Segundo ele, foi justamente essa mentalidade que orientou o projeto original do PlayStation: pensar algumas etapas à frente e reunir engenheiros, artistas e designers para desenvolver algo que ainda não existia.

IA também pode fazer parte dessa transformação

A inteligência artificial também apareceu durante a discussão. Kutaragi alertou que desenvolvedores não deveriam simplesmente se deixar conduzir pelas ferramentas de IA. Na visão dele, o objetivo deve ser aprender a utilizá-las para ampliar aquilo que humanos querem construir.

Mais do que apenas saber operar ferramentas existentes, ele acredita que profissionais do futuro precisarão contribuir para evoluir a própria tecnologia de inteligência artificial. Kutaragi comparou o estágio atual da IA a uma criança que ainda está absorvendo informações e afirmou que humanos e máquinas precisarão evoluir juntos para criar aquilo que ainda não existe.

O criador do PlayStation também revelou que já existem trabalhos sendo realizados nos bastidores para executar sistemas de IA em tempo real. Segundo ele, avanços desse tipo podem mudar, nos próximos anos, a definição de plataformas e até mesmo do próprio entretenimento.

Indústria cresce, mas também enfrenta o desafio de encontrar o próximo grande passo

As declarações acontecem em um momento no qual o mercado de videogames continua gigantesco. A Newzoo estima que a indústria global deve movimentar cerca de US$ 213,9 bilhões em 2026, crescimento de 6,1% em comparação com o ano anterior. A empresa também projeta aproximadamente 3,7 bilhões de jogadores no mundo neste ano.

Ao mesmo tempo, a própria Newzoo destaca um fenômeno curioso: vários dos maiores jogos do mercado já possuem muitos anos de existência. Minecraft e Terraria completaram 15 anos em 2026, enquanto títulos como Overwatch, Pokémon GO, Dead by Daylight e Stardew Valley chegaram aos dez anos. GTA 5, lançado originalmente em 2013, também continua entre os títulos relevantes do mercado.

Isso não significa necessariamente falta de inovação, mas ajuda a contextualizar o argumento de Kutaragi de que uma indústria financeiramente gigantesca ainda pode estar procurando seu próximo grande salto tecnológico e criativo.

Para o criador do PlayStation, esse salto não deve surgir apenas de gráficos mais detalhados ou jogos maiores. Ele dependeria de profissionais dispostos a experimentar tecnologias, assumir riscos e questionar aquilo que atualmente parece ser o limite.

E, para Kutaragi, o primeiro passo continua sendo bastante simples: não perder a curiosidade.

Fonte: GamesRadar

 

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William R. Plaza: Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br