Quando você quer comprar um notebook (ou uma TV, ou qualquer outro equipamento eletrônico) precisa apenas pesquisar os preços e comprar na loja que estiver vendendo o modelo escolhido pelo menor preço. No caso dos smartphones a escolha não é tão simples assim, pois eles são vendidos como partes de planos de serviços, com descontos progressivos de acordo com o valor do plano e vantagens diversas oferecidas pelas operadoras. O mesmo aparelho que custa R$ 2000 “desbloqueado”, pode custar R$ 99 ou até mesmo sair de graça caso você opte por um plano de voz e dados de um certo valor.
Um dos grandes motivos dos celulares made-in-china serem tão populares é simplesmente o fato de que eles podem ser comprados de forma rápida através dos canais informais, sem que seja necessário arcar com a exaustão mental de tentar entender as inúmeras variações de planos e descontos das operadoras. Como diz o ditado, este é um trabalho sujo, mas alguém tem que fazer, vamos então tentar entender melhor como este mundo estranho funciona.
A primeira questão é o custo dos aparelhos. O principal motivos dos smartphones (e até mesmo muitos modelos de feature phones) serem tão caros é a enorme variação de modelos, que faz com que seja produzida uma quantidade relativamente pequena de cada um. Embora o volume de materiais usados na fabricação de um smartphone seja muito menos do que em um notebook, por exemplo, o número de componentes diferentes e o custo individual deles muitas vezes não é tão diferente assim.
Normalmente os fabricantes lançam novos modelos a um custo relativamente alto, de forma a tentar recuperar os custos de desenvolvimento e (caso o modelo seja bem recebido) passam a baixar o preço sucessivamente, conforme os custos são amortizados. Isso explica também por que as linhas de aparelhos mais populares (como a série Classic da Nokia) são tão mais baratas que outros modelos do mesmo fabricante que, justamente por serem mais caros, são produzidos em volume muito menor, o que resulta em preços de venda muito mais altos.
Tudo começa com os aparelhos desbloqueados, vendidos sem vínculo com as operadoras, vendidos em algumas lojas. Você pode comprar um aparelho destravado da HTC no https://www.htc.com/br/ ou um aparelho da Nokia no https://www.nokia.com.br, por exemplo, o problema é que você vai acabar pagando mais caro do que pagaria ao comprar o mesmo aparelho em um plano pré-pago, também sem contrato, em qualquer operadora:
Isso acontece por um motivo muito simples. Os aparelhos desbloqueados são vendidos pelo preço “cheio”, que é calculado através da simples fórmula “preço de custo + margem de lucro”. Os aparelhos vendidos pelas operadoras incluem um cálculo complicado baseado na possibilidade de retorno através das mensalidades e inserção de créditos e a fidelidade do cliente. Como as operadoras também costumam trabalhar com margens de lucro bem mais baixas na venda dos aparelhos (afinal, elas ganham dinheiro com os planos) a diferença acaba sendo grande.
Outra dica é sempre comparar os preços das lojas online das operadoras com os preços das lojas antes de comprar, pois quase sempre os aparelhos são oferecidos na loja online por um preço um pouco mais baixo, já que as lojas e/ou os vendedores ganham comissões, que não são aplicadas nas compras feitas na loja online. Existem casos de promoções, onde determinado modelo sai mais barato na loja, mas estas são exceções. O ideal na maioria dos casos é ir na loja para conhecer os modelos e depois ir no site para comprar o escolhido.
O grande problema em adquirir aparelhos com as operadoras era a questão dos bloqueios. Afinal, mesmo os aparelhos pré-pagos vêm bloqueados e funcionam apenas com aparelhos da própria operadora, o que limita muito o uso. Felizmente, a questão dos bloqueios foi resolvida com a resolução 477 da Anatel (válida desde fevereiro de 2008), que obriga as operadoras a fornecerem os códigos de desbloqueio quando solicitado.
A fidelidade passou a ser então relacionada à manutenção dos planos e ao pagamento das mensalidades e não mais ao boqueio dos aparelhos. Ao assinar um contrato de 12 meses, por exemplo, você precisa pagar as 12 mensalidades ou pagar a multa por rescisão, mas você tem todo o direito de desbloquear o aparelho e usá-lo com outro chip se quiser.
Com o fim do bloqueio, acaba sendo mais vantajoso comprar os aparelhos com as operadoras (já que são oferecidos bons descontos mesmo nos aparelhos pré-pagos) e solicitar o código de desbloqueio, que de acordo com a operadora é fornecido na própria loja, ou através do atendimento. É importante entretanto se informar sobre a operadora escolhida, já que algumas (destaque para a Claro) dificultam ou até recusam o fornecimento dos códigos, tentando justificar a ação com cláusulas de fidelidade incluídas no contrato (que deixaram de ser válidas com a nova determinação). Esta é uma briga que ainda vai dar pano pra manga, mas a idéia básica é essa.
Continuando, existe uma grande desinformação com relação aos preços dos aparelhos, que são muitas vezes perpetuados pela grande imprensa (afinal, ninguém parece realmente entender essa variação louca de preços). É comum que comparem aparelhos com planos diferentes e com preços diferentes e acabem chegando à conclusão de que o aparelho A tem um custo-benefício melhor que o aparelho B, por que é mais barato, quando na verdade a diferença de preço é resultado do desconto do plano.
Em primeiro lugar, temos os aparelhos desbloqueados, que são caros em qualquer parte do mundo. O Nokia E71 dos screenshots anteriores, por exemplo, foi lançado custando 399 Euros na Europa, o que dá um valor próximo dos R$ 1499 da versão nacional desbloqueada:
E71 na loja da Nokia da França: 399 Euros. Em países como a Finlândia,
o preço chegou perto dos 600 Euros, devido aos impostos
O que acontece, em todas as partes do mundo, é que os valores vão sendo progressivamente reduzidos conforme aumenta o valor e a duração do plano. Você poderia comprar o mesmo E71 pagando apenas US$ 1 nos EUA assinando um plano de 24 meses, ou por até R$ 99 no Brasil, assinando um plano de dados ilimitado combinado com um plano de minutos.
O melhor exemplo disso são os “US$ 199” que o iPhone custa nos EUA. Na verdade, este é o preço em conjunto com a assinatura de um plano de 24 meses, com uma mensalidade de US$ 95 mensais (um total de US$ 2280 ao longo dos dois anos), que subsidia o aparelho. O mesmo se aplica aos US$ 80 do HTC G1 (também subsidiado por um contrato de 24 meses), e assim por diante.
Na verdade, as diferenças entre os preços que pagamos por aqui (com exceção de alguns modelos importados, que caem na regra dos 60% de impostos mais ICMS) não são muito diferentes dos preços pagos pelos europeus, japoneses e americanos. O que varia mais são os valores dos planos e os descontos das operadoras. Assine um plano de valor suficientemente alto e qualquer aparelho pode sair praticamente de graça, em qualquer lugar do mundo.
Já que não é possível fugir muito da política da dos planos e descontos, o melhor é tentar tirar proveito da situação, usando os descontos para economizar ao comprar os aparelhos.
De uma forma geral, para usar todos os recursos de qualquer aparelho atual, você vai precisar também de um plano de dados. Sempre existe a possibilidade de navegar via Wi-Fi, mas isso acaba sendo um limitante, já que nunca vai conseguir acesso em todo lugar. Quase sempre, você pode conseguir um bom desconto no aparelho ao comprá-lo junto com a assinatura de um plano (principalmente se você estiver interessado em um dos planos de acesso ilimitado, combinado com algum plano de voz), mas você raramente vai conseguir desconto na mensalidade se quiser apenas assinar o plano.
Com isso, o melhor acaba sendo dançar conforme a música e aproveitar para trocar de aparelho ao assinar ou renovar os planos. A clássica estratégia de ligar para cancelar o plano depois de vencido o contrato também costuma resultar em bons descontos.
Outra observação importante é que você deve sempre verificar as freqüências suportadas pelos aparelhos antes de comprar. Celulares GSM (não-3G) devem ser quad-band, suportando as faixas de freqüências de 850, 900, 1800 e 1900 MHz, enquanto os aparelhos 3G devem suportar as faixas de 850 e 2100 MHz, usadas no Brasil.
Muitos modelos vendidos pela Claro e pela Tim são tri-band GSM, oferecendo suporte apenas às freqüências de 900, 1800, 1900, sem suporte aos 850 MHz usados na rede GSM da Vivo. No caso dos aparelhos 3G, existem os casos de aparelhos que suportam apenas as freqüências de 850 e 1900 MHz (usadas nos EUA) e que por isso não funcionam no Brasil (com exceção de algumas cidades com cobertura de 850 MHz da Claro), onde foi adotada a faixa dos 2100 MHz (veja mais detalhes neste post).
Nesses casos, não adianta desbloquear o aparelho, já que o problema reside na falta do transmissor para a freqüência correta (ou seja, uma limitação de hardware, não de software). O mesmo se aplica a aparelhos adquiridos no exterior, em países onde são usadas freqüências diferentes.
Outro eterno fantasma com relação aos aparelhos vendidos pelas operadoras é a desativação de funções, ou seja, o bloqueio ou remoção de componentes disponíveis no firmware original. No passado, isso era extremamente comum, mas felizmente hoje em dia este hábito caiu em desuso. As operadoras fazem modificações estáticas nos firmwares, alterando o tema visual e colocando uma animação de abertura, mas não temos mais muitas notícias de operadoras desabilitando funções, como acontecia no passado.
De qualquer forma, em muitos casos é possível desfazer as mudanças e restaurar o firmware original, ou mesmo usar o firmware de outra operadora, ou uma versão em outra língua (como você pode ver em detalhes aqui).
Concluindo, outra possibilidade que vale à pena considerar é a compra de um aparelho usado. Como os smartphones e celulares ao produtos de consumo, muitas vezes comprados por impulso, é extremamente comum ver pessoas se desfazendo de aparelhos com pouco uso por valores muito baixos. Se você não se incomodar de ter o penúltimo lançamento, pode ter seu smartphone pagando muito menos.


