Homem queria descobrir quais microSD realmente duram mais; 351 cartões depois, a resposta ficou menos óbvia

Durante três anos, Matt Cole submeteu cartões microSD a um processo contínuo de gravação, verificação e apagamento para descobrir quanto eles conseguiriam suportar antes de falhar. O projeto já cresceu para 351 cartões de 111 modelos e 52 marcas, acumulando mais de 133 petabytes gravados.

Em resumo, os cartões microSD comuns chegaram a cerca de 10 mil ciclos na média do experimento. Os modelos High Endurance ficaram em aproximadamente 14 mil, enquanto os industriais alcançaram cerca de 122 mil ciclos. O resultado coloca os High Endurance muito mais perto dos cartões convencionais do que dos industriais, mas não significa que qualquer modelo industrial durará 12 vezes mais, porque as amostras são diferentes e muitos cartões ainda continuam em teste.

A comparação é justamente o que torna o experimento interessante. Produtos vendidos para usos muito diferentes foram submetidos continuamente a gravações até apresentarem problemas, permitindo observar diferenças que dificilmente apareceriam em um teste convencional de desempenho.

O levantamento também não deve ser tratado como um ranking definitivo de marcas. O comportamento varia entre modelos, capacidades e fabricantes, e a metodologia não reproduz exatamente o uso diário de um Raspberry Pi, uma câmera de segurança ou uma dashcam.

Ainda assim, depois de milhões de ciclos e centenas de cartões, os resultados ajudam a responder uma pergunta simples que motivou todo o projeto: quais tipos de microSD realmente resistem mais quando as gravações não param?

I’ve been doing endurance testing on microSD cards for the last 3 years. Here’s what I’ve found.
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Mais de 4,6 milhões de ciclos e 177 cartões levados até a falha

Dos 351 cartões que Cole reuniu, 177 já chegaram ao critério de falha, 107 estavam sendo testados quando a atualização foi publicada e outros 67 ainda aguardavam espaço nos leitores utilizados pelo projeto. Somados, os equipamentos já completaram mais de 4,6 milhões de ciclos de programação, verificação e apagamento.

O pesquisador amador considera um cartão como falho em três situações: quando ele para de funcionar completamente, passa a aceitar apenas leitura ou quando pelo menos metade dos setores apresenta falhas de verificação.

Há uma distinção técnica importante aqui. Os “program/verify/erase cycles” citados por Cole são ciclos definidos pela metodologia de seu experimento. Eles não devem ser confundidos diretamente com a especificação interna de ciclos de program/erase das células NAND, que depende do tipo de memória, do controlador, do gerenciamento de desgaste e de outros fatores.

A SD Association explica que a resistência de uma memória flash também pode variar conforme elementos como tecnologia NAND, mecanismos de correção de erros e técnicas de gerenciamento das gravações. Produtos industriais são projetados justamente para aplicações que exigem maior resistência, operação prolongada e, dependendo do modelo, condições ambientais mais severas.

Cartões comuns chegaram a cerca de 10 mil ciclos na média

A maior parte do conjunto pertence à categoria de consumo: são 237 cartões classificados pelo autor como modelos comuns, ou seja, produtos que não são vendidos especificamente como High Endurance ou industriais. Nesse grupo, a média atual é de aproximadamente 10 mil ciclos.

Alguns resultados individuais estão muito acima disso. Entre os cartões PNY, Cole contabiliza dez unidades de diferentes linhas já em teste. Elas acumulavam em média 643 dias e cerca de 15,7 mil ciclos, com apenas uma unidade apontada como fora de funcionamento naquele momento.

A Kingston também aparece com resultados elevados entre os produtos convencionais. Doze cartões da marca acumulavam média de aproximadamente 23,5 mil ciclos, embora três Canvas Go! Plus de uma geração específica já tivessem falhado. Um resultado especialmente curioso veio da Amazon Basics. Os quatro cartões de 64 GB utilizados pelo autor continuavam funcionando depois de uma média de 788 dias e 16,6 mil ciclos, com aproximadamente 4,2 PB gravados no conjunto.

São números interessantes, mas insuficientes para declarar que uma dessas marcas será necessariamente mais resistente em qualquer cenário. Modelos diferentes da mesma fabricante podem usar componentes e controladores distintos, enquanto a quantidade de unidades testadas varia bastante.

High Endurance chegou a 14 mil ciclos, apenas 40% acima da média dos comuns

A comparação que mais se destaca envolve os 30 cartões classificados como High Endurance. A média atual desse grupo é de aproximadamente 14 mil ciclos, contra 10 mil entre os cartões comuns, uma diferença de cerca de 40% segundo as médias publicadas pelo autor.

Cartões High Endurance são normalmente destinados a situações com gravações recorrentes, como câmeras veiculares e sistemas de vigilância. Como a própria memória flash possui uma quantidade limitada de regravações, fabricantes podem combinar NAND, firmware e controladores voltados para cargas desse tipo.

No experimento de Cole, porém, essa categoria não abriu uma vantagem tão grande quanto o nome poderia fazer um consumidor imaginar. Três Transcend 350V de 64 GB, por exemplo, ainda funcionavam depois de aproximadamente 17 mil ciclos em média. Duas unidades TEAMGROUP High Endurance em teste estavam em cerca de 17,3 mil ciclos, embora o próprio autor ressalte que duas unidades são uma amostra pequena e que uma delas apresentou setores problemáticos desde o início.

Já três Kingston High Endurance de 32 GB falharam depois de aproximadamente 8,3 mil ciclos em média. Segundo Cole, ainda assim elas ultrapassaram o nível de endurance que ele calculou a partir da documentação da fabricante. A diferença entre produtos dentro da própria categoria é um dos motivos pelos quais “High Endurance” não deve ser interpretado como uma garantia de posição em um ranking universal.

Cartões industriais saltaram para cerca de 122 mil ciclos

O cenário muda radicalmente na categoria industrial. Cole possui apenas 15 cartões industriais, uma amostra muito menor que a dos produtos de consumo. Mesmo com essa limitação, a média atual chega a aproximadamente 122 mil ciclos, mais de oito vezes o resultado médio registrado entre os modelos High Endurance e mais de 12 vezes a média dos cartões convencionais.

Três Kingston Industrial de 8 GB chegaram a aproximadamente 141,6 mil ciclos em média. Duas unidades já haviam falhado, enquanto a terceira continuava funcionando. Somadas, receberam cerca de 3,4 PB de gravações durante o experimento. O resultado está de acordo com a finalidade da categoria, embora não possa ser extrapolado para todos os produtos industriais. A SD Association descreve cartões industriais como dispositivos desenvolvidos para maior resistência a ciclos de leitura e gravação e, em muitos casos, condições mais severas de temperatura, vibração e operação contínua.

A pequena amostra também produz extremos. Três SanDisk Industrial de 8 GB testados por Cole ficaram em aproximadamente 20 mil ciclos em média, muito abaixo do resultado dos Kingston Industrial presentes no mesmo levantamento. Isso reforça por que a categoria ajuda mais a contar a história do experimento do que qualquer ranking absoluto de fabricantes.

O levantamento encontrou resultados ruins para alguns modelos, mas não prova uma falha generalizada

Na outra ponta do teste, alguns produtos convencionais morreram relativamente cedo. Quatro cartões onn. de 32 GB chegaram a apenas 1,4 mil ciclos em média. Três ADATA Premier de 32 GB ficaram em cerca de 2,35 mil, enquanto nove cartões Silicon Power testados pelo autor também registraram média próxima de 2,35 mil ciclos antes da falha.

A SanDisk merece um cuidado adicional porque Cole chama atenção para seu desempenho em diferentes partes do projeto. Entre os 28 cartões convencionais da marca incluídos naquela categoria, apenas cinco ainda estavam funcionando no momento da publicação, segundo o levantamento. A média era de aproximadamente 9.404 ciclos.

Em maio de 2026, Cole publicou ainda um texto separado relatando que 12 dos 38 cartões SanDisk então presentes em seu estudo haviam falhado em circunstâncias que ele associa a possíveis perturbações de alimentação elétrica, como reinicializações, alterações em hubs USB e quedas de energia. Esse ponto deve ser tratado exatamente como o que é: uma hipótese do autor baseada no padrão observado em sua bancada.

O experimento não demonstra por si só que cartões SanDisk possuem um problema generalizado com alimentação elétrica, nem estabelece uma relação causal entre esses eventos e as falhas. Cole reconhece que os episódios ocorreram em equipamentos diferentes, embora diga não ter observado a mesma frequência entre outras marcas testadas por ele.

Três anos depois, a resposta é menos simples que “compre High Endurance”

Depois de 133 PB escritos, o experimento produz uma conclusão mais interessante do que um simples vencedor. Cartões destinados ao mercado de consumo conseguem, em alguns casos, sobreviver a volumes enormes de gravação. Produtos identificados como High Endurance não necessariamente abrem uma vantagem igualmente enorme. E os poucos modelos industriais presentes no teste mostram que existe outro nível possível de resistência, acompanhado, normalmente, por preços e propostas de uso diferentes.

Mas nem sequer 351 cartões eliminam a variável mais importante dessa história: microSD não é uma categoria homogênea. Fabricante, modelo, capacidade, NAND, controlador, firmware e carga de trabalho podem produzir resultados muito diferentes. Até cartões vendidos pela mesma marca e para a mesma categoria podem se comportar de maneiras distintas.

É justamente por isso que três anos de testes não produziram uma resposta simples sobre “qual é a melhor marca”. Produziram algo mais útil: uma demonstração, em escala incomum, de quanto a resistência real de cartões microSD pode variar.

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William R. Plaza: Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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