Os agentes de IA aceleraram a teoria da internet morta; entenda

Durante anos, a “teoria da internet morta” circulou como uma ideia meio conspiratória: a suspeita de que boa parte da web já não era feita por pessoas, mas por bots, algoritmos, perfis falsos e conteúdos automatizados fingindo interação humana. A hipótese ganhou força em 2021, quando um longo texto publicado em um fórum chamado Agora Road’s Macintosh Cafe defendia que a internet já havia sido tomada por máquinas e que a atividade humana online era, em grande parte, uma ilusão. Parecia exagero. Até que a própria infraestrutura da internet começou a sugerir que talvez a piada tenha envelhecido rápido demais.

A Cloudflare, uma das empresas mais importantes na proteção e distribuição de tráfego da web, afirma que o tráfego automatizado já ultrapassou o tráfego humano em sua rede. A virada, que antes era esperada apenas para 2027, teria acontecido em maio de 2026. A previsão agora é ainda mais radical. Segundo o CEO da Cloudflare, Matthew Prince, se o ritmo atual continuar, em cerca de cinco anos o tráfego gerado por agentes e bots poderá ser até 1.000 vezes maior que o humano. A estimativa parte da constatação de que um agente de IA pode visitar milhares de páginas para executar uma tarefa que uma pessoa resolveria acessando apenas alguns site.

Isso não quer dizer que humanos pararam de usar a internet. A questão é outra: cada ação humana pode passar a acionar dezenas, centenas ou milhares de requisições feitas por máquinas. Um usuário pede a um agente de IA para comparar preços, reservar uma viagem, resumir notícias ou monitorar uma compra. O agente faz o trabalho, visita sites, lê páginas, coleta dados e entrega uma resposta pronta. A web talvez não esteja “morta”, mas está deixando de ser um ambiente majoritariamente humano.

Durante décadas, a internet comercial foi construída em torno de uma cena simples: uma pessoa abria uma página. Sites disputavam cliques e os buscadores enviavam visitantes. Anunciantes pagavam por atenção e os criadores tentavam alcançar leitores reais. A explosão de bots e agentes de IA bagunça essa lógica. Se o visitante é uma máquina, o que significa audiência? Se um resumo de IA substitui a visita ao site, quem financia o conteúdo original? 

O detalhe mais importante é que “bot” não significa necessariamente ameaça. O Googlebot, por exemplo, sempre foi essencial para a web: ele rastreia páginas para que elas apareçam nos resultados de busca. O problema é a escala e a função desses acessos. Bots antigos indexavam, os agentes de IA fazem algo novo: eles podem agir. 

Existe uma ironia curiosa nessa transformação. Durante quase três décadas, a disputa na internet era convencer pessoas a visitar um site. Agora, talvez a prioridade seja convencer uma inteligência artificial a fazer isso. O leitor continua sendo importante, mas pode deixar de ser o visitante. Entre ele e a página surge um intermediário que decide onde entrar, o que ler e até quais informações merecem chegar ao usuário. É uma espécie de Oráculo.

À medida que agentes de IA estão disseminados nos mais variados tipos de conteúdo cresce também a quantidade de material artificial circulando na web. Isso cria um paradoxo para a própria indústria. O modelos mais avançados precisam de dados produzidos por humanos para continuar evoluindo, mas uma parcela crescente do que encontram online já foi criada por outras IAs. Elon Musk chegou a afirmar, no início de 2025, que o setor havia praticamente esgotado o estoque de dados humanos disponíveis para treinamento e que a alternativa passaria pelo uso de dados sintéticos. Isto é, gerados pelas próprias inteligências artificiais. A preocupação é que esse ciclo possa reduzir a diversidade e a qualidade dos modelos ao longo do tempo.

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William R. Plaza: Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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