Primeiras impressões do SimplyMEPIS 8.0

Primeiras impressões do SimplyMEPIS 8.0

First look at SimplyMEPIS 8.0
Autor original: Chris Smart
Publicado originalmente no:
distrowatch.com
Tradução: Roberto Bechtlufft

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O MEPIS Linux me intriga desde a primeira vez em que ouvi falar nele, mas nunca cheguei a testá-lo. A distro foi fundada por Warren Woodford no final de 2002 depois dele ter experimentado várias distribuições Linux e ter chegado à conclusão de que nenhuma delas condizia com sua visão de como um Linux para desktops deveria se comportar. Inspirado por sua experiência como desenvolvedor na NeXT, Warren decidiu tentar criar uma distribuição Linux que ‘simplesmente funcionasse’. A primeira versão do MEPIS Linux foi liberada ao público em maio de 2003. O MEPIS é derivado do Debian, uma das distribuições mais antigas e estáveis, e esta última versão é baseada no Debian Lenny, lançado recentemente. De acordo com o site, “O SimplyMEPIS simplesmente funciona! Ele vem pré-configurado para ser simples e fácil de usar, mesmo para novatos.” Então, a distro é voltada para novatos e afirma ser fácil de usar. E o que ela tem a oferecer?

Live-CD e ambiente da distro

Embora o MEPIS seja efetivamente uma distribuição Linux comercial, ela também distribui a edição gratuita da comunidade, o live-CD SimplyMEPIS. Foi essa versão que eu baixei e rodei no meu laptop Dell Latitude X1 (Intel Pentium M com processador de 1,10 GHz, vídeo Intel 915, rede sem fio Intel 2200BG, rede Broadcom BCM5751 e 1,25 GB de memória). A primeira coisa que eu notei foi que a tela do menu do GRUB é muito bonita. O menu oferece várias opções, mas acho que algumas deveriam ser movidas para um submenu. Se a distribuição é voltada para novatos, eu acho que deveriam haver apenas duas opções: a opção padrão, que detecta automaticamente as configurações de vídeo, e uma opção básica feita para funcionar em qualquer hardware. Para ilustrar o que eu quero dizer, a entrada padrão do live-CD é Default (Padrão), mas temos as outras opções: Alternate (try if Default fails) (Alternativo – caso o padrão não funcione), VESA (alternate display driver or for virtual machine) (VESA – driver de vídeo alternativo ou para máquinas virtuais), Failsafe (minimum options, small display) (À prova de falhas – opções mínimas, tela pequena), 60Hz (for digital monitors) (60 Hz – monitores digitais) e 75Hz, com o aviso “CAREFUL! May damage digital monitors” (Cuidado! Pode danificar monitores digitais”). Para que complicar? Incluir o Memtest é sempre uma boa idéia, mas é pena que não haja uma opção para verificar o conteúdo do CD.

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SimplyMEPIS 8.0 – menu do GRUB do live-CD

O live-CD carregou direto o KDE, oferecendo dois usuários como opções de login: demo e root. Infelizmente o sistema não faz o login automático do usuário e não fica muito claro qual é a senha. Acabei adivinhando que a senha é igual ao nome do usuário, mas não seria melhor simplificar e fazer o login automático como usuário sem privilégios? Se a idéia é atingir os novatos, especialmente os que vêm do Windows, é bom lembrar que eles não estão acostumados a digitar senhas. Não estou defendendo esse esquema para o sistema instalado, mas no live-CD, onde nem se define uma senha em lugar nenhum, como as pessoas vão saber que senha digitar?

No meu sistema, o hardware foi todo detectado corretamente. Isso inclui a placa de vídeo e a resolução com suporte a 3D, som, rede (com e sem fio), escalonamento de CPU, gerenciamento de energia, touchpad com scrolling e Bluetooth (embora eu não tenha encontrado nenhuma aplicação em espaço de usuário para o Bluetooth). Infelizmente, as teclas multimídia não funcionaram. Quando fechei a tampa, o laptop entrou em suspensão na RAM e voltou dela corretamente depois, o que é ótimo. Infelizmente, a suspensão pelo disco não funcionou. Há um ícone no desktop para o manual do usuário, que é bem abrangente e muito bem escrito. Os aplicativos habituais do KDE estão todos presentes, incluindo o Amarok e o K3b, mas fiquei surpreso ao encontrar o OpenOffice.org 3.0. Bom trabalho! O Debian e até o Ubuntu ainda trazem a versão 2.4. O tema do OpenOffice.org usa ícones no estilo do KDE, contribuindo com a integração do sistema.

Encontrei alguns probleminhas chatos na interface, e seria bom que eles fossem resolvidos. Quando conectei o cabo da rede, o ícone na bandeja do sistema indicou a conexão. Ótimo. Mas quando desconectei o cabo o ícone desapareceu completamente. Para que ele não sumisse foi só mudar a configuração, mas seria bom que ele permanecesse lá por padrão. Além disso, não dá para configurar a rede por esse ícone, o que se entende porque ele é apenas um programa de monitoramento, mas hoje em dia a maioria das distribuições permite configurar a rede desse jeito com o NetworkManager. Por padrão, o MEPIS usa o sistema de configuração estática ao invés do sistema automatizado do NetworkManager, embora seja possível configurar o sistema para usá-lo. Há alguns anos o gerenciador de rede do MEPIS seria brilhante, mas como estamos em 2009 a ferramenta mostra-se pouco elegante.

Configurei minha rede sem fio por ela e recebi uma mensagem de que a configuração havia sido atualizada, e que para ter efeito eu teria que reiniciar a interface ativa, mas que em algumas placas poderia ser necessário reiniciar o computador. Isso não ajuda muito a um novato. Já posso ouvi-los perguntando: “Como eu reinicio a interface ativa? Não faço idéia. Mas eu sei como reiniciar o micro. No fim das contas, o Linux é igual ao Windows.” O sistema poderia ao menos se oferecer para reiniciar a rede para o usuário. Reiniciei a rede eu mesmo e vi que o sistema tentou obter um endereço para a minha rede sem fio. Infelizmente não deu certo, e eu continuei associado a uma outra rede aleatória. Na minha opinião, não dá para comparar isso com o que as outras distribuições modernas oferecem.

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SimplyMEPIS 8.0 – ferramenta de configuração de rede

E usando o NetworkManager? Usando o assistente de rede do MEPIS, eu configurei a rede como ‘Automática’. Mais uma vez eu recebi a mensagem de que deveria reiniciar o computador e que depois disso poderia ser necessário iniciar o NetworkManager pelo menu K. Ao invés de reiniciar, eu disparei o NetworkManager; ele foi carregado e ficou na bandeja do sistema. Desconectei minha rede sem fio e o NetworkManager desabilitou a rede. Cliquei com o botão direito no ícone, vi minha rede sem fio, selecionei-a, digitei minha senha e me conectei. Agora sim! Com o NetworkManager o sistema funcionou muito bem; ele deveria ser o padrão. Uma vez online, carreguei o Firefox que, como o OpenOffice.org, usa um tema de ícones do KDE, embora ele seja um pouco diferente do usado no resto do sistema. A página inicial padrão do navegador é a página de informações de desenvolvimento da Mozilla, mas eu acho que seria mais útil o Google ou alguma página local sobre o MEPIS. Talvez o brilhante manual do usuário?

Eu percebi que por padrão não há pager na barra de tarefas – o pager é aquele programinha que alterna entre desktops virtuais. A princípio eu pensei que a idéia era boa, mantendo as coisas simples para os usuários que não estão acostumados com esse conceito. Só que ao clicar na barra de título de um programa podemos ver que ainda há quatro desktops virtuais ativados, e quando mandei o Firefox para o segundo eu não consegui mais trazê-lo de volta! Ou desativem os outros desktops virtuais ou incluam um pager na barra de tarefas.

O sistema vem com o KDE 3.5.10 por padrão, e eu iniciei o gerenciador de arquivos (o Konqueror) para tentar navegar pela minha rede Samba local. Não funcionou, e uma mensagem informou que não foram encontrados grupos de trabalho na rede local, sugerindo que um firewall esteja bloqueando o acesso. No entanto, a conexão direta a um servidor com um smb://[endereço-ip] funcionou. Abri um terminal e dei o comando iptables -L como root. Ok, então eles incluíram um firewall por padrão, e isso é bom, mas não se bloqueia tráfego local importante! Levou um tempo para que eu encontrasse a ferramenta de gerenciamento do firewall, em Applications, Browse All, Applications, System, Security, Guarddog Firewall, no menu K. Parece que a categoria Applications agora aparece duplicada. A ferramenta parece ser muito poderosa, e a interface provavelmente é adequada aos usuários que vêm do Windows (obviamente, se você preferir, o comando iptables continua disponível). Aliás, o MEPIS não inclui o Wine por padrão, logo os novatos não poderão instalar o software básico que utilizam no Windows sem instalar o programa. Se isso é bom ou ruim eu não sei, mas já posso ver a frustração dos novatos.

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SimplyMEPIS 8.0 – ferramenta de configuração do firewall

Isso nos leva a um outro ponto: no MEPIS, o usuário comum não está na lista de usuários do sudo, e qualquer alteração no sistema exige a senha de root. Pessoalmente (e estou certo de que muitos vão discordar) eu prefiro lidar com isso desativando a conta de root e permitindo que os usuários apropriados administrem o sistema com suas senhas usando o sudo. Em um sistema com vários usuários, é ótimo não ter que fornecer a senha de root, mas ainda assim permitir que os usuários possam desempenhar certas tarefas administrativas. Você ainda ganha o benefício de segurança adicional de ter a conta de root desativada explicitamente.

Quando ao visual do desktop, ele é bem limpo, organizado e funciona muito bem. Na verdade, esse é um dos melhor desktops KDE 3.5 que já encontrei. Não fiz testes extensivos com o MEPIS, mas realizei a maioria das tarefas que eu acho que um usuário comum poderia querer realizar. No meu laptop, conectei minha câmera digital Canon IXUS mas nada aconteceu. A câmera não mudou para o ‘PC mode’, como acontece quando eu a conecto ao meu desktop. Mesmo assim eu consegui adicionar a câmera e baixar com sucesso as imagens usando o Digikam, o gerenciador de fotos do KDE. Da mesma maneira, não obtive resposta ao conectar meu cartão SD no leitor interno, mas não consegui descobrir como montá-lo pelo KDE. O kernel enxergou o dispositivo e eu consegui montá-lo manualmente pela linha de comando. O mesmo problema ocorreu com meu memory stick USB e com meu reprodutor de mídia iRiver. O kernel também enxergou os dispositivos, mas o KDE não ficou sabendo de nada. Hmm… Obviamente isso não é nada amigável para o usuário, e não pode estar certo. Iniciei o MEPIS em outro computador desktop, e o KDE funcionou como eu esperava, respondendo a tudo. Logo, deve ter sido algum problema estranho com o meu laptop. A boa notícia é que arquivos MP3 tocam direto, assim como conteúdo em Flash em sites como o YouTube, além dos arquivos de vídeo WMV do Windows. Meu iPod também funcionou corretamente com o reprodutor de mídia Amarok. Parece que o MEPIS já vem com um ótimo suporte a multimídia.

Se você estiver usando algum hardware que exija um driver proprietário, como placas de vídeo da NVIDIA ou da ATI, ou use o NDISwrapper para a rede sem fio, o MEPIS tem algumas ferramentas para configurá-los automaticamente para você. Uma dessas ferramentas é o X-Windows Assistant, que você encontra em System > MEPIS, no menu K. Essa ferramenta permite configurar coisas como o DPI das fontes, o tipo de mouse ou touchpad, as especificações do monitor e ainda instalar e habilitar os drivers da NVIDIA ou da ATI. Em um AMD64 com placa ATI Radeon HD 2400 XT, usei essa ferramenta para baixar, instalar e configurar automaticamente o driver proprietário, que funcionou muito bem. Embora não seja simples como o programa do Ubuntu, que detecta automaticamente a necessidade do driver e avisa aos usuários, certamente é um passo na direção certa no que concerne à facilidade de uso.

Sendo baseado no Debian, o MEPIS herda um gerenciamento de pacotes poderoso que faz da instalação e da remoção de pacotes uma brincadeira de criança. Ao contrário do Ubuntu, que compila os próprios pacotes a partir dos fontes usando ferramentas do Debian, o MEPIS usa a árvore oficial do Debian Lenny em conjunto com uma árvore própria. Essencialmente, é um sistema Debian personalizado, especializado e mais atualizado. O sistema vem com um gerenciador gráfico de pacotes para a realização dessas tarefas, mas você pode usar os comandos comuns pelo console.

Instalação

Para começar a instalação do MEPIS no HD, basta clicar no ícone ‘MEPIS Install’ no desktop. Isso vai iniciar o instalador, e a primeira coisa com a qual você vai se deparar será com uma seqüência de contrato de licença de usuário final (EULA) e dos termos de uso. Numa época em que outras distribuições com o Fedora e o openSUSE estão substituindo contratos legais complicados por uma notificação simples (sem nem mesmo um EULA), o fato do MEPIS incluir este tipo de contrato não pega bem. A licença permite apenas a redistribuição não comercial do live-CD do MEPIS (ou seja, ao contrário de outras distribuições, você não pode vender CDs do MEPIS, embora eles contenham software de código aberto). “O MEPIS Linux contém componentes de código aberto, mas o MEPIS Linux não é ‘freeware’. A distribuição comercial não autorizada dos produtos MEPIS é considerada furto de bens pela lei norte-americana”. Isso me faz pensar em quais componentes do live-CD não são de código aberto – provavelmente algumas das ferramentas do MEPIS. E tem mais: “O uso e/ou a instalação de um trabalho coletivo do MEPIS implica a aceitação e a concordância com estes termos e condições.” Parece familiar? Se não fosse a necessidade de fazer o teste para escrever esta análise, eu pararia aqui mesmo.

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SimplyMEPIS 8.0 – contrato de licença de usuário final (EULA) do instalador

O instalador em si é bem simples e fácil de usar. Há uma seção de ajuda na esquerda explicando cada etapa, o que deve facilitar as coisas para que os novatos concluam o processo com sucesso, embora eu não tenha encontrado uma explicação para o significado de ‘hda’. Ele não usa um particionador integrado, mas sim chama o aplicativo GParted externamente, e ele funciona muito bem. As únicas opções são as de usar um partição root (/), swap e /home (mas a maioria dos usuários só precisa disso mesmo). Depois de selecionar essas partições, o instalador faz a formatação e começa a instalação. A seguir, ele solicita o método de inicialização, e eu escolhi o GRUB na MBR. O curioso é que há uma opção para desabilitar o uso do initram, o disco de RAM inicial. Se marcar essa opção, o kernel precisa ter os drivers embutidos para poder ler as unidades e iniciar o sistema. Não cheguei a testar, mas não entendo por que eles oferecem essa opção.

Depois você tem a oportunidade de desabilitar serviços desnecessários na inicialização, incluindo Bluetooth, a impressão pelo CUPS, ligações pelo PPP e o firewall. Depois disso, o instalador pede um nome para o computador e para a rede à qual pertence, informações sobre o teclado e o idioma, se o relógio usa GMT ou não, a criação de uma conta de usuário local e a definição da senha de root. Só para constar, não há opção para definir a hora nem o fuso horário, o que significa que tanto antes quanto depois da instalação o relógio estava errado. Acabei configurando o fuso horário pelo KDE, mas seria bom que o instalador cuidasse disso. Finalmente, o computador reinicia para entrar na nova instalação do MEPIS. De modo geral, o instalador é bem simples e eficiente.

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SimplyMEPIS 8.0 – instalador

Conclusão

Talvez tenha sido um tilte na minha máquina de teste que impediu o funcionamento de dispositivos externos no KDE (talvez o D-Bus ou o HAL não tenham iniciado corretamente). Do contrário, algumas coisas fundamentais parecem quebradas no MEPIS 8.0, mas estou disposto a dar a ele o benefício da dúvida. De qualquer maneira, não estou convencido de que o configurador de rede integrado seja a melhor maneira de fazer as coisas. Seria bem melhor mudar para o NetworkManager por padrão, que funciona muito bem e é mais voltado para o usuário. Tirando essas questões que eu levantei, o sistema de um modo geral funciona muito bem e é bem rápido e responsivo. Ele também tem visual muito agradável, embora não haja efeito 3D instalados por padrão.

O SimplyMEPIS 8.0 vem com uma boa seleção de aplicativos, incluindo o Firefox e o OpenOffice.org “tematizados” para o KDE. Ele traz como herança as coisas boas do Debian (ou seja, os usuários experientes poderão configurar as coisas do jeito que acharem melhor) e acrescenta algumas ferramentas para ajudar os usuários menos experientes a configurarem coisas importantes como a rede e os drivers de terceiros. O sistema de gerenciamento de pacotes é bastante sólido e consegui atualizar o sistema sem maiores problemas. O suporte a multimídia é muito bom e tudo parece funcionar logo de tacada. Essa distribuição tem potencial para ser um desktop muito fácil de usar para usuários novatos, mas acho que ainda precisa de alguns ajustes para chegar lá. Mesmo assim, a distro é sólida e eu recomendo fortemente que você a experimente.

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SimplyMEPIS 8.0 – desktop KDE padrão

Créditos a Chris Smartdistrowatch.com
Tradução por Roberto Bechtlufft <roberto at bechtranslations.com>

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