Uma breve retrospectiva de 2010

Por: Julio Cesar Bessa Monqueiro
Uma breve retrospectiva de 2010
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A 2010 retrospective

Autor original: Jonathan Corbet

Publicado originalmente no: lwn.net

Tradução: Roberto Bechtlufft

Confesso que eu não estava preparado para o fim de 2010. Bom, na verdade eu ainda não levei muito bem nem o fim do século XX. Pronto ou não, chegou a hora de darmos uma olhada no ano que passou, de preferência fazendo graça com as previsões feitas no início dele. Fiquei chocado: parece que não acertei tudo.

Fiz duas previsões na área de hardware: que a conscientização quanto ao valor do hardware aberto cresceria, e que haveria vários tablets rodando Linux. Nenhuma das duas chegou a se concretizar completamente. O sucesso do Android mostra um certo apreço pela abertura; dá para dizer muita coisa vendo quantos dispositivos Android de segunda mão são vendidos com a descrição “rooted”, ou seja, com o super usuário do Linux habilitado. A Free Software Foundation também tentou fazer as pessoas tomarem ciência da importância disso com um programa especial, mas como eu disse na época, isso não levava muito jeito de que resultaria em efeitos reais.

Quanto aos tablets com Linux: vimos alguns dispositivos com o Android, com destaque para o Galaxy Tab da Samsung. Porém, o Android avança a passos lentos nos tablets, e com o MeeGo a situação é pior ainda. Talvez 2011 seja o ano do Linux nos tablets.

A previsão de que as patentes de software seriam um problema não foi muito difícil de fazer. Tivemos várias ações legais, principalmente na área de computação móvel.

Políticas de atribuição de direitos autorais: a previsão de que esse assunto seria discutido foi precisa. O projeto LibreOffice, em especial, teve um debate surpreendentemente volumoso (em termos de amplitude e quantidade) sobre a atribuição de direitos autorais, mas os desenvolvedores do LibreOffice parecem acreditar piamente que terão mais sucesso sem esse tipo de política. O projeto GNOME e o recém-formado projeto MeeGo também se posicionaram fortemente contra a atribuição de direitos autorais. Essas políticas continuam fortemente entrincheiradas em muitos projetos, mas parece que a tendência geral vai contra elas.

Também foi moleza prever que a aquisição da Sun pela Oracle seguiria em frente. Eu disse que o MySQL estaria levemente ameaçado, e em grande parte deu nisso mesmo. O que me escapou foi como os outros projetos de software livre da Sun se sairiam mal. Forks expressivos do OpenSolaris e do OpenOffice já existem, e tem gente insatisfeita nos outros projetos também. A relação da Oracle com a comunidade do kernel continua boa, mas a empresa parece não se importar muito com projetos mais altos na pilha.

A guerra dos navegadores: talvez ela tenha esquentado outra vez, conforme a previsão. O Google Chrome parece estar mesmo ganhando força. A Mozilla concorre com várias iniciativas interessantes, incluindo uma versão do Firefox para portáteis. Tem muita coisa boa acontecendo, mas o Internet Explorer continua sendo o responsável por mais de metade do tráfego total.

A previsão de que os SSDs se tornariam mais populares foi até meio sem graça de tão óbvia. Talvez a afirmação de que mais distribuidores ofereceriam o Btrfs tenha sido mais interessante. Isso aconteceu mesmo, mas eu não previ que o projeto MeeGo adotaria o Btrfs como seu sistema de arquivos padrão.

Os rumores da morte do “big kernel lock” (ou BKL) foram só um pouco exagerados; o kernel 2.6.37 (que acabou de sair) pode ser compilado sem o BKL.

O crescimento do LLVM foi outra previsão óbvia; várias coisas interessantes aconteceram com o projeto no ano passado. Apontar o Unladen Swallow como uma dessas coisas não foi uma boa ideia: ainda não se sabe se o projeto morreu ou não, mas as coisas não parecem muito animadas por lá.

Eu previ um “incidente de segurança assustador” envolvendo dispositivos portáteis. Pintaram alguns exemplos de aplicativos mal-intencionados para o Android, mas nada realmente assustador – ao menos até onde eu sei. O lance assustador mesmo aconteceu em outros níveis, com os ataques ao Google e o worm Stuxnet sendo os exemplos mais proeminentes. O “ano do sandbox” também foi previsto, mas nada realmente interessante aconteceu nessa área.

Não é de se surpreender que tenha se falado muito em computação em nuvem, conforme o previsto. O sol também se levantou em todas as manhãs. Por outro lado, a previsão de lançamento do GNOME 3 não se concretizou. O aumento na adoção do Python 3 também não; parece haver algum interesse nele, mas a maioria dos desenvolvedores não parece estar com muita pressa de deixar a série 2.x para trás.

A última previsão, sobre a importância das distribuições comunitárias, é difícil de mensurar, mas pelo visto a situação não mudou muito. O que temos visto é uma preocupação maior em se manter mais próximo aos projetos originais (o “upstream”). De certa forma, a decisão da Oracle de lançar um kernel 2.6.32 para seu clone do RHEL5 é um exemplo disso. O desejo do MeeGo de emplacar patches no upstream em vez de soltá-los por conta própria é outro.

E o que foi que realmente escapou às minhas previsões? O aumento dos forks de destaque (como o LibreOffice, o Mageia, o IllumOS), por exemplo. A criação do MeeGo com a fusão Moblin-Maemo. Olhando para trás hoje, não é de se surpreender que os tubarões tenham começado a circundar a Novell, mas eu não pensei que a empresa poderia estar em mãos diferentes no fim do ano. O fracasso do PHP6 também parece óbvio quando olhamos a situação hoje.

Outra omissão interessante poderia ter sido destacada no início do ano como “o mundo do Linux embarcado vai começar a se organizar”. No ano que passou, presenciamos a criação do projeto Linaro, que tentou aprimorar as ferramentas e o suporte para a importante arquitetura ARM. O projeto Yocto, que visa facilitar o processo de criação de distribuições embarcadas, foi iniciado. Vários fornecedores da área decidiram padronizar as coisas com o kernel 2.6.25, que em decorrência disso vai contar com suporte aprimorado a longo prazo. A quantidade de fornecedores contribuindo com projetos de software livre está crescendo. Ainda há muito a ser melhorado, mas as coisas parecem estar seguindo na direção certa.

A previsão mais óbvia de todas foi a de que o software livre estaria mais forte do que nunca. Apesar dos altos e baixos, das “flame wars” e das ações judiciais, dos nossos bugs e forks, estamos nos saindo muito bem. Lá se foi mais um bom ano para o Linux e para o software livre, e foi um prazer tratar desse assunto. Obrigado a todos por fazerem esta comunidade existir.

Créditos a Jonathan Corbetlwn.net

Tradução por Roberto Bechtlufft <info at bechtranslations.com.br>

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