Uma das perguntas que surgiram depois que novos vídeos de GTA 6 começaram a circular ontem (18) é também uma das mais difíceis de responder: quem conseguiu esse material?
O nome no centro da história é Cyberleek. Uma pessoa ou grupo usando essa identidade assumiu a responsabilidade pela divulgação e publicou um manifesto no qual afirma estar atacando práticas consideradas anticonsumidoras na indústria de games. Os vídeos atribuídos a GTA 6 começaram a circular a partir de uma página ligada ao Cyberleek, que também distribuiu imagens do suposto mapa de Leonida.
Até agora, não há informação pública suficiente para identificar quem controla o Cyberleek, determinar quantas pessoas estão envolvidas ou demonstrar como os arquivos de GTA 6 chegaram até elas. Existe ainda outra peça que tornou a história mais controversa: junto dos vazamentos e do discurso em defesa dos jogadores, o Cyberleek passou a promover uma memecoin própria na rede Solana e afirma estar levantando recursos para um “projeto secreto”.
Essa combinação despertou uma investigação informal da própria comunidade. No Reddit, jogadores começaram a questionar se o vazamento é realmente uma campanha ativista ou se o jogo mais aguardado do momento também está sendo usado como ferramenta para atrair compradores para uma criptomoeda.
O que é o Cyberleek?
Cyberleek é o nome utilizado pelo responsável por uma página que passou a distribuir os novos materiais atribuídos a GTA 6. A própria cobertura internacional evita definir com certeza sua estrutura, não está claro se estamos diante de um grupo organizado, de poucas pessoas trabalhando juntas ou mesmo de um único indivíduo usando uma identidade coletiva.
O nome aparece ligado aos vídeos de gameplay, às imagens que supostamente mostram o mapa de Leonida e a um documento chamado “CYBERLEEK Edict”, uma espécie de manifesto dirigido às grandes editoras de videogames. O Cyberleek afirma que as empresas do setor adotaram práticas que retiram direitos dos consumidores e estabelece três exigências principais.
- A primeira é o fim das pré-vendas de jogos exclusivamente digitais.
- A segunda mira conteúdo single-player que, segundo o manifesto, já estaria incluído no produto, mas permaneceria bloqueado até que o jogador pagasse um valor adicional.
- A terceira exige que jogos com conteúdo para um jogador mantenham alguma forma de funcionamento offline quando os servidores responsáveis pelo serviço forem encerrados.
O grupo diz que pretende continuar mirando editoras que violem esses princípios até obter declarações públicas e mudanças concretas.
A comunidade conseguiu encontrar rastros técnicos da operação
Não conhecer a identidade dos responsáveis não significa que a operação seja completamente invisível. Um repositório criado no GitHub nesta quarta-feira reuniu uma investigação técnica independente sobre a procedência dos arquivos e a infraestrutura usada pelo Cyberleek. Alguns dos dados são particularmente interessantes porque podem ser conferidos em registros públicos de blockchain.
Segundo a investigação, a infraestrutura relacionada ao Cyberleek utilizou Solana para manter informações da aplicação e Arweave, uma rede de armazenamento descentralizado, para hospedar parte dos arquivos distribuídos.
A criptomoeda do Cyberleek mudou a discussão
O próprio manifesto do Cyberleek promove uma criptomoeda associada à iniciativa. Segundo o texto, o grupo estaria levantando recursos para financiar um “projeto secreto” que não poderia ser detalhado porque isso permitiria que grandes empresas preparassem suas defesas. O manifesto chega a assegurar explicitamente que a iniciativa não seria uma tentativa de simplesmente arrecadar dinheiro aproveitando a repercussão.
Só que a forma escolhida para esse financiamento não é uma simples carteira destinada a receber doações, é uma memecoin na blockchain Solana.
No Reddit, jogadores começaram a acusar o Cyberleek de promover um “pump and dump”
Uma das maiores discussões sobre a identidade do Cyberleek no Reddit acumulou milhares de votos e centenas de comentários poucas horas depois da publicação, e boa parte da conversa deixou rapidamente de ser sobre mídia física ou direitos digitais, os gamers começaram a falar da criptomoeda.
Um dos comentários de maior destaque ironiza que, depois do discurso em defesa dos consumidores, o grupo estaria oferecendo uma moeda que poderia ser valorizada e posteriormente vendida pelos próprios responsáveis. Outro usuário acusa diretamente o Cyberleek de adotar uma “posição moral falsa” enquanto coloca sua moeda nos vazamentos.
Outro comentário levanta uma pergunta particularmente pertinente: se o objetivo fosse simplesmente arrecadar recursos para ações futuras, por que criar uma memecoin cujo valor pode subir com a especulação, em vez de pedir doações diretamente?
Alguns usuários passaram a usar a expressão “pump and dump” para descrever aquilo que acreditam estar acontecendo. “Pump and dump” é o nome dado a um esquema no qual um ativo é promovido para estimular compras e elevar artificialmente seu preço; quem entrou cedo vende sua posição depois da valorização, deixando compradores posteriores expostos à queda.
O timing da operação também é interessante
A cronologia deixa uma questão que merece acompanhamento. Segundo os registros levantados pela investigação independente, a infraestrutura Cyberleek começou a deixar rastros públicos em 15 de agosto.
Os arquivos começaram a aparecer nos dias seguintes e a distribuição ganhou grande repercussão em 18 de agosto.
Isso sugere que houve alguma preparação antes da explosão pública do vazamento, em vez de uma conta criada às pressas depois que arquivos já estavam circulando por outras fontes. O que ainda não foi revelado é quando o token CYBERLEEK foi efetivamente criado e como sua oferta inicial foi distribuída.
Cyberleek não é o responsável pelo enorme vazamento de GTA 6 de 2022
Existe ainda uma confusão que provavelmente aparecerá bastante nas buscas pelo assunto.
O Cyberleek não deve ser confundido com o grupo responsável pelo grande vazamento de GTA 6 ocorrido em setembro de 2022. Naquele episódio, cerca de 90 vídeos de uma versão inicial do jogo apareceram publicamente. O caso foi associado ao grupo de cibercrime Lapsus$ e acabou levando o britânico Arion Kurtaj aos tribunais.
Em 2023, um júri britânico concluiu que Kurtaj havia praticado atos relacionados a ataques contra várias empresas, incluindo a Rockstar Games, dentro de uma campanha atribuída ao Lapsus$. Promotores afirmaram que o grupo ameaçou divulgar código e informações roubadas para pressionar empresas a pagar resgates.
O caso de Kurtaj continua tendo desdobramentos. Em julho deste ano, foi noticiado que ele havia deixado o hospital seguro onde estava internado e aguardava um novo julgamento.
Você também deve ler!
Esse detalhe do vazamento de GTA 6 reforça a atenção da Rockstar aos pequenos gestos
