Os projetos de software livre que perdemos em 2010

Os projetos de software livre que perdemos em 2010
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In Memoriam: the free software projects we lost in 2010

Autor original: Nathan Willis

Publicado originalmente no: lwn.net

Tradução: Roberto Bechtlufft

Em novembro eu escrevi sobre o aparente fim do conhecido agente de entrega de email Procmail, que não é atualizado desde 2001, mas continua sendo empacotado por distribuições Linux. Seja qual for a sua opinião sobre o Procmail, meu texto provocou um debate nos comentários que volta e meia aparece na comunidade: o que significa a morte de um projeto de código aberto?

Não existe uma resposta correta. O contexto do projeto, sua gerência, a comunidade de usuários e a opinião das pessoas permitem um amplo espectro de definições. O encerramento de um projeto gerido por um único fornecedor pode ser seguido instantaneamente pelo fim do acesso ao código fonte, à documentação online e às listas de discussão. Geralmente o projeto vai atrofiando aos poucos: a documentação não consegue acompanhar as versões mais recentes, novos recursos são lançados como “alfa” e nunca saem disso, e o fórum vai lentamente se transformando em um campo de refugiados, onde os usuários abandonados se ajudam na tentativa de aplicar patches ao código para manter a compatibilidade com as novas bibliotecas do sistema.

Na maioria dos casos, porém, o código continua disponível – em algum lugar. Mas se dermos uma olhada nos projetos que fecharam as portas em 2010, veremos que a mera disponibilidade do código fonte nem sempre basta para que um projeto seja considerado vivo. No fim das contas, a morte de um projeto de software livre pode ser aferida por meio de questões práticas. Quando saiu a última versão? Há planos de suporte para empresas? Suporte confiável, usuário a usuário? E suporte a novos usuários dispostos a melhorar o código?

Em termos práticos, há níveis de “mortalidade” a serem considerados. O dono do código pode se mandar, levar com ele os recursos e despedir os desenvolvedores. Não há muita esperança para projetos com esse destino, a não ser que uma equipe totalmente nova retome os trabalhos do zero. Mas quase tão sério quanto isso é quando o dono ou o líder do projeto leva todos os desenvolvedores para um outro projeto, tido como sucessor do atual – por mais que essa seja uma atitude legítima, sempre existe o risco desse sucessor nunca ser lançado, e até que ele saia os usuários não podem migrar.

Seja como for, o fim de 2010 nos faz refletir, e revirar os escombros dos últimos doze meses pode ser muito esclarecedor no que diz respeito à forma como os projetos de código aberto morrem e aos rumos que as coisas podem tomar depois disso.

Os mortos e enterrados

As casualidades mais fáceis de se identificar são as marcadas pelo comunicado de imprensa emitido pelo dono da empresa dona de um projeto, ou por outra declaração oficial de encerramento de um projeto. Alguns fatores em comum precedem muitos desses casos, coisas muitas vezes previsíveis como a não adoção do projeto pelos consumidores ou problemas legais; riscos que todo projeto enfrenta diariamente.

O projeto de software livre e de código aberto mais famoso a abotoar o paletó em 2010 foi tranquilamente o editor colaborativo em tempo real Google Wave. Apesar de toda a propaganda feita em seu lançamento em 2009, da liberação de boa parte do código e dos eventos para desenvolvedores do Wave realizados ao redor do mundo, o gigante das pesquisas pendurou as chuteiras do Wave em agosto. Por algum motivo que foge à minha compreensão (embora a grande propaganda em torno do produto certamente seja parcialmente culpada), a decisão foi recebida com imensa alegria por muitos na imprensa especializada, e houve muita festa em vários redutos obscuros. O fato de muitos desses felizardos continuarem a descrever o Google Wave como uma ferramenta de mensagens instantâneas – coisa que ele não era – mostra que o produto foi mal gerenciado, e que o marketing confuso foi um erro crítico do Google.

A mesma coisa pode ter acontecido com o Chandler, um aplicativo multiplataforma da Open Source Applications Foundation (OSAF) com email e calendário, apesar de seu fim não ter tido tanto destaque. A última versão foi anunciada em julho de 2009, mas houve commits até o fim do ano. As listas de discussão para usuários e desenvolvedores ainda sobrevivem, mas consistem basicamente de pedidos de ajuda para a instalação. Apesar de um benfeitor com recursos financeiros bancar o desenvolvimento, o projeto nunca conseguiu obter uma fração da popularidade do Mozilla Thunderbird (e de seu complemento que oferece um calendário, o Lightning), que por sua vez também é peixe pequeno. Eu aposto que menos da metade dos leitores deste artigo sabe do que se tratava o Chandler, que dirá experimentar.

Por outro lado, o Linux no Playstation 3 foi eliminado rapidamente em 2010, e teve muito destaque. O firmware que permitia a instalação do Linux não era software livre, mas permitia inicializar o dispositivo com um sistema operacional instalado pelo usuário, e contava com o suporte de várias distribuições Linux. O motivo de tanto barulho foi a Sony, “mãe” do PS3, ter assassinado o projeto de forma intencional, publicamente, sem remorsos. Citando “questões de segurança”, a Sony lançou uma atualização de firmware em abril que desabilitava o recurso de outro sistema operacional suportado pelo console desde seu lançamento em 2006. Os rumores apontavam a possibilidade de pirataria de Blu-Ray por meio de hacking do PS3 como a tal “questão de segurança”, mas até hoje não se falou sobre essa possível brecha.

Uma nota peculiar ao obituário do Linux do PS3 foi o súbito anúncio da Sony de um framework para o desenvolvimento de aplicativos baseado no OpenStep chamado SNAP, que logo foi seguido do anúncio da Sony de que o SNAP havia sido cancelado. A ideia era a de criar um framework de desenvolvimento aberto para o iOS da Apple, abrindo a bem fechada porta do cofre da plataforma iPad/iPhone e uma brecha para a entrada de raios de liberdade. Se levarmos em conta que o sonho de uma comunidade de desenvolvimento aberto amadora foi a justificativa inicial para permitir a execução de outros sistemas operacionais no PS3, os quinze minutos de fama do SNAP provavelmente não foram surpresa para ninguém.

A ferramenta de compartilhamento de arquivos ponto a ponto LimeWire foi demolida em outubro, por ordem judicial. Fontes “próximas à empresa” disseram à PCMag que o aplicativo vai renascer como um “serviço amigo do copyright”. Porém, como a decisão do tribunal impede a criadora do LimeWire de distribuir um cliente capaz de subir ou baixar arquivos da rede P2P Gnutella, é pouco provável que a versão de código aberto “LimeWire Basic” torne a aparecer.

Mas nem todos os projetos fecham as portas por causa de mau gerenciamento corporativo ou da paranoia envolvendo o copyright. A camada de abstração HAL do Linux, por exemplo, hoje é considerada obsoleta em prol do udev. Essa transição era planejada desde 2008, mas até 2009 a HAL ainda recebia novas versões. Em 2010 as grandes distribuições já haviam migrado, embora muitos aplicativos continuem tendo a HAL como dependência. A HAL pode continuar recebendo patches de segurança, mas sua vida ativa basicamente acabou.

Os perdidos

E por falar em patches e em vida ativa, vários projetos grandes caíram na categoria dos que morreram mas continuam tendo muitos usuários, o que traz seu próprio conjunto de desafios.

Pense no Moblin e no Maemo, por exemplo. A distribuição para netbooks da Intel e a distribuição dos portáteis da Nokia se fundiram formando a iniciativa MeeGo em fevereiro de 2010, o que é bom para o futuro do código. Só que os dois projetos originais estavam focados em dispositivos embarcados (ou, no mínimo, em hardware não convencional). Os consumidores que compraram um telefone N900 da Nokia podem não gostar de saber que não haverá versão do MeeGo para o seu aparelho.Os mais ousados podem rodar builds do MeeGo no N900 a partir de um cartão SD, mas o risco fica por conta deles.

O OpenSolaris foi mais um dos muitos projetos da Sun adquiridos pela fornecedora de bancos de dados corporativos Oracle, e embora muitos dos outros projetos dela (Java, OpenOffice e MySQL) tenham tido uma boa dose de dor de cabeça desde a aquisição, o OpenSolaris foi o único a ser jogado fora de uma vez só. Um memorando interno da Oracle anunciou o fato em setembro. Nele constava também que o “Solaris 11” poderia estar disponível por meio de um “programa de parceiros tecnológicos”, mas a versão de código aberto marcha direto para o túmulo.

Em Novembro, a Symbian Foundation chegou ao fim sem cerimônias quando a principal acionista, a Nokia, anunciou que voltaria a absorver a unidade Symbian e acabaria com todos os ativos web da fundação. Esses ativos sumiram no dia 17 de dezembro, embora a Nokia ainda mantenha no rol de seus empregados a equipe de desenvolvimento do Symbian. Oficialmente, o Symbian vai continuar sendo um software de código aberto, e a Symbian Foundation vai virar um “órgão licenciador”, mas o código fonte mesmo vai desaparecer completamente em março. Eu sei que isso não parece muito com a ideia que se tem de código aberto; quem precisar do código é encorajado a mandar um email para contact@symbian.org – uma oferta amigável, mas que não afasta o medo do abandono.

Os que morreram mas não foram esquecidos

É claro que às vezes um “pai” corporativo pode “abrir a gaiola” de seu projeto, de modo que ele sobreviva e até consiga crescer. Foi assim com o Etherpad, o editor colaborativo via web adquirido pelo Google em 2009. O Google abriu o códigologo após a aquisição, mas tirou o serviço do ar em maio de 2010. Antes desse dia fatídico, vários serviços substitutos baseados no código fonte do Etherpad pipocaram – Pirate Pad, PrimaryPad, OpenEtherpad e outros.

Além dos derivados diretos, os forks às vezes dificultam a tarefa de determinar quando um projeto está morto, mas pelo menos um projeto é um candidato plausível em 2010.

O sistema de gerenciamento de conteúdo em PHP Mambo teve uma guerra interna em 2005 que resultou na saída da maioria dos desenvolvedores, que começaram o CMS Joomla. Como costuma acontecer quando surge um fork, os proprietários remanescentes da marca comercial do Mambo e do copyright do código disseram que não havia problema algum, e que o desenvolvimento seguiria em frente. E por uns tempos ele seguiu em frente mesmo, mas ao fim de 2010 se completava um ano desde o último sinal de vida do Mambo (e tem ainda mais tempo desde a última versão lançada), exceto pelo ocasional alerta no Twitter avisando que os servidores do projeto haviam sido atacados. O Joomla, por sua vez, parece bem.

Os grandes mistérios

A categoria final é composta por projetos que desapareceram ou não dão mais sinais de vida, mas que por uma razão ou outra não podem ser decretados oficialmente como mortos.

O Xandros é um exemplo. Essa distribuição Linux comercial não lança uma versão nova desde 2007, embora tenha adquirido um punhado de empresas de lá para cá, o que indica que dinheiro não é o problema. Uma dessas aquisições, inclusive, foi a distribuição Linspire, que também não lança versão nova desde 2007. Não se sabe ao certo se a distribuição está morta, embora a empresa ainda exista e venda contratos de suporte para usuários atuais do Xandros Linux. A empresa tem outros produtos, mas também passou 2010 sem fazer anúncios. Se a empresa estiver desenvolvendo algum produto novo, só pode ser a portas fechadas.

O Snort também tem um pai corporativo que continua atuando, mas a ferramenta em si passa por dias incertos. Algumas pessoas nos círculos de segurança temem que o popular sistema de detecção de intrusos esteja nas últimas. Isso porque a tão discutida reescrita de código da versão 3.0, planejada desde 2007, ainda não pintou. O projeto continuou fazendo atualizações graduais na versão existente do Snort em 2010, mas pelo visto isso não bastou para satisfazer o governo dos Estados Unidos, que bancou o desenvolvimento de um substituto do Snort.

O Raindrop era um sistema de caixa de entrada desenvolvido pelo Mozilla Labs, e que oferecia uma combinação incomum de recursos: email, mensagens instantâneas e discussões de microblogging em um só fluxo, com filtragem inteligente de mensagens um a um, em grupo ou automatizadas. Apesar do começo otimista, o projeto foi deixando de receber atualizações no segundo trimestre do ano, e as listas de discussão murcharam. Um desenvolvedor do Mozilla Labs me disse em outubro que um substituto ao Raindrop ia aparecer “em breve”… mas até agora nada.

O media player XUL multiplataforma Songbird não morreu em 2010, mas abandonou o suporte ao Linux em abril. Pouco depois, parecia que tudo ficaria bem no lado do Linux, com um grupo de contribuidores anunciando o projeto Nightingale (que assumiria do ponto em que o Songbird parou). Oito meses depois, nada de código.

As pegadinhas que complicam as coisas para esses projetos aparentemente falecidos variam. Vamos dar um desconto para o Nightingale: começar um projeto do zero, mas já contando com uma grande base de código preexistente não é mole. Quanto ao Raindrop, o Mozilla Labs se define explicitamente como a asa experimental da Mozilla, onde a pesquisa e o desenvolvimento acontecem e os projetos vêm e vão. Ambos os projetos podem acordar de seu sono profundo e ter uma vida longa e próspera. Quem sabe se o Snort 3.0 não vai sair amanhã? De repente o Tio Sam é meio impaciente, e a versão 3.0 está quase perfeita. A Xandros também pode ter algum truque na manga; os downloads de ISOs estão misteriosamente assinalados com um “esgotado”.

2010 passou voando…

Vendo a lista de projetos finados de 2010, temos um quadro de ecossistema do código aberto como um todo. Alguns projetos, como o Google Wave, o Symbian e o Chandler nunca contaram com a base de usuários que seus criadores esperavam. Outros, como o LimeWire e o Linux no PS3, foram forçados a encerrar atividades devido a ameaças legais da arena onde o código encontra a mídia comercial. O Songbird e o Xandros eram ambos populares quando foram disponibilizados, mas parecem ter perdido o apoio das pessoas que assinavam os contracheques em suas respectivas empresas (e quem sabe o que aconteceu com o SNAP). O Mambo ruiu diante de uma disputa entre seus líderes e seus principais desenvolvedores. Se analisarmos os projetos de código aberto em atividade hoje, podemos notar os mesmos tipos de problemas acontecendo.

O interessante no obituário de 2010 é que ele só inclui um projeto envolvido na aquisição da Sun pela Oracle. Apesar da presença constante da empresa nos noticiários envolvendo ações legais e práticas anticomunitárias, ela não conseguiu eliminar tantos projetos de código aberto. Isso é um indicativo do hype em torno da aquisição da Sun? Ou aponta para a resistência da comunidade do software livre? Cada um tem uma opinião.

Os desenvolvedores do OpenIndiana, o substituto comunitário do OpenSolaris, provavelmente apontariam a segunda opção. E isso nos leva a um outro aspecto interessante de 2010: a quantidade de projetos de código aberto que sobreviveu, de um jeito ou de outro. O Etherpad está crescendo; o Joomla é mais popular do que nunca; o MeeGo se expande rumo a novas áreas, e até o tão atacado Wave ressuscitou como um projeto da fundação Apache (provavelmente para a tristeza de alguns membros da imprensa de software livre e de código aberto).

Há três anos eu dei uma olhada nos projetos que haviam falecido em 2007 para o NewsForge. Havia nove projetos naquela lista, e embora eu não possa traçar uma paralela perfeita (o artigo cobria apenas projetos sobre os quais eu havia escrito naquele ano), não dá para não notar que apenas um deles sobreviveu de maneira identificável. Há motivos para termos esperanças com três ou quatro das vítimas de 2010.

A diferença pode ser causada por uma variação aleatória, mas também pode ser que a comunidade tenha aprendido com a experiência. Já houve casos no passado de projetos que foram encerrados e liberaram o código para a comunidade, mas que não tiveram o mesmo êxito do Etherpad ao fazer isso. O Etherpad talvez seja um caso a ser estudado para que tentativas futuras de se fazer isso não fracassem. Talvez nem seja tarde demais para algumas das casualidades de 2010, como o Raindrop e o Symbian. Os dois têm algumas chances de sobrevivência, mas boas intenções sozinhas não vão garantir sua sobrevivência em 2011.

Créditos a Nathan Willislwn.net

Tradução por Roberto Bechtlufft <info at bechtranslations.com.br>

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