Quais profissões vão sobreviver à IA? O que dizem Elon Musk, Bill Gates e Jensen Huang

Quais carreiras têm mais chance de sobreviver à inteligência artificial? Dados do WEF, Goldman Sachs e vozes como Elon Musk e Bill Gates explicam.

O mercado de trabalho apresenta um movimento que inverte a lógica da última década. Se antes o objetivo de jovens talentos era o desenvolvimento de software e a análise de dados pura, o cenário atual mostra uma saturação nessas áreas devido à capacidade de processamento de modelos de linguagem e agentes autônomos. Um exemplo concreto desse fenômeno ocorre na China. Dados do Ministério da Educação do país indicam que o número de graduados em áreas de tecnologia da informação que buscam vagas em fábricas inteligentes e manufatura avançada subiu 18% no último ano. Esses jovens trocam escritórios de Pequim por linhas de produção de semicondutores e veículos elétricos, onde a presença humana para a calibração de máquinas e supervisão técnica é indispensável.

Antes de listar qual o panorama que está sendo projetado para o futuro do mercado de trabalho, vale entender o mecanismo por trás da transformação, porque ele muda o modo de ler os dados. Um estudo do Goldman Sachs estima que a inteligência artificial generativa pode expor ao equivalente a 300 milhões de empregos em tempo integral à automação nas grandes economias. No Brasil, essa projeção de exposição alcança 25% do total de ocupações, um índice inferior ao registrado nos Estados Unidos e Europa, onde o Goldman Sachs estima que dois terços dos empregos têm algum grau de exposição à automação, justamente pela menor presença de setores manuais e agrícolas nessas economias.

É importante destacar que “exposto à automação” não é sinônimo de “eliminação completa”. O relatório detalha que, enquanto 7% dos postos podem ser substituídos, a grande maioria, cerca de 63% das funções, será complementada pela tecnologia, transformando o trabalhador em um orquestrador de ferramentas digitais. Essa tese ganha força com o Global AI Jobs Barometer 2025 da PwC: ao analisar quase 1 bilhão de anúncios de emprego, a consultoria identificou que, nas funções com maior alcance da IA, o volume de vagas cresceu 38% entre 2019 e 2024. O mercado não está encolhendo, mas exigindo um novo perfil de contratação.

A migração para o setor industrial e de serviços essenciais reflete uma tese defendida por alguns nomes do mercado de tecnologia, como Elon Musk. O empresário afirmou numa entrevista com Peter Diamandis no programa Moonshots que o valor de profissionais como eletricistas e encanadores subirá de forma acentuada.

“Qualquer coisa física, como cozinhar comida, agricultura, qualquer coisa física, esses empregos vão existir por muito mais tempo. Mas qualquer coisa digital, onde alguém fica sentado num computador fazendo algo, a IA vai assumir esses trabalhos como um raio”, disse Musk.

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O refúgio na indústria e nos serviços especializados

INDUSTRIA

A busca por estabilidade mudou de endereço. A McKinsey estima que 70% das transformações digitais falham, e aponta como causa principal não a tecnologia em si, mas a incapacidade das organizações de adaptar processos e pessoas ao novo modelo. Isso significa que profissionais capazes de gerenciar mudança, liderar equipes em transição e tomar decisões contextuais continuam sendo o gargalo real de qualquer projeto de automação, independentemente do setor.

Na prática, esse diagnóstico cria uma divisão clara no mercado de trabalho. Cargos de suporte de nível básico, atendimento, triagem de dados, processamento de documentos, enfrentam pressão crescente de sistemas automatizados que absorvem tarefas repetitivas com custo próximo de zero. Do outro lado, engenheiros de campo, técnicos de infraestrutura e especialistas em implantação de sistemas operam em déficit de oferta: o relatório World Energy Employment 2025 da IEA registra que 60% das empresas do setor de energia já reportaram escassez de mão de obra qualificada, e que o número de formandos entrando no setor precisaria crescer 40% globalmente até 2030 para suprir a demanda projetada. A IA pode monitorar uma rede elétrica em tempo real, mas não instala o transformador.

Bill Gates reforça esse movimento ao destacar que os setores de biociências e energia são os pilares de resistência na era da IA. Para ele, a transição energética exige um esforço físico monumental que a tecnologia digital não consegue suprir sozinha.

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Competências que blindam o currículo

A sobrevivência profissional não depende de saber programar em uma linguagem específica, mas de dominar três habilidades que os algoritmos ainda não emulam com precisão. A primeira é o pensamento sistêmico. Profissionais que conseguem enxergar a conexão entre diferentes departamentos de uma empresa e prever como uma mudança na logística afeta o marketing mantêm postos de liderança. A IA analisa dados isolados com eficiência, mas falha em interpretar nuances políticas e culturais de uma organização.

A segunda habilidade é a curadoria de dados. Com a internet inundada por conteúdo gerado sinteticamente, o profissional que sabe distinguir informações reais de alucinações de modelos de linguagem tornou-se um filtro essencial para a tomada de decisão em grandes corporações. Nesse sentido, até podemos trazer uma visão defendida por Jensen Huang, CEO da NVIDIA, que afirmou no ano passado que você não vai perder seu emprego para uma IA, mas vai perder para alguém que usa IA. Esse sentido do uso não é apenas a parte de interagir com a ferramenta, mas saber, por exemplo, construir prompts eficazes que melhoram o resultado e reduzem os problemas gerados por essas ferramentas. 

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Por fim, a inteligência interpessoal aplicada ao cuidado e à negociação permanece exclusiva. No setor de saúde, algoritmos de visão computacional já atingem acurácia acima de 95% na detecção de determinados tipos de câncer por imagem, resultado comparável ao de radiologistas experientes. Ainda assim, a adesão do paciente ao tratamento depende da confiança estabelecida pelo médico ou enfermeiro: o diagnóstico a máquina pode fazer, a relação que faz o paciente seguir o tratamento, não.

Que profissões tem maiores chances de crescimento para o futuro?

O WEF lista como funções de maior crescimento em volume absoluto até 2030 trabalhadores rurais e agrícolas no topo (35 milhões de novos postos projetados), seguidos por motoristas de entrega, trabalhadores da construção civil, vendedores e trabalhadores de processamento de alimentos. Profissões do setor de cuidados humanos, como enfermeiros e assistentes sociais, também figuram entre as maiores expansões absolutas, ao lado de professores universitários e do ensino médio, cujo crescimento o próprio relatório atribui ao aumento da população em idade ativa nos países de renda mais baixa. Em crescimento percentual, o topo pertence às funções diretamente ligadas à tecnologia: especialistas em big data crescem 113%, seguidos por engenheiros de fintech, especialistas em IA e aprendizado de máquina, desenvolvedores de software e especialistas em segurança cibernética.

O que une grupos aparentemente tão diferentes, um trabalhador rural e um especialista em big data? O relatório responde com precisão: os primeiros crescem em volume porque a demanda estrutural não some com automação; os segundos crescem em percentual porque são funções ainda pequenas em número absoluto, mas se multiplicando rápido. São dois eixos distintos de resistência: trabalho físico que exige presença no mundo real e trabalho cognitivo que exige julgamento com responsabilidade moral, e é exatamente aí que os dois grupos se encontram. Um enfermeiro toma decisões sobre um paciente que chora, já m professor lida com um adolescente perdendo o interesse em aprender. Um trabalhador rural resolve um problema de irrigação no campo às 6h da manhã. 

No Brasil, o LinkedIn mapeou as 25 profissões em maior alta para 2026, e engenheiros de IA, especialistas em segurança cibernética e analistas de dados aparecem no topo, mas ao lado de fisioterapeutas, enfermeiros e gestores de saúde mental, que crescem pelo mesmo motivo que crescem globalmente: a demanda por cuidado humano não é automatizável no curto prazo. Profissões ligadas à transição energética também entram nessa lista, como técnicos em energia solar e gestores de sustentabilidade, impulsionados tanto pela agenda ambiental quanto pelos investimentos em infraestrutura que o próprio relatório do WEF associa como vetor de criação de empregos ao lado da IA.

As profissões que somem

O mesmo relatório do WEF é claro sobre o lado oposto: caixas e bilheteiros, assistentes administrativos e secretárias executivas, o grupo de trabalhadores do setor clerical e secretarial lidera essa lista. Em queda percentual mais acelerada aparecem trabalhadores de inserção de dados, funcionários de serviços postais e bancários. Uma novidade desta edição do relatório, que não aparecia em 2023: designers gráficos e secretários jurídicos entram pela primeira vez entre os papéis em declínio, o próprio WEF interpreta isso como sinal da capacidade crescente da IA generativa de executar trabalho de conhecimento criativo e técnico.

O caso dos designers gráficos merece atenção especial porque ilustra como a transformação funciona em setores criativos. A IA generativa não substituiu o designer sênior que concebe campanhas, dirige equipes e defende escolhas estéticas para um cliente, substituiu o designer júnior contratado para produzir variações de banner em escala, redimensionar peças e criar mockups básicos. É exatamente esse padrão que a PwC identificou ao separar funções “automatizáveis” de funções “aumentadas”: as primeiras encolhem, as segundas são potencializadas, e a linha entre elas passa pela capacidade de tomar decisões que envolvem contexto, relação e responsabilidade.

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A China como modelo para reflexão

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A China viveu nos últimos anos um fenômeno que antecipou o que o restante do mundo começa a sentir: uma reconfiguração do destino dos graduados em tecnologia. A fatia de formandos da Universidade de Tsinghua, referência de engenharia equivalente ao MIT, entrando em manufatura e energia subiu por seis anos consecutivos, com alta de 19,1% só na turma de 2025.

O movimento não tem uma causa única: regulação governamental encolheu o Big Tech (a Alibaba foi de 250 mil para 124 mil funcionários entre 2022 e 2025), enquanto políticas industriais direcionaram capital e talento para semicondutores, veículos elétricos e energia renovável,  setores que agora exigem engenharia de ponta, não linha de montagem. A IA acelerou o processo ao tornar menos necessário o desenvolvedor júnior de código repetitivo, mas foi o redirecionamento estratégico da economia chinesa que abriu a porta.

O movimento visto na China, onde engenheiros formados nas melhores universidades do país abandonam o sonho do Big Tech para desenvolver semicondutores, sistemas de energia renovável e veículos elétricos, é o prelúdio do que ocorre no restante do globo. A tecnologia não eliminou o trabalho de alto valor, mas o deslocou: saiu do desenvolvimento de software em escala e foi para a engenharia aplicada ao mundo físico. Quem consegue transitar entre o raciocínio digital e a execução em indústrias reais detém as carreiras mais seguras no horizonte que se desenha.

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Editor-chefe no Hardware.com.br/GameVicio Aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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