TomTom revela OpenLR, formato de referência de localização

TomTom unveils OpenLR location-referencing format
Autor original: Nathan Willis
Publicado originalmente no:
lwn.net
Tradução: Roberto Bechtlufft

No dia 8 de setembro, a fabricante de dispositivos GPS e provedora de serviços de mapas TomTom apresentou aquilo que ela espera vir a se tornar um padrão para a indústria em referência de localização e orientação de rotas dinâmicas. O OpenLR, como é conhecido, foi desenvolvido para permitir que aplicações e serviços diferentes troquem informações sobre localização de maneira compacta e não atada a mapas específicos, facilitando a interoperabilidade entre esses serviços, os dispositivos de navegação para automóveis e outros sistemas de conteúdo que ofereçam dados relacionados à localização, como avisos de segurança pública. A TomTom disse que quer que o OpenLR seja livre de royalties e tenha especificações abertas, e há um codificador e um decodificador licenciados pela GPL2 prometidos para breve.

Há tempos a empresa usa o Linux e software de código aberto em seus produtos de hardware, o que levou à ação judicial de patentes com a Microsoft, em fevereiro de 2009, por causa do sistema de arquivos VFAT. A TomTom revidou com uma ação contra a Microsoft por violação de patentes, e as duas empresas fizeram um acordo extrajudicial em março. Apesar de seu histórico com a comunidade e o modelo de desenvolvimento de código aberto, o OpenLR é a primeira tentativa da TomTom de lançar um novo projeto de código aberto completamente seu.

Uma visão geral do OpenLR

O OpenLR foi desenvolvido para resolver o problema da troca rápida de conteúdo relevante sobre localização entre provedores de dados, agregadores e dispositivos dos usuários finais. O OpenLR não é um sistema de coordenadas geográficas (como o World Geodetic System 84 (WGS 84)) e nem uma linguagem de marcação como o KML ou o GPX. Em vez disso, o OpenLR se foca na codificação de LRPs (Location Reference Points, ou Pontos de Referência de Localização), usando uma combinação de coordenadas e atributos como a FRC (functional road class, ou classe de estrada funcional) e a FOW (form of way, ou forma do caminho), que descrevem o LRP em termos de seus atributos físicos. Logo, um aplicativo que use mapas de um serviço web de mapas e as rotas de um dispositivo GPS pode decodificar um LRP usando vários fatores, e ainda que suas fontes usem formatos de mapas diferentes ou não estejam totalmente de acordo, o aplicativo poderá determinar que se trata de um mesmo local.

Apesar do nome “ponto de referência de localização”, conforme definido pelo OpenLR, um LRP está mais para o que os matemáticos chamariam de vértice em grafos orientados; possui um nó inicial e um nó final, uma direção e um comprimento. Isso evidencia o objetivo subjacente do OpenLR de descrever as viagens em vez de apontar com precisão objetos estacionários, mas a terminologia pode ser um pouco confusa para novatos. De maneira semelhante, a FRC e a FOW focam a atenção nas estradas; a FRC é definida com números, indo de FRC 0 (“estrada principal”), passando por FRC 1 (“estrada de primeira classe”) e indo até FRC 7 (“outra estrada”). A FOW descreve o tipo físico da estrada: autoestrada, rotatória etc.

O principal uso do OpenLR exemplificado pela TomTom é o de descrever a concatenação dos caminhos mais curtos que englobam um grupo de LRPs. O OpenLR em si não calcula nem o menor nem o melhor caminho entre um LRP inicial e um LRP final; ele apenas oferece uma maneira para que o software o codifique para troca usando pouca banda. O OpenLR não está preocupado com outros elementos de mapas encontrados pelo caminho, como recursos geográficos ou pontos de interesse (POIs).

Traçar uma rota entre os locais selecionados talvez seja a ação mais simples de se imaginar; um dispositivo poderia solicitar uma rota entre dois pontos e receber as direções de um servidor remoto na forma de dados OpenLR. Além disso, a TomTom descreve vários casos em que o OpenLR pode ser usado para propagar outras informações úteis para viajantes, como dados sobre o trânsito, avisos de segurança pública e até mesmo comunicação cooperativa entre veículos, visto que todos eles compartilham da mesma necessidade de informações sobre as rotas mais curtas, além de aplicações úteis em municípios, como o gerenciamento de tráfego urbano em tempo real e informações sobre pedágios.

Abertura

A introdução ao OpenLR [PDF] da TomTom afirma que o OpenLR foi desenvolvido para funcionar com qualquer mapa (ou seja, os dados do OpenLR são independentes do fornecedor e da versão dos mapas), ser independente do canal de comunicação (podendo ser transmitido com a mesma facilidade por rádio ou por uma rede IP) e independente de codificadores (de forma que qualquer dispositivo, aplicativo ou serviço possa decodificar de forma não ambígua as informações enviadas por qualquer outro). A empresa postou uma descrição mais detalhada sobre o formato de dados do OpenLR em um whitepaper [PDF] disponível em seu site, incluindo o formato de transmissão orientado a bytes e os detalhes sobre como especificar cada componente, das coordenadas (em WGS 84) às orientações e distâncias.

Em sua apresentação, a empresa explica o valor de lançar o OpenLR como um padrão aberto – maior confiança das partes interessadas importantes da indústria, proteção contra ameaças relacionadas à propriedade intelectual e flexibilidade para expandir e aprimorar o padrão na direção escolhida pela comunidade. A TomTom entrou com um pedido de patentes sobre o conceito básico do OpenLR, mas afirma que publicará o método usado na patente na implementação do codificador e do decodificador, que serão lançados sob a licença GPL. A documentação em si foi publicada sob uma licença Creative Commons CC-BY.

A TomTom explica na apresentação que optou pela GPL2 como licença para o OpenLR para proteger as implementações livres de ataques relacionados a patentes, observando que serviços comerciais podem implementar o software. Ela também afirma que a licença de uso do OpenLR incluirá uma cláusula garantindo que a TomTom não processará ninguém por violação de patentes. Há um documento de licença [PDF] em separado contendo todos os detalhes.

Embora a TomTom diga que irá assumir o papel de liderança e gerenciamento no desenvolvimento do OpenLR, tanto o whitepaper quanto a apresentação asseguram que a empresa deseja e espera que a comunidade de código aberto participe na expansão do OpenLR, incluindo a cobertura de diferentes tipos de dados (como Pontos e Áreas), suporte a opções de formatação diferentes como o XML, integração com sistemas de posicionamento GPS e Galileo e integração com o padrão de tráfego e viagens TPEG (Transport Protocol Experts Group).

A corrida começou

Os dados básicos cobertos no cenário de uso de troca de informações de rotas e tráfego também podem ser expressos em outros formatos que já existem. O mais conhecido é o RDS-TMC, formato transmitido em uma banda lateral de transmissões de rádio FM padrão. O RDS-TMC é amplamente difundido apenas em alguns países, como na Alemanha, embora esteja disponível na Europa ocidental e na América do Norte. Os dados de tráfego RDS-TMC em si podem se originar de diversas fontes, inclusive de sensores implantados pelo governo em estradas, e seu formato foi publicado.

Apesar disso, o uso do RDS-TMC é problemático, especialmente para o software livre, porque ele codifica as localidades referenciadas por meio de um conjunto de dados proprietário, que é limitado em tamanho e que não pode ser atualizado ou corrigido com facilidade. Um sistema semelhante em escopo chamado AGORA-C, proprietário e comercial, depende de licenciamento e coleta de royalties, resultando em incerteza no estabelecimento de compromissos por parte de participantes da indústria. O Formato TPEG ao qual a TomTom se referiu na apresentação é aberto, mas a TomTom considera seu respectivo subsistema de referência de localização (o TPEG-Loc) inadequado devido à falta de regras de codificação padronizadas.

O mercado de referência de localização é grande; serviços gratuitos para traçar rotas como os do Google e do Yahoo, não geram renda, mas de acordo com as informações disponíveis, os sistemas de navegação para automóveis (tantos os integrados quando os adquiridos separadamente) representam negócios de grande volume e que continuam a crescer. A própria TomTom vende software de navegação para plataformas como o iPhone, e serviços tarifados para motoristas que queiram evitar pardais e outras “ameaças” nas estradas. A TomTom também é dona da criadora de mapas Tele Atlas (adquirida em 2007).

A competição entre a TomTom e rivais do setor de mapas como a Garmin e a DeLorme é feroz; os riscos financeiros são altos e o número de participantes é pequeno. Os defensores do software livre já afirmaram por diversas vezes que essa é uma situação que exige o lançamento estratégico em código aberto de uma tecnologia de base. O OpenLR certamente atende às necessidades no que tange à pilha de navegação; projetos abertos como o OpenStreetMap não podem usar sistemas alternativos como o RDS-TMC ou o AGORA-C devido às suas licenças. Apesar disso, a abertura do OpenLR não é um remédio milagroso; para que tenha impacto substancial, ele terá que ser adotado por vários participantes da indústria, incluindo provedores de dados de tráfego.

Obviamente, a participação das comunidades de código aberto e de padrões abertos no desenvolvimento do padrão pode dar uma boa ajuda nesse sentido. A TomTom deve fazer uma apresentação sobre o OpenLR esta semana, no Congresso Mundial de Sistemas de Transportes Inteligentes. A reação por lá deve dar uma boa ideia do que a indústria pensa sobre a tecnologia. Quanto à reação da comunidade de código aberto, provavelmente teremos que esperar pelo lançamento do código fonte.

Créditos a Nathan Willis – lwn.net
Tradução por Roberto Bechtlufft <info at bechtranslations.com.br>

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Esta postagem foi modificada pela última vez em 06/10/2009 13:35