Você lembra dele? Nokia N95, o celular que foi sonho de consumo no Brasil nos anos 2000

Existe um tipo de celular que transcende sua função. Não é só um telefone, viram símbolo de status, objeto de desejo, posição que o iPhone ocupa nesse imaginário do consumismo.

No Brasil dos anos 2000, o Nokia N95 ocupou esse espaço como poucos. Lançado em 2007 com preço equivalente a mais de seis salários mínimos da época, ele representava o que havia de mais avançado em tecnologia móvel, e era inacessível para a maioria esmagadora da população. Iremos relembrar esse modelo tão marcante neste artigo. 

O computador que cabia no bolso

Seu design de duplo slide, deslizava para cima para revelar o teclado T9, para baixo para expor controles multimídia, sinalizava um aparelho pensado tanto para trabalho quanto para entretenimento. A tela de 2.6 polegadas com 16 milhões de cores acompanhava a posição do teclado, rotacionando as imagens conforme a direção escolhida. Um sensor de luminosidade ajustava o brilho automaticamente.

A ficha técnica justificava a alcunha de “computador de bolso”:

  • Duas câmeras (uma principal de 5 megapixels com lentes Carl Zeiss e resolução de 2592 x 1944 pixels, outra frontal para videoconferência),
  • GPS integrado
  • Wi-Fi, 3G+ HSDPA com velocidade teórica de até 3,6 Mbps e conexão quadribanda
  • A gravação de vídeo em VGA (640×480) a 30 quadros por segundo com áudio estéreo e estabilizador digital era descrita como “qualidade DVD”.

Os conectores fugiam do padrão restritivo que outras fabricantes impunham. O N95 aceitava fones de ouvido convencionais com entrada P2 3.5mm, tinha porta infravermelha, Bluetooth 2.0 com suporte a headsets estéreo A2DP, e incluía cabo para exibir fotos e vídeos diretamente na TV. Até o tempo de boot impressionava: cerca de dez segundos, rápido para os smartphones Nokia daquela geração.

Recentemente, uma usuária do Reddit compartilhou algumas fotos que foram tiradas com o N95. Confira abaixo:

A internet de verdade no bolso

Se havia um recurso que separava o N95 da concorrência, era a conectividade Wi-Fi. Em 2007, a maioria dos celulares brasileiros acessava apenas sites WAP , versões simplificadas, quase caricatas da web real. O N95 quebrava essa barreira.

Nos testes da época, a configuração da rede Wi-Fi permitia velocidade e acesso simplificado a sites completos. O aparelho lia notícias via RSS, enviava imagens diretamente para blogs e navegava em HTML como um computador de mesa. Na França, era compatível com serviços de VoIP como Free e Neuf Cegetel. 

O GPS integrado completava o pacote. Em uma era anterior ao Waze e ao Google Maps, ter navegação dessa no bolso representava autonomia inédita, mesmo que o sistema tivesse suas limitações. 

A central multimídia

 

O N95 também se destacava como dispositivo de entretenimento. O player de música suportava MP3, AAC, WMA e até arquivos com DRM, enquanto o rádio FM integrado dispensava a necessidade de um aparelho separado. A qualidade de som surpreendia: reviews da época descreviam “clareza e potência surpreendentes.

Um recurso curioso eram os toques em 3D (“sonneries 3D”), que geravam efeitos sonoros espaciais em condições ideais de escuta. Era o tipo de funcionalidade que parecia exagero, mas reforçava a imagem de um aparelho que não deixava nada de fora.

O alto preço

O N95 era caro em qualquer lugar do mundo. Nos Estados Unidos, custava 500 dólares. Na França, 800 euros. Em Singapura, o N95 8GB chegava a S$ 1.218.​

No Brasil, a história era ainda mais brutal: R$ 1.799 na loja oficial da Nokia, chegando a R$ 2.500 no varejo desbloqueado. O salário mínimo brasileiro em abril de 2007 era de R$ 380. O N95 custava, portanto, entre 5 e 7 salários mínimos, um valor proibitivo para muitos que cobiçavam o modelo na vitrine das lojas.

O N95 foi até usado como argumento para incentivar a venda de um carro

O status do N95 no Brasil atingiu um patamar curioso: virou item de série de automóvel. Em 2008, a Renault e a Nokia lançaram em São Paulo a série especial Sandero Nokia, o primeiro veículo do país a trazer de fábrica um sistema com Bluetooth, navegação GPS, Nokia Mapas, viva-voz e streaming de áudio. O celular N95 vinha incluído na compra do carro. O preço do carro era R$ 47.290.

Foram produzidas mil unidades da série. A lógica comercial era clara: o N95 tinha apelo suficiente para agregar valor a um veículo zero-quilômetro. Não era apenas um brinde, era parte do argumento de venda. Poucas vezes na história um celular ocupou esse espaço no imaginário do consumidor brasileiro.

O concorrente que mudaria tudo

O que torna o N95 historicamente interessante é o momento em que surgiu. Steve Jobs anunciou o primeiro iPhone em janeiro de 2007, mas o aparelho só chegou ao mercado americano em junho daquele ano. O N95 já estava nas lojas desde março. 

E aqui está o detalhe que muitos esquecem: tecnicamente, o iPhone original era inferior. Operava apenas em 2G (o N95 tinha 3G+), sua câmera era de 2 megapixels sem flash, não tinha GPS e não gravava vídeo. O N95 fazia videochamadas, rodava múltiplos aplicativos simultaneamente e acessava a web real em HTML.

O aparelho também trazia a plataforma N-Gage integrada, permitindo que o usuário jogasse títulos elaborados diretamente no celular — uma “loja de jogos” funcional anos antes da App Store existir. 

A Nokia vendeu mais de 10 milhões de unidades do aparelho, consolidando-o como um dos smartphones mais bem-sucedidos da era pré-touchscreen

Nem tudo era perfeito

Havia limitações reais. Se comparado a smartphones com miniteclado alfanumérico (como os BlackBerry da época), o N95 era pouco confortável durante a digitação. O mecanismo de slide, por mais engenhoso que fosse, adicionava volume e peso ao conjunto.

O calcanhar de Aquiles, porém, era a bateria de 950 mAh. Reviews da época já apontavam que a autonomia “poderia ser um grande ponto negativo na decisão de compra”. Em uso moderado, durava cerca de 48 horas. Mas bastava ativar o GPS para o tempo despencar para menos de 12 horas. Com Wi-Fi, GPS, 3G e tela colorida disputando energia, o N95 exigia recargas frequentes, um problema que a Nokia nunca resolveu completamente.

A evolução: Nokia N95 8GB

Meses depois do lançamento original, a Nokia apresentou o N95 8GB, a versão que muitos consideram a forma definitiva do aparelho. O exterior ganhou acabamento preto glossy. A tela cresceu para 2.8 polegadas, e as teclas de navegação ficaram menores e mais discretas.

A câmera manteve o sensor de 5 megapixels, mas com melhorias no processamento: performava melhor em iluminação ambiente, produzindo fotos “mais claras e naturais”. O mecanismo de dual-slide ficou mais estável, e as teclas multimídia dedicadas ganharam feedback tátil aprimorado.

A Nokia removeu a tampa mecânica que protegia a lente, substituindo-a por uma cobertura fixa transparente (decisão controversa, já que atraía mais poeira e marcas de dedo). O slot de expansão de memória também foi eliminado, compensado pelos 8GB internos que davam nome ao modelo.

No Brasil, esse modelo chegou em junho de 2008, juntamente com o N78. O preço era R$ 2.320.

O legado de uma era

O N95 representa o ápice de uma filosofia de design que a Nokia dominava: empilhar o máximo de especificações possíveis em um único aparelho. GPS, Wi-Fi, câmera de alta resolução, multitarefa real, rádio FM, saída de TV, N-Gage, RSS, VoIP, Office, toques 3D. Era a abordagem de checklist levada ao extremo.

O iPhone venceria não por superioridade técnica, mas por propor uma experiência diferente, mais simples, mais integrada, centrada no toque. A Nokia, presa ao Symbian e a seus teclados físicos, não conseguiu responder a tempo.

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Esta postagem foi modificada pela última vez em 03/12/2025 08:01

William R. Plaza: Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br