KDE “penando” com as solicitações de recursos

KDE struggles with feature requests
Autor original: Jake Edge
Publicado originalmente no:
lwn.net
Tradução: Roberto Bechtlufft

Às vezes a relação dos desenvolvedores com os usuários é meio turbulenta. Os usuários podem fazer solicitações difíceis de se atender, por serem fora da realidade ou exigirem trabalho demais. Dentre esses usuários, os mais barulhentos não gostam muito de ouvir um “não” (ou um “ainda não”) como resposta. Alguns desenvolvedores do KDE vêm passando por maus bocados com esse problema, e estão tentando descobrir uma forma de amenizar o diálogo entre usuários e desenvolvedores.

Em um post na lista de discussão kde-devel, Pau Garcia i Quiles questionou se os recursos do KDE 3 que faltam no KDE 4 deveriam ser listados. Ele observou que reclamações sobre a ausência desses recursos são feitas por usuários em vários lugares diferentes (incluindo uma página do openSUSE na web, que lista alguns desses recursos) mas que falta um ponto central que o KDE possa acompanhar. A sugestão dele foi: “Será que poderíamos começar algo do gênero na UserBase, para que as pessoas nos digam de que recursos do KDE3 elas sentem falta no KDE4? Ou talvez criar uma categoria especial no Bugzilla?”

Isso fez com que Aaron J. Seigo soltasse o verbo contra as reclamações dos usuários:

[…] tem havido um certo nível de intimidação por aqui; alguns indivíduos (embora seu número diminua a cada nova versão) acham que GRITANDO BEM ALTO E NOS INCOMODANDO BASTANTE conseguirão nos fazer ceder, arruinar nosso design, desistir daquilo que estamos tentando fazer e dar a eles aquilo com que eles estão acostumados, em prejuízo de todos os outros usuários.

[…] mas eu não vou voltar atrás em várias decisões de design e jogar fora todos os frutos que estamos colhendo graças a elas. eu me recuso a aderir à metodologia de design “reagir-automaticamente-a_qualquer_choramingo-do-usuário”

Seigo também mencionou que a lista do openSUSE “nem sequer menciona os recursos ausentes que seriam realmente úteis”, e que ao postar um comentário na lista “foi recebido a gritos por duas pessoas, sem que houvesse motivo algum para isso”. A frustração é óbvia em seu post, e ele observa que sua resposta pode não ser bem a que Garcia esperava, mas que ele queria deixar claro que as opções em uso no momento não funcionavam:

Eu sou totalmente favorável a um sistema adequado para a solicitação de recursos. O Bugzilla não serve para isso, nem um wiki, nem emails aleatórios e nem um blog. O FATE, usado pelo opensuse, chega bem perto (e tem até um cliente para o KDE). Qualquer dia eu vou acabar dizendo “esqueçam o bugs.kde.org para colher solicitações” e pedindo a alguém que configure uma instalação do FATE no plasma. Aí vamos poder aderir a um fluxo de trabalho adequado para a solicitação de recursos.

Segundo Anne Wilson, os usuários aos quais Seigo está se referindo são apenas uma “minoria *muito* barulhenta” que “deve apenas ser ignorada”. Ela está preocupada com os usuários que estão tentando fazer a diferença com seus relatos de bugs e solicitações de recursos, mas que acabam sendo tratados como se fossem parte dessa minoria barulhenta. Ela discorda da sugestão de Seigo de que os usuários deveriam escrever ou pagar pelo código, ou apenas ser pacientes:

Isso é irreal e nada gentil. Sem relatos de bugs e solicitações, como vamos saber quais recursos são os mais importantes para as pessoas? Uma resposta gentil do tipo ‘esse recurso virá, mas ainda não chegou a hora’ não é pedir muito, mas é mais do que suficiente na maioria das vezes.

Mas Seigo encara as coisas de maneira diferente. Para ele, essa minoria barulhenta contribui para que os projetos do KDE “não deem muita atenção às solicitações de recursos realizadas no bugs.kde.org”. Mais uma vez, ele põe a culpa na comunidade de usuários:

a comunidade de usuários que interage com projetos de software livre como o KDE precisa começar a entender como isso tudo funciona, e a assumir a responsabilidade por seus atos. como desenvolvedores, espera-se que sejamos modelos de bom comportamento, mas o que há entre nós é uma cooperação. o problema é que a comunidade de usuários geralmente não compartilha de uma ética e de um grupo de valores diante desses assuntos.

Houve alguma discussão sobre a mudança de várias tags de bugs, particularmente da WONTFIX (indicando que o problema não será resolvido), já que ela costuma ser mal-interpretada, na tentativa de amenizar o problema. É pouco provável que isso vá acalmar os usuários mais barulhentos. Tentar garantir haja algum tipo de explicação para os recursos e bugs fechados como WONTFIX provavelmente vai diminuir, mas não eliminar, o problema. Andreas Pakulat destaca que o problema é social: “as pessoas estão acostumadas a poder gritar, resmungar e encher a paciência na internet sem ter que assumir a responsabilidade pelos danos que isso possa provocar.”

Uma ideia que parece estar ganhando força é a de usar o KDE Brainstorm, que foi sugerido por Stefan Majewsky como um local para a coleta de recursos. Além de algumas questões relativas à usabilidade que aparentemente podem ser resolvidas com relativa facilidade, o Brainstorm oferece uma maneira de discutir novos recursos (ou aqueles do KDE3 que faltam no KDE4), permitindo que os usuários votem nos que julgam mais importantes. Seigo acha que isso já é um começo:

[…] são necessárias melhorias no fluxo de trabalho, mas pelo menos o sistema é colaborativo, positivo, fácil de usar e tem um bom visual. temos que melhorar coisas como o brainstorm e arranjar mais sistemas como ele.

Mas o problema vai além do fluxo de trabalho. A julgar pelos posts nessa discussão, alguns desenvolvedores do KDE estão achando difícil trabalhar com a comunidade de usuários, em grande parte por causa do comportamento de alguns integrantes dela. Parker Coates não está convencido de que um processo apoiado em uma ferramenta vá eliminar o problema:

[…] Mesmo se desenvolvermos uma vasta gama de ferramentas que encorajem contribuições positivas, respeito ao próximo, paz mundial, espírito de comunidade e tudo mais, ainda vamos ter que lidar com trolls tacando ovos em nosso trabalho com negatividade e falta de visão. Na cultura contemporânea da internet, não vejo como evitar esse problema, e não podemos culpar a comunidade por isso. É claro que cada indivíduo na comunidade é responsável por como lidar com essas pessoas, e talvez devêssemos concentrar nossos esforços nisso

Por causa da reação estrondosa e predominantemente negativa ao KDE4 há mais de um ano e meio, ainda há muita frustração dentro do projeto, tanto em relação aos usuários quanto em relação aos desenvolvedores. Embora existam alguns pontos importantes nas mensagens dos desenvolvedores, o tom usado pode levar a crer que suas acusações destinam-se a todos os usuários, e obviamente a intenção não é essa.

Esse problema não se restringe ao KDE, e outros projetos já tiveram ou irão ter problemas desse tipo. Há um equilíbrio delicado entre ignorar a “minoria barulhenta” e ignorar toda a comunidade de usuários. Tomar o segundo rumo poderia fazer com que um projeto perdesse facilmente a noção das necessidades de seus usuários, ao ponto desses usuários acabarem se mandando. Esse é um resultado que ambos os lados querem (e devem) evitar. Encontrar maneiras melhores de lidar com as solicitações de recursos e evitar os conflitos com os poucos usuários menos civilizados é um bom começo.

Créditos a Jake Edgelwn.net
Tradução por Roberto Bechtlufft <info at bechtranslations.com.br>

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