Hugin: nova versão não faz só panoramas

Hugin: nova versão não faz só panoramas
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New Hugin release does more than just panoramas

Autor original: Nathan Willis

Publicado originalmente no: lwn.net

Tradução: Roberto Bechtlufft

O Hugin, ferramenta de código livre que monta panoramas com fotos, lançou a segunda versão do ano no início do mês. Dentre os pontos de destaque estão novos recursos de visualização, mais automação para partes complicadas do processo de alinhamento de imagens e dois novos e importantes modos que continuam a dar ao Hugin funcionalidades que o fazem ir além do rótulo de “criador de panoramas”.

Há algum tempo, o projeto Hugin adotou um sistema híbrido de numeração de versões, misturando as datas de lançamento e a numeração tradicional; portanto, a versão recém-lançada foi designada Hugin 2010.2.0, ou seja, é a segunda versão estável de 2010, e não a versão de fevereiro de 2010, por exemplo. Os pacotes de código fonte e os binários para Mac OS X e Windows podem ser baixados diretamente pelo site do projeto. Os usuários do Linux podem consultar as instruções de compilação de sua distribuição na página de downloads, ou procurar pacotes compilados por terceiros. Há snapshots sendo liberados regularmente e builds diários para o Fedora e o Ubuntu.

Instalação e configuração

O Hugin depende de diversas ferramentas externas para realizar as tarefas básicas de remapear, montar, mesclar e fundir exposições de fotografias. Dentre as dependências estão a biblioteca PanoTools (esta versão do Hugin abandona a libpano12 em prol da libpano13), o Enblend, o Enfuse e várias bibliotecas do OpenGL (freeglut, libGLU e GLEW). Os usuários que compilarem o código fonte vão precisar também da versão 2.7.0 ou mais recente do kit de ferramentas wxWidgets.

Um problema constante do projeto é a falta de ferramentas que não sejam cobertas por patentes para localizar e marcar automaticamente “pontos de controle” – características compartilhadas por imagens vizinhas em um panorama, que o Hugin usa para calcular as transformações nas regiões sobrepostas. Isso é particularmente importante para distribuições comunitárias como o Fedora, cujas regras proíbem pacotes de software cobertos por patentes. O gerador de pontos de controle padrão é o Autopano-SIFT, coberto por patentes. Para distribuições que não têm o Autopano-SIFT, ele e outras opções podem ser instaladas manualmente, ou o próprio usuário pode marcar os pontos de controle.

Pontos de controle no Hugin

Testei o Hugin 2010.2.0 no Ubuntu usando o repositório Hugin PPA. No Ubuntu, uma atualização completa inclui não só os pacotes hugin, hugin-tools e hugin-data, mas também o pacote da biblioteca libpano13, sem a qual o Hugin instala mas não abre. Também é importante falar do Autopano-sift-C, uma reescrita em C do utilitário Autopano-SIFT, originalmente em C#. O pacote autopano-sift-c afirma ser um substituto ao autopano-sift, mas sua instalação não atualiza as preferências do Hugin para que ele aponte para os binários atualizados. É preciso ir em “Arquivo -> Preferências -> Detectores de Pontos de Controle” e selecionar o novo pacote; do contrário, o assistente automatizado de panorama irá falhar ao ser executado.

O Hugin tem uma interface com abas separadas para cada etapa do típico fluxo de trabalho de criação de panoramas: reorganização de imagens componentes, atribuição de pontos de controle, cálculo das configurações “ideais” para remapeamento de imagens e montagem do resultado no formato desejado, seja uma imagem única combinada, um conjunto de TIFFs ou qualquer etapa intermediária. Há uma aba “Assistente” que automatiza o processo básico de criação de panoramas, mas para fazer ajustes mais detalhados é preciso investigar as abas individuais. O mesmo vale quando o Hugin é usado para outros fins, como para correção de perspectiva.

Melhorias

A mudança mais perceptível para os usuários é a melhoria na janela de visualização de panorama rápido. Ela usa OpenGL para renderizar uma pequena prévia do projeto de panorama atual. Mas além de agir como ferramenta de visualização, essa janela agora pode ser usada para posicionar, centralizar, girar e cortar a imagem final. Arrastando e soltando com o clique esquerdo, o usuário pode reposicionar o panorama; com o clique direito, pode girar o panorama em torno da origem. Dá até para fazer ajustes em imagens individuais nessa janela; basta desmarcar todas as imagens, exceto a que você quiser alterar, em uma lista na barra de ferramentas.

Janela de pré-visualização do Hugin

A janela de visualização também inclui uma aba “Layout”, que exibe miniaturas de imagens em um gráfico, com bordas coloridas conectando imagens que se sobrepõem. As linhas cinza indicam imagens sobrepostas sem pontos de controle atribuídos, e as linhas em verde, amarelo e vermelho indicam imagens com correspondências de pontos de controle boas, medianas e ruins, respectivamente. Com um único clique nos botões da barra de ferramentas, você pode centralizar, ajustar para as dimensões da janela e esticar o panorama.

Somadas, todas essas mudanças tornam a janela de visualização rápida uma ferramenta útil para correção em larga escala em um projeto de panorama. Sem elas, o usuário está à mercê dos números “crus” gerados pelas rotinas de otimização e pontos de controle do Hugin. Você ainda pode examinar os números diretamente, mas é preciso ter muita experiência para extrair algum sentido real deles quando a saída final do Hugin for muito distorcida ou inesperada.

Além do mais, fazendo o alinhamento básico de imagens pela janela de visualização primeiro (antes de executar o gerador de pontos de controle), você poupa tempo, pois o Hugin só tentará encontrar pontos de controle entre imagens que se sobreponham na visualização. Esse comportamento pode ser configurado nas preferências do Hugin.

O programa também tem suporte a uma ampla variedade de lentes para suas rotinas de correção de perspectiva e distorção. Além do suporte a lentes olho de peixe que já estava presente na versão anterior, também há correções para lentes ortográficas, estereográficas e equi-sólidas.

Novos recursos

Os desenvolvedores do Hugin incluíram recursos totalmente novos e não panorâmicos no aplicativo em versões anteriores, como a capacidade de remapear uma fotografia para uma projeção arquitetônica, corrigir a distorção de perspectiva em fotos comuns, remover aberração cromática e calibrar lentes. Duas novidades da versão 2010.2.0 são o bracketing vinculado e o montador de mosaico.

O bracketing vinculado tem como base a funcionalidade de fusão de exposição, com a qual o programador pode combinar um intervalo de exposições em uma imagem HDR (no estilo do que o Luminance HDR faz). Em versões anteriores, o Hugin tinha que usar pontos de controle e alinhar as imagens antes de tentar fazer a fusão de exposição. Com o bracketing vinculado, o usuário só precisa selecionar as imagens na guia “Imagens” do Hugin, clicar em “Nova pilha” e seguir para a etapa de saída final. É óbvio que as imagens selecionadas precisam ser alinhadas na câmera (usando um tripé, por exemplo), mas para quem usa o Hugin por causa da fusão de exposição, isso poupa um tempo enorme.

Ainda que o bracketing vinculado possa ser usado em fluxos de trabalho panorâmicos, a montagem de mosaicos representa uma técnica completamente nova. Em um panorama, a câmera fica no mesmo lugar, e gira para capturar visões diferentes da cena em 360 graus. A montagem de mosaicos cuida da situação inversa, quando o que está sendo fotografado permanece imóvel, mas você move a câmera para bater a foto.

O exemplo canônico é a fotografia de um piso ou muro de grandes dimensões: o alvo da fotografia é plano, porém grande demais para ser capturado em um quadro. Para montar um mosaico como esse no Hugin, o fotógrafo importa as imagens separadas, mas as ajusta usando o modo “Mosaico” na guia “Mover/Arrastar” da janela de visualização rápida. Isso permite mover a imagem sem recalcular sua posição em 3D, como seria necessário em fotos panorâmicas.

Outra função nova da versão 2010.2.0 é o suporte a máscaras. Na guia “Máscaras”, desenhe uma máscara poligonal em torno dos objetos em qualquer imagem que queria excluir da saída final da montagem. Ao fazer a montagem, o Hugin usa amostras das outras imagens sobrepostas. O recurso pode ser usado para retirar pessoas passando na hora da foto, mas como explica o tutorial do site, também pode remover objetos de cenas usadas na montagem de mosaico.

Mascaramento do Hugin

Sobre as mudanças

Esta versão incorpora o trabalho iniciado em vários projetos do Google Summer of Code, e representa uma boa mescla de novos recursos, melhorias nas funcionalidades existentes e refinamentos na interface de usuário. Eu usei o Hugin por anos, mas esta foi a primeira vez em que fiquei satisfeito com os pontos de controle selecionados automaticamente pelo “assistente” de panorama.

As novas ferramentas de visualização e arranjo de imagens na janela de visualização rápida de panorama em OpenGL facilitam muito o uso do aplicativo. Na verdade, a janela de visualização rápida inclui tantas ferramentas novas que merece ser “promovida”. Ela continua na barra de ferramentas, junto à janela de visualização de panorama que não usa OpenGL (que, em comparação, agora deveria se chamar “janela de visualização lenta”).

O maior ponto fraco do Hugin provavelmente é a forma como suas ferramentas estão dispostas. Como eu já comentei, o Hugin pode realizar uma meia dúzia de tarefas de correção, mas a montagem de panoramas foi a única a receber um “assistente” passo a passo. A montagem de mosaicos pode passar despercebida por quem não ler o tutorial no site do projeto regularmente, e as ferramentas individuais necessárias para calibrar as lentes também estão escondidas, espalhadas entre as abas e janelas do aplicativo. A configuração que controla a capacidade do Hugin de ignorar a geração de pontos de controle para imagens que não se sobrepõem está escondida a três janelas de profundidade, e precisa ser definida individualmente para cada gerador de pontos de controle.

Um efeito colateral da interface com abas do Hugin é que, mesmo para tarefas simples, geralmente é necessário alternar várias vezes entre as abas, mexendo nos parâmetros de cada uma. Para o usuário inexperiente, é difícil entender que as alterações feitas em uma aba afetam o conteúdo das outras. O fotógrafo de panoramas Yuval Levy, por exemplo, tem um tutorial detalhado em seu site sobre o fluxo de trabalho da nova montagem de mosaico. Eu contei pelo menos seis idas à aba “Otimizador”; talvez mais, dependendo da quantidade de imagens.

Talvez a interface gráfica do Hugin seja um pouco limitada por depender de várias ferramentas isoladas, mas a melhoria do assistente de panorama mostra que dá para juntar tudo de modo acessível até aos novatos. Espero que no futuro o projeto apresente suas funcionalidades que não estão relacionadas a panoramas da mesma maneira.

Outra área que precisa de uma turbinada no Hugin é no diagnóstico de problemas. É comum tentar “otimizar” um panorama e topar com uma caixa de diálogo avisando que coeficientes de distorção “muito altos” foram encontrados. Quando isso acontece, as únicas opções são prosseguir com a otimização ou revertê-la. Se existe uma lógica que permite ao Hugin “saber” que os coeficientes são ruins, ajudar o usuário a localizar a fonte do problema e corrigi-la não deve ser tão complicado. Embora o “assistente” cumpra bem seu papel de conduzir o usuário ao longo de um projeto bem-sucedido, é igualmente importante conduzir o usuário ao longo da solução de problemas.

Apesar disso, ninguém que use as habilidades mágicas de manipulação de imagens do Hugin deve deixar passar a versão 2010.2.0. As ferramentas de visualização rápida de panorama permitem ajustes muito mais rápidos do que os que podem ser realizados nas abas “Otimizador”, “Exposição” e “Montagem”. Os builds mais recentes permitem o uso da GPU para alguns cálculos, uma novidade irresistível para quem fica esperando um tempão até que uma longa rotina de otimização ou montagem seja concluída. Embora o Hugin tenha travado uma ou duas vezes enquanto eu realizava tarefas de montagem de panoramas grandes, com várias imagens, ele se mostrou muito mais estável do que a versão 2009, que eu tinha usado antes. É preciso investir algum tempo no programa para fazer trabalhos de qualidade, mas isso já é rotina no trabalho de um fotógrafo.

Créditos a Nathan Willislwn.net

Tradução por Roberto Bechtlufft <info at bechtranslations.com.br>

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