Entendendo o Google Android

Por: Julio Cesar Bessa Monqueiro
Entendendo o Google Android
Este artigo está desatualizado e continua disponível apenas para referências históricas. Você pode encontrar informações mais atualizadas sobre o Android no livro smartphones, Guia Prático, que está disponível para leitura online:

https://www.hardware.com.br/livros/smartphones/android.html

A menos que você tenha passado os últimos meses escondido dentro de um iglu na Antártida, você já deve ter ouvido falar no Android, o sistema operacional para celulares que está sendo desenvolvido pelo Google. Você pode ver alguns vídeos de apresentação no http://www.youtube.com/user/androiddevelopers e acompanhar as novidades sobre a plataforma no http://androidcommunity.com/:

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Atualmente, as três principais plataformas para celulares e smartphones são o Symbian, que deu origem ao S60, desenvolvido pela Nokia (e encontrado também em aparelhos da LG, Samsung e alguns outros fabricantes) e também ao UIQ, encontrado em aparelhos da Sony-Ericsson e da Motorola; o Windows Mobile, que é encontrado em muitos smartphones e o PalmOS.

Dos três, o Symbian é possivelmente o mais bem-sucedido, devido ao enorme volume de aparelhos onde ele é usado. O Symbian é o sucessor do Epoc, o sistema operacional usado nos antigos Psion (leia um pouco sobre eles no https://www.hardware.com.br/artigos/psion-historia/), que ganhou vida própria depois que a Psion faliu:

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O ponto forte é o fato de ele ser um sistema multitarefa, desenvolvido para ser usado em aparelhos com poucos recursos, aproveitando ao máximo os recursos oferecidos pelo hardware. Para você ter uma idéia, o Psion 5, o principal aparelho onde o Epoc foi utilizado, utilizava um processador de apenas 36 MHz, que tinha um desempenho mais de 10 vezes inferior ao dos processadores ARM usados nos aparelhos atuais e, mesmo assim, era capaz de rodar aplicativos sofisticados, incluindo um navegador completo:

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Em seguida temos o Windows Mobile é o preferido por muitos devido à certa similaridade com as versões do Windows para desktops e devido à integração com o Outlook e outros aplicativos da Microsoft. Ele é mais pesado e por isso restrito aos aparelhos com mais poder de processamento, mas mesmo assim é usado em um número surpreendentemente grande de aparelhos e conta com uma boa coleção de softwares. Ele é, por enquanto, o único sistema mobile que já conta com uma versão do Skype, por exemplo.

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O PalmOS é o menor e mais desatualizado dos três e tende a desaparecer com o tempo, engolido pelos concorrentes e pela própria incapacidade da Palm em manter o desenvolvimento do sistema. Hoje em dia ele ainda é utilizável, devido ao bom volume de aplicativos para ele e novos aparelhos continuam sendo lançados, como o Palm Centro, mas o desenvolvimento de novos aplicativos está estagnado já a vários anos e a plataforma deve ser finalmente descontinuada daqui a mais um ano ou dois, talvez substituía pelo Palm Access (o sucessor, baseado em Linux), ou talvez pela própria falência da Palm. Depois de acompanhar a ascensão e queda da plataforma e extrair até a última gota de recursos do meu antigo Treo 650, a melhor dica que posso dar com relação ao sistema é: fique longe 🙂

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Além dos três sistemas “principais”, temos uma série de sistemas menores, destinados aos aparelhos com menos recursos. Esta grande variedade de sistemas proprietários e incompatíveis entre si tem atrasado bastante o desenvolvimento dos smartphones de uma forma geral, estagnando sobretudo o desenvolvimento de aplicativos. Hoje em dia, a principal área de desenvolvimento para dispositivos móveis são os jogos em Java, o que é triste se considerarmos o potencial dos aparelhos atuais, que combinam processadores rápidos com conexões via EDGE ou 3G à Internet.

O Android é a resposta do Google para o problema. Ele é um sistema operacional open-source (http://code.google.com/android/), que pode vir a se tornar a plataforma dominante entre os smartphones ao longo dos próximos anos.

O Android tem tudo para conquistar espaço rapidamente, pois agrada a 4 públicos diferentes, que possuem interesses muitas vezes antagônicos: os fabricantes de celulares, os desenvolvedores, os fabricantes de chips (incluindo a Intel) e tem tudo para agradar também os consumidores.

Agrada os fabricantes pois é um sistema open-source, bem construído e que poderá ser usado sem custo nos aparelhos, ao contrário de sistemas como o Symbian e o Windows Mobile, usados atualmente. Agrada os desenvolvedores pois tem uma SDK aberta, que permite desenvolver aplicativos facilmente, diferente de plataformas fechadas, como o iPhone. Você mesmo pode baixar o SDK no http://code.google.com/android/download.html e começar a estudar o sistema:

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O Android agrada também aos fabricantes de chips, pois adiciona novos recursos aos celulares, o que aumentará a procura por processadores mais rápidos, impulsionando o desenvolvimento e a venda de novos produtos (a Intel está particularmente interessada nas perspectivas para o Intel Atom). Como o sistema é open-source, existe a possibilidade de portá-lo para diferentes plataformas conforme necessário, assim como no caso do Linux, que roda tanto em micros PC, quanto em clusters de servidores e em smartphones.

A combinação de tudo isso tem tudo para dar origem a aparelhos melhores e possivelmente também mais baratos que os atuais (devido à economia de escala), o que naturalmente tende a agradar a nós consumidores.

O Google tem investido pesado no desenvolvimento do Android, não apenas montando uma boa equipe de desenvolvimento e investindo em contatos com fabricantes e na divulgação do sistema, mas também oferecendo US$ 10 milhões em prêmios para os desenvolvedores que desenvolverem os aplicativos mais originais para a plataforma (http://code.google.com/android/adc.html).

Você pode se perguntar o que o Google ganha investindo no desenvolvimento de um sistema operacional open-source para celulares apenas para distribuí-lo de graça depois. A resposta é que os aparelhos móveis são uma área bastante estratégica para o Google, pois permitirá levar seus produtos, como o Gmail, Google Maps, Google Docs, sem falar na própria pesquisa aos celulares, atingindo um público muito maior.

Talvez você ainda esteja coçando a cabeça, já que todos estes aplicativos são gratuitos, de forma que o Google não receberia nada pelo uso deles nos celulares. É aí que você se engana. O mercado de publicidade na web está crescendo rapidamente, superando mídias tradicionais, como a televisão, jornais e as revistas impressas e o Google é a maior força dentro do ramo de publicidade online, devido à incrível penetração do Adsense e de outros produtos, que são a principal fonte de renda do Google. Conquistando os celulares, o Google conquista mais um novo grande mercado para seus anúncios.

É provável que a primeira geração de aparelhos baseados no Android (que devem chegar ao mercado entre o final deste ano e o início do ano que vem) ainda possuam arestas a aparar, ou sejam simplesmente caros demais, devido ao fator novidade, mas com o tempo a plataforma tende a se estabelecer e passar a ser usada por vários fabricantes.

O que nem todo mundo percebeu, é que muitos dos componentes chave do Android já estão disponíveis e podem ser usados na maioria dos aparelhos atuais, hoje mesmo, incluindo o Gmail, o Google Maps, Google Docs e outros. Eles não rodam tão bem nos aparelhos atuais quanto rodarão em um smartphone com conexão 3G, que rode o Android nativamente, mas já são uma boa amostra do que está por vir.

A idéia central é que os celulares atuais possuem conexões contínuas com a web, via GPRS, EDGE ou mesmo conexões 3G. Hoje em dia, estas conexões são usadas apenas para tarefas simples, como navegação básica e envio de mensagens curtas, mas os aplicativos do Google permitem estender isso.

Vamos a um pequeno teste usando um Nokia E62. Ele é um modelo já relativamente antigo, que embora conte com um bom conjunto de recursos e um teclado QWERT completo, possui um processador TI OMAP de 235 MHz, lento para os padrões atuais. Ele é baseado na plataforma S60, a mesma usada em outros celulares da Nokia:

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O killerapp é o Gmail Mobile, um aplicativo em Java, que você pode instalar acessando o http://www.gmail.com/app através do próprio telefone. Ele utiliza um conjunto de técnicas de cache e prefetch para baixar os dados em “blocos”, sem depender da conexão para cada operação. Isso faz com que o aplicativo seja surpreendentemente responsível mesmo em uma conexão via GPRS:

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A grande vantagem do Gmail Mobile é a integração. Em vez de precisar baixar os e-mails via pop, ou de precisar sincronizá-los com os e-mails do desktop, você acessa sua caixa de e-mails em tempo real e todas as operações são automaticamente sincronizadas com o Gmail que você acessa via navegador no desktop. Você pode fazer um teste acessando a mesma conta simultaneamente no desktop e no celular. Você vai ver que as operações feitas em um aparecem também no outro conforme você dá refresh no navegador.

Você pode configurar o Gmail para baixar os e-mails das suas outras contas de e-mail (a opção está escondida nas configurações), o que permite que você concentre todos os e-mails em uma única caixa postal e tenha acesso completo a eles de onde estiver.

Temos em seguida o Google Maps, outro aplicativo de destaque. Ele também pode ser instalado diretamente no aparelho, através do http://www.google.com/gmm

O Google Maps possui duas versões. A primeira é a versão genérica, em Java, que roda em qualquer aparelho com suporte à linguagem. Ela permite que você tenha acesso básico ao serviço, mas é mais limitada e mais lenta. Se você usa um aparelho com o Symbian ou o Windows Mobile, tem acesso a uma versão nativa (ao acessar o http://www.google.com/gmm, o script da página automaticamente redireciona para o download da versão correta) com mais recursos e que roda com um desempenho muito melhor. Esta versão é muito similar à que está disponível no iPhone:

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Temos também o portal genérico do Google Apps, disponível através do https://www.google.com/mobile/, ele é basicamente uma lista de links para os serviços disponíveis:

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Um recurso interessante é a barra de pesquisa, que está disponível como um aplicativo nativo para os telefones baseados no S60 (como o E62) e no Windows Mobile. Ao instalar a barra, tenho acesso a um pop-up com a busca do Google pressionando a tecla Ctrl na tela inicial do sistema, sem precisar primeiro abrir o navegador. É uma melhoria simples, mas que acabou se revelando incrivelmente útil no meu caso, por facilitar o uso de pesquisas rápidas:

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Você deve ter notado a presença de links para o Google Docs e para o YouTube no https://www.google.com/mobile/. O Google Docs talvez seja o próximo na lista de aplicativos nativos, mas por enquanto ele ainda está incipiente, permitindo apenas exibir os documentos em html de forma limitada, através do próprio navegador. O YouTube entretanto já funciona perfeitamente em diversos modelos de aparelhos que contam com players de mídia nativos (incluindo o E62 do teste). Acessando via EDGE ou 3G, os vídeos funcionam surpreendentemente bem:

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Como você pode ver, estes aplicativos tem um bom potencial, mesmo em um aparelho relativamente limitado, como o E62. Não é difícil imaginar as mudanças que versões atualizadas destes aplicativos, combinadas com outros recursos oferecidos pelo Android, rodando sobre aparelhos atualizados e com conexões 3G podem trazer.

Um dos principais problemas em utilizar estes recursos hoje é a questão do uso de banda, já que a maioria dos planos ainda são baseadas na ultrapassada idéia de cobrança por MB transferido. Mesmo nos planos de 200 ou 500 minutos, normalmente não são incluídos mais do que 50 ou 100 MB de tráfego de dados.

Uma dica é que você pode assinar um dos planos de acesso web, usando o smartphone apenas para dados e comprando um segundo celular, mais simples e barato “só pra falar”. Na Claro você pode assinar o Claro 3G de 256 kbits, que custa apenas R$ 49 por mês, com tráfego ilimitado e na TIM existem os diversos planos do Tim Web, por de R$ 29 (plano de 250 MB) a R$ 99 (ilimitado).

A maioria dos smartphones atuais suportam apenas acesso via GPRS e/ou EDGE, de forma que, enquanto você não comprar um aparelho com suporte a 3G, não faz sentido pagar mais para ter mais velocidade, já que de qualquer forma você vai ficar limitado aos pouco mais de 200 kbits oferecidos pelo EDGE.

O uso do plano de dados no smartphone é especialmente interessante se você já tem um mini-modem e um chip de dados para acessar quando está em transito, pois você pode simplesmente deixar o chip de dados instalado no celular, para uso no dia-a-dia e colocá-lo no mini-modem apenas quando for acessar a web usando o notebook.

Embora carregar três aparelhos separados (o smartphone, o celular “só pra falar” e o mini-modem) esteja longe do ideal em termos de mobilidade, esta acaba sendo a melhor solução em termos de custo-benefício dentro dos planos atuais. Fora os aparelhos, o custo mensal acaba sendo baixo, já que você pagaria apenas os R$ 49 ou R$ 29 do plano de dados e mais os minutos falados no telefone:

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Aqui a mais um ano, provavelmente poderemos substituir toda essa parafernália por um único aparelho baseado no Android que execute bem as três funções. Até lá também teremos planos mais flexíveis, que combinem tráfego de dados ilimitado (ou pelo menos com quotas mais generosas) e voz a preços acessíveis.

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