GNOME 3.0 em clima de apreensão

GNOME 3.0 worries
Autor original: Jonathan Corbet
Publicado originalmente no:
http://lwn.net/
Tradução: Roberto Bechtlufft

O clima em algumas listas de discussão do GNOME semanas antes da recém-concluída conferência GUADEC andava um tanto sombrio; alguns membros da comunidade tinham a nítida sensação de que o desenvolvimento do GNOME estava diminuindo o ritmo, que o projeto não tinha visão e que o GNOME corria o risco de perder a relevância para os usuários. Em seguida, o GNOME emergiu da GUADEC com uma nova diretora-executiva, planos para a versão 3.0 e cheio de gás. É incrível o que uma semana em uma cidade exótica com barris e mais barris de cerveja é capaz de fazer. Mas de lá para cá a empolgação diminuiu um pouco, e parece que o trabalho de desenvolvimento do comunicado à imprensa sobre a versão 3.0 parou. Agora o GNOME tem que tomar algumas decisões difíceis, e não se sabe ao certo que rumo o projeto vai tomar.

A força motriz do GNOME 3.0 parece ser o plano dos desenvolvedores do GTK+ de mudar para uma nova ABI (interface binária de aplicação) sem a preocupação de manter a compatibilidade com versões anteriores. Anos e anos de estabilidade na ABI fizeram o GTK+ acumular uma pesada bagagem de compatibilidade que os desenvolvedores gostariam de abandonar; além disso, já existem planos para grandes mudanças, que seriam difíceis de implementar sem que a compatibilidade fosse afetada. Por isso os desenvolvedores do GTK+ gostariam de começar do zero com a versão 3.0. Há muitos planos em curso para que a transição não seja complicada. Dentre outras coisas, haverá o cuidado de fazer com que o GTK+ 3.0 coexista pacificamente com instalações mais antigas. Mas no fim das contas, é uma mudança para uma ABI incompatível.

No momento, as objeções mais enfáticas parecem vir de Miguel de Icaza. Ele teme que uma nova versão do GTK+ deixe os fabricantes independentes de sistemas para trás e que leve a uma quebradeira generalizada na ABI. Icaza achou particularmente ruim a idéia de mudar a ABI para o lançamento do GTK+ 3.0 primeiro para só depois adicionar os novos recursos (que, como boa parte dos planos para o GNOME 3.0, ainda são um mistério). Para ele, os novos recursos é que devem guiar todo o processo. E se for possível, esses recursos devem ser adicionados de modo a não exigir uma mudança na ABI.

Parece que os desenvolvedores do GTK+ estão dispostos a realizar as mudanças, logo, podemos esperar que a idéia vá adiante. Mas as mudanças no GTK+ não implicam mudanças no GNOME; não há necessidade de uma nova versão do GNOME só porque uma importante biblioteca que ele usa foi atualizada. Qualquer um que tenha dado uma olhada nos links de um aplicativo do GNOME sabe que o GNOME usa muitas bibliotecas. Elas não podem, sozinhas, ser responsáveis por novas versões do GNOME. Então, você me pergunta, o que há de especial que justifique uma versão 3.0?

Pode-se dizer que quem propôs a questão de maneira mais eloqüente foi Luis Villa, que descreveu o GNOME 3.0 como uma “idéia horrorosa”. Para Luis, a mudança na ABI não justifica uma nova versão do GNOME; seria necessária uma nova e fundamental visão de uma maneira melhor de se fazer as coisas. Segundo ele, essa visão ainda não apareceu. Essa situação não é novidade na comunidade do GNOME:

a versão 2.0 quase falhou exatamente por isso: antes que houvesse uma visão clara sobre o caminho de usabilidade e simplicidade que orientaria o desenvolvimento da versão 2.0, a nova versão era uma espécie de “insira aqui sua $VISAO”, levando a todo tipo de problema.

Uma versão 3.0 que não venha acompanhada de uma visão clara e articulada vai levar ao mesmo tipo de encrenca, além de desperdiçar uma rara oportunidade de relações públicas que acompanham o lançamento de uma nova versão.

Finalmente, do ponto de vista da mídia: o motivo para o sucesso do GNOME 2.0 na mídia especializada e para fracasso do KDE 4.0 (até o momento) é o fato do GNOME 2.0 ter um foco claro e persuasivo: simplicidade e usabilidade. A mídia não teria dado a mínima para o fato de termos um novo toolkit se não tivéssemos recursos específicos (especialmente os recursos de internacionalização) que trouxessem benefícios aos usuários. A mídia comprou nosso papo de usabilidade. Era algo que eles podiam passar aos leitores, e que fazia sentido para eles. O KDE 4 não tem um histórico coerente de foco no usuário, e essa incrível oportunidade de conseguir apoio da mídia foi desperdiçada.

Com certeza, há muitas idéias interessantes na comunidade do GNOME. O desktop online, o GNOME com foco em documentos e as iniciativas em dispositivos móveis são exemplos disso. Mas a verdade é que, até agora, ninguém desenvolveu um conceito abrangente o suficiente para o GNOME 3.0 a ponto de unificar e direcionar todo o trabalho e que seja, ao mesmo tempo, conciso o suficiente para caber em um adesivo. Há boas chances de que a maior parte dos desenvolvedores do GNOME não saibam o que o GNOME 3.0 significa. Os que não fazem parte da comunidade de desenvolvimento devem saber menos ainda.

É bom que os colaboradores do projeto GNOME não se esqueçam do que aconteceu com o KDE 4.0 quando pensarem numa possível versão 3.0. Os futuros usuários do KDE podem ver o KDE 4.0 como o momento em que seu desktop começou a se tornar bom de verdade, mas por enquanto, parece que a comunidade de desenvolvimento do KDE não está se divertindo muito. É de se imaginar que os desenvolvedores do GNOME não vão querer passar por experiência parecida.

Já faz um bom tempo que o GNOME 2.x está na praça. Pode ser que tenha mesmo chegado a hora de dar um passo adiante. Seria gratificante ver uma nova direção e um novo fluxo de energia na comunidade de desenvolvimento do GNOME. Se o projeto estabelecer metas que inspirem a comunidade rumo a um objetivo comum, o GNOME 3.0 pode ser um sucesso espetacular. Mas esses objetivos, se é que existem, ainda não foram comunicados à comunidade, e isso está deixando alguns desenvolvedores do GNOME tensos.

Créditos a Jonathan Corbethttp://lwn.net/
Tradução por Roberto Bechtlufft <robertobech at gmail.com>

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