gNewSense – o Ubuntu livre

gNewSense – o Ubuntu livre

Enter gNewSense – the free Ubuntu
Autor original: Benedikt Ahrens
Publicado originalmente no:
freesoftwaremagazine.com
Tradução: Roberto Bechtlufft

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O projeto gNewSense tem o objetivo de criar uma distribuição GNU/Linux que tenha como prioridade principal a liberdade do usuário – ainda que isso limite seu conforto e o suporte a hardware. O sistema operacional Ubuntu é usado como ponto de partida.

Sobre o Debian e o Ubuntu

Um Ubuntu livre? O Ubuntu já não é livre? Não, o Ubuntu não é livre. Ao menos de acordo com as diretrizes da FSF (Free Software Foundation) que definem se um sistema operacional é ou não livre, e que podem ser encontradas aqui – e o mesmo vale para o Debian, que forma a base do Ubuntu. O objetivo dessas distribuições é dar suporte à maior quantidade possível de hardware, para que o usuário passe por uma instalação fácil e confortável – afinal, o objetivo dessas distribuições é conquistar uma fatia do mercado. Por vezes, os princípios do software livre são negligenciados no processo. Essa atitude menos rígida com relação à liberdade também pode ser encontrada em todas as áreas da produção de software, do kernel do Linux à distribuição de software pelo Debian e pelo Ubuntu (observação: cabe ao leitor deduzir se as afirmações feitas aqui também se aplicam a outras distribuições como o SUSE, por exemplo; aqui o autor trata exclusivamente do Debian e do Ubuntu).

O kernel do Linux

A maioria dos componentes de um computador, como as unidades de CD, discos rígidos, placas de rede e afins, exigem um software mantido em um módulo de memória do próprio componente com o objetivo de estabelecer sua comunicação com a placa-mãe. Esse software é conhecido como firmware. Na maioria dos casos, o firmware é instalado de forma permanente no componente. Já em outros casos, principalmente em placas de rede, o firmware é copiado para o componente pelo driver (ou seja, pelo módulo do kernel) quando o módulo é carregado.

Para proporcionar uma experiência mais confortável ao usuário, o firmware de alguns componentes (como por exemplo os firmwares das placas de rede Broadcom que são executados pelo driver “tg3”) vem integrado ao kernel do Linux. Isso parece razoável, já que muitas vezes os componentes não funcionam sem os seus respectivos firmwares. Mas infelizmente a maioria dos firmwares não está de acordo com os critérios do software livre, já que os fabricantes não liberam o código fonte. Vou usar o driver “tg3” como exemplo. Embora o driver seja livre e licenciado pela GPL, ele usa firmware que não é livre. Eis um trecho do código fonte:

/*
* tg3.c: Broadcom Tigon3 ethernet driver.
*
* Copyright (C) 2001, 2002, 2003, 2004 David S. Miller (davem@redhat.com)
* Copyright (C) 2001, 2002, 2003 Jeff Garzik (jgarzik@pobox.com)
* Copyright (C) 2004 Sun Microsystems Inc.
* Copyright (C) 2005-2007 Broadcom Corporation.
*
* Firmware is:
* Derived from proprietary unpublished source code,
* Copyright (C) 2000-2003 Broadcom Corporation.
*
* Permission is hereby granted for the distribution of this firmware
* data in hexadecimal or equivalent format, provided this copyright
* notice is accompanying it.
*/

Ou seja, informações sobre direitos autoriais e anunciando que o firmware é derivado de código fonte proprietário não divulgado. Software derivado de software proprietário não é livre. O módulo tg3 e seu firmware são parte do kernel original.

As distribuições

Com as distribuições lidam com o kernel oficial do Linux? O projeto Debian é baseado em um contrato social que inclui diretivas para o software distribuído pelo Debian. Houve uma votação em 2006 quanto à presença de software não livre no kernel do Linux, e o resultado foi sua aprovação. A ideia central é a de que a usabilidade do software é mais importante do que a conformidade com o contrato social e com a liberdade do usuário.

Mas as distribuições não estão apenas distribuindo software não livre com o kernel do Linux. O pacote “linux-firmware” do Ubuntu é parte da seção “main”, ou seja, da seção que (de acordo com o Ubuntu) supostamente contém apenas software livre. Só que o pacote contém firmware que não é livre.

Outro exemplo: por anos o Debian e o Ubuntu ignoraram o fato de que o X.org continha software não livre (o relatório de bugs do Debian, a pesquisa de opinião dos desenvolvedores do Debian quanto ao tratamento dado ao software não livre e, mais uma vez, o relatório de bugs do Ubuntu, que foi copiado do Debian). Software não livre foi deliberadamente mantido na seção “main” para não restringir o conforto e a usabilidade do sistema operacional.

Graças a uma nova licença criada para o software em questão o problema foi resolvido por enquanto.

Além disso, o Debian e o Ubuntu facilitam a instalação de software não livre, como por exemplo ao oferecer os repositórios “contrib” e “non-free” (Debian) ou “restricted” e “multiverse” (Ubuntu), bem como uma interface gráfica para a instalação de drivers proprietários para placas de vídeos, WLAN etc. (no GNOME do Ubuntu, em “Sistema-> Administração”). Os navegadores instalados por padrão, Iceweasel (Debian) e Firefox (Ubuntu), também oferecem a possibilidade de instalar plugins não livres.

gNewSense

A ideia

O projeto gNewSense tem por objetivo a criação de uma distribuição GNU/Linux que tenha como prioridade a liberdade do usuário, mesmo que isso limite o conforto e o suporte a hardware. As bases de ação da distribuição são as diretivas da FSF para sistemas operacionais livres. A citação obtida do site oficial do gNewSense descreve seu objetivo: “Observe que nosso objetivo é produzir uma distribuição totalmente livre, e não abrigar a maior quantidade possível de recursos”. Na prática, isso significa que o gNewSense pretende 1. distribuir apenas software que seja livre de acordo com a definição da FSF e 2. não facilitar a instalação de software não livre. Esses dois objetivos precisam de um breve esclarecimento: quanto ao ponto 1, é difícil garantir que qualquer coleção não trivial de software seja 100% gratuita, ou seja, que cada arquivo fonte tenha sua licença verificada. Mas o gNewSense remove imediatamente qualquer software de sua lista se for descoberto que o mesmo não é livre, mesmo que isso leve a grandes limitações (como acontece com o software não livre do X.org, mencionado anteriormente). Quanto ao ponto 2, obviamente o usuário continua livre para instalar software não livre. Só que o gNewSense não oferece nenhuma ajuda nesse sentido ao usuário, como por exemplo, fornecendo um software ou as instruções necessárias para a instalação de software não livre.

A implementação

Para esse fim, os fundadores Brian Brazil e Paul O’Malley escreveram um grupo de scripts, conhecido como “Builder” (compilador), que remove os elementos não livres do Ubuntu. Qualquer usuário pode usar o Builder para fazer sua própria distribuição GNU/Linux. Um caso especial interessante é a distribuição que já é oferecida pronta e que traz o mesmo nome do projeto, gNewSense. Há uma imagem de live-CD disponível. A versão atual do gNewSense (2.1) é baseada no Ubuntu 8.04.1 e por isso oferece um visual e um estilo quase idêntico, como você pode ver nestas fotos. O modo live permite testar o hardware, o que é muito importante, já que a remoção de drivers não livres faz com que alguns componentes de hardware suportados pelo Ubuntu não funcionem (veja abaixo). A instalação no disco rígido pode ser iniciada pelo modo live. Instruções e tutoriais de instalação e administração do sistema podem ser encontradas no wiki do gNS.

Quais são as limitações do gNewSense?

Levando-se em conta as explicações acima, não é de se surpreender que o uso do gNewSense seja mais restrito que o do Ubuntu. A falta de suporte a muitas placas de WLAN, a falta de suporte a GLX e a falta do Firefox não tornam o gNewSense muito atraente para os usuários. Para evitar a decepção, é fortemente recomendável ler sobre o hardware suportado e o software fornecido antes da instalação. Para isso, inicie o gNewSense no modo live, pelo CD. Essa é uma maneira isenta de riscos de testar os gráficos, o som, as placas de rede e afins. Como a remoção de firmware não livre do kernel é automática, não há uma lista precisa de componentes suportados pelo Ubuntu que não sejam suportados pelo gNewSense. Um bom ponto de partida para quem quiser saber sobre o hardware suportado é a página da FSF. Para maiores informações, visite o fórum do gNewSense ou poste sua dúvida na lista de discussão. As placas WLAN e várias placas LAN e de vídeo para as quais não há drivers livres geralmente não são suportadas. Em comparação com o Ubuntu, faltam também os repositórios “restricted” e “multiverse”, obviamente, mas a seção “universe” vem ativada por padrão.

E por que usar o gNewSense?

O gNewSense é um dos sistemas operacionais classificados como livres pela FSF e é suportado ativamente por ela. O projeto GNU oferece uma versão modificada do Firefox para o sistema operacional, chamada de Icecat, que pode ser instalada facilmente pelo sistema de gerenciamento de pacotes. Diferente do Firefox e de outras versões dele, o Icecat oferece-se para instalar plugins livres e inclui alguns recursos de segurança que não estão presentes no Firefox. Alguns dos componentes não suportados pelo gNewSense podem ser suportados no fim das contas através da instalação de um novo kernel do projeto Linux LibreAli Gunduz oferece pacotes compilados para o Debian. A versão atual, o kernel 2.6.28-libre, por exemplo, permite o uso do módulo tg3 sem o firmware não livre. Além disso, algumas placas WLAN da Atheros são suportadas pelos módulos atk5 e atk8 (incluídos no kernel 2.6.28).

Conclusão

Usando o gNewSense, você pode mostrar que a liberdade do software que você usa é realmente importante para você. Assim os fabricantes de hardware podem ser motivados a fornecer drivers e firmware livres para seus produtos e de quebra trazer transparência e inovação a essa área da produção de software. Para completar, você ainda pode mostrar aos projetos que originaram o gNewSense (Debian e Ubuntu) que você quer se manter fiel aos princípios e contratos de maneira consistente, e que não está satisfeito com exceções fajut

Créditos a Benedikt Ahrensfreesoftwaremagazine.com
Tradução por Roberto Bechtlufft <roberto at bechtranslations.com>

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