Será o fim da computação pessoal de propósito geral?

Será o fim da computação pessoal de propósito geral?

Is General-Purpose Personal Computing Doomed?

Autor original: Hadrien G. ‘Neolander’

Publicado originalmente no: osnews.com

Tradução: Roberto Bechtlufft

Quando os computadores, que são máquinas que evoluem e podem ser reprogramadas, se tornaram amplamente disponíveis, o burburinho gerado foi merecido. Cientistas, bancos e companhias de seguros, acharam que estavam sonhando; outros, como os escritores de ficção científica, acharam que aquilo era um pesadelo. Hoje em dia, gostando ou não, eles estão em toda parte. Só que parte desses computadores voltados para o uso individual está se distanciando bastante do conceito original de máquina programável. Eles mais parecem ferramentas comuns, com uma utilidade fixa. Seus mecanismos internos personalizáveis só estão acessíveis às pessoas que os desenvolveram. Será que não existe mais mercado para máquinas programáveis pessoais de propósito geral, capazes de fazer de tudo? Vou tentar responder a essa pergunta, levando em conta duas fortes tendências no mercado da computação pessoal: os dispositivos sensíveis ao toque e a computação em nuvem.

A primeira coisa que pode matar a computação pessoal como a conhecemos hoje, do Windows ao Photoshop, é o hype em torno desse papo de dispositivos sensíveis ao toque. A maioria dos fabricantes de telefones celulares, computadores e laptops parecem ver as telas sensíveis ao toque como a interface do futuro. Ela é divertida de usar, bastante intuitiva (é só apontar o dedo, como sua mãe sempre disse para você não fazer) e faz com que seja muito mais fácil dar zoom e girar imagens. Mas eu acho que a computação de propósito geral e telas sensíveis ao toque são incompatíveis pelos seguintes motivos:

Precisão:

As telas sensíveis ao toque são manipuladas com os dedos. Além de serem gordurosos e deixarem marcas na tela, os dedos são bem grandes. Compare seu dedo ao ponteiro do mouse e você vai ver do que eu estou falando. Eles não são uma maneira precisa de apontar para alguma coisa: tente pousar o dedo rapidamente sobre um objeto qualquer em uma tela sensível ao toque, e você vai acertar algo em um raio de uma polegada em torno do objeto que você queria acertar. Isso ocorre em parte porque o dedo, da maneira como o vemos (um grande cilindro com ponta arredondada), não corresponde à maneira como a tela o vê (uma forma feia, correspondente à parte da superfície do seu dedo que toca a tela), e a não ser que a tecnologia de toque seja completamente reinventada, não há outra forma de se superar esse problema.

Com isso, ninguém consegue imaginar o uso cotidiano do computador com uma interface sensível ao toque. O Windows 7 ilustra perfeitamente a falha desse sistema. Os controles precisam ser umas três ou quatro vezes maiores. Isso implica em dividir a densidade das informações na tela por três ou quatro. A não ser que os computadores fiquem gigantes, não tem como usar Photoshop, Gimp, Adobe Illustrator/Inkscape, editor de texto ou qualquer outro tipo de software interativo avançado com uma tela sensível ao toque. Uma tela de toque de telefone só exibe alguns brinquedos; a de um tablet consegue igualdade de recursos quando comparada a um telefone movido a botões; a de um laptop fica pau a pau com um netbook comum. Para que um dispositivo sensível ao toque tivesse os mesmos recursos que um desktop moderno, ele precisaria de uma tela do tamanho da do Microsoft Surface, o que seria caríssimo e nem um pouco prático de se usar.

Capacidades de interação:

Vamos usar como exemplo um mouse de três botões qualquer, sem pensar no que se poderia fazer com um teclado ou com um mouse com mais botões. Usando o mouse, as interações comuns são mover o ponteiro, clicar, dar um clique duplo, clicar com o botão direito, rolar a tela com a rodinha e clicar na rodinha. Em uma tela sensível ao toque, temos duas interações para fins gerais: tocar e rolar. O zoom e o giro de imagens podem ser acrescentados, mas geralmente a detecção dos gestos correspondentes falha, e o que é mais importante, esses gestos possuem uma conjunto muito específico de aplicações. O toque duplo raramente é utilizado, porque é muito menos prático do que ter o botão do mouse sob o dedo, e as propostas atuais para a substituição do clique direito (o toque com dois dedos e o tocar-e-manter) são muito pouco intuitivas e pouco práticas, e provavelmente nunca serão usadas no dia a dia.

Isso significa que as telas sensíveis ao toque não apenas reduzem a densidade das informações, como também tornam menus e ações sensíveis ao contexto menos práticos. Como não dá para mover o ponteiro, fica mais difícil introduzir informações de contexto: é preciso pôr etiquetas em tudo para explicar detalhadamente o que cada controle faz, em vez de usar tooltips e a mudança do cursor para esse propósito. Isso faz com que interfaces complexas com telas sensíveis ao toque sejam ainda mais complexas do que as interfaces comuns, devido à grande quantidade de informações que o cérebro precisa decodificar para localizá-las.

Teclado:

Tem gente que gosta de teclados na tela; outros os odeiam, mas quase todo mundo concorda que eles não são bons para se digitar muito texto (digamos, várias páginas). Seja por cansaço no braço, no dedo ou meramente pelo desempenho lento. A lentidão é causada em parte pela necessidade de se usar a lenta coordenação entre os olhos e a mão no lugar do rápido feedback táctil. Isso também se deve em parte ao fato de que você precisa rolar a tela com mais frequência para ver o que está digitando, já o teclado toma a maior parte da tela e você só consegue ver as últimas linhas que escreveu.

Há muito a se dizer sobre as implicações ergonômicas de controles que ficam aparecendo em tudo quanto é canto da tela e da falta de lugar certo para as coisas, mas vou me limitar a dizer que você não pode digitar muito texto, não pode trabalhar no dispositivo e, o que é mais importante, não pode programar com uma interface dessas. Os dispositivos com telas de toque são completamente diferentes dos computadores comuns que eles se propõem a substituir, no sentido de não serem independentes: para criar código para eles, é preciso conectar um teclado (e com isso o dispositivo não é um dispositivo puramente sensível ao toque) ou usar outro computador no qual se possa conectar um teclado.

Como se pode ver, se os dispositivos sensíveis ao toque se tornarem o padrão na área da computação pessoal (e ainda não sabemos se isso vai acontecer), a computação de propósito geral certamente morrerá nessa área. Mas não sei bem se essa coisa vai colar ou não nos escritórios. Acho que não, por causa do já mencionado problema com o teclado. De qualquer forma, parece que a computação de propósito geral já está perdida mesmo nessa área, graças à nova obsessão dos patrões por controle sobre as atividades dos funcionários, o que quase que certamente vai resultar em um bloqueio completo do computador para tudo o que não seja relacionado ao trabalho. Quero dizer, se a computação em nuvem não chegar primeiro.

Na Idade da Pedra da computação, os computadores eram tão caros que só empresas muito grandes podiam arcar com seus custos. Essas empresas alugavam poder computacional por taxas insanamente altas para quem realmente precisava dele, tendo um controle ditatorial sobre seus dados e ações. Com o surgimento dos mini e microcomputadores e a queda dos preços, pessoas e organizações conseguiram independência desse sistema horroroso que meio que desapareceu da face da Terra. Hoje temos apenas vestígios desse tempo, na forma do aluguel de supercomputadores para a realização de algumas poucas tarefas que exijam muito poder. Só que muitas empresas têm ótimas lembranças desses tempos, e querem que eles voltem sob o que eles chamam de “computação em nuvem“, que é a segunda arma de destruição em massa apontada para os computadores pessoais de propósito geral.

A ideia da computação em nuvem é a de fazer com que as pessoas dependam de serviços online (como os do Google ou os da Apple) para tarefas que poderiam realizar em seus computadores, mantendo sua independência desses serviços e de seus proprietários. Os defensores da nuvem usam como argumento a confiabilidade e a simplicidade (essas empresas fazem backups, não abrem arquivos executáveis em spams com permissões de administrador, não tentam crackear software e geralmente contam com engenheiros computacionais habilidosos, que tomam conta do sistema e de seus dados. Com isso, é fato que elas têm sistemas mais confiáveis e de melhor desempenho do que um usuário médio), além da capacidade de acesso aos dados de qualquer lugar (presumindo que o usuário seja estúpido e não entenda que ele não será o único que poderá acessar seus dados de qualquer lugar). O interessante é que o conceito de nuvem às vezes se mescla à ideia de se comprar todos os produtos com um mesmo fabricante para manter a consistência (dando ao tal fabricante uma quantidade insana de poder, dinheiro e conhecimento sobre a sua vida).

Como eu já disse, a ideia da nuvem é por natureza oposta à dos computadores pessoais “inteligentes”, capazes de realizar todo tipo de tarefa. As empresas de computação em nuvem, por outro lado, querem que os usuários adquiram terminais burros (ou “leves”, como também são conhecidos), computadores que praticamente só servem para navegar na web (e mais especificamente para otimizar o acesso aos serviços online do fabricante). E quando eu digo “praticamente”, quero dizer que já existem sistemas operacionais de “transição”. Como algumas tarefas que fazemos offline ainda não podem ser feitas online, esses sistemas operacionais permitem que façamos essas coisas, jogando todo o resto para a “nuvem”. O exemplo mais perfeito de um sistema operacional focado na nuvem é o Chrome OS do Google, com o sistema do iPhone da Apple sendo outra visão do conceito de nuvem levando aos mesmos resultados, só que com mais poder e menos confiabilidade do que um sistema operacional puramente web, porque usa código nativo em alguns pontos.

Se a ideia da nuvem pegar e se provar tecnicamente realística (ainda não se sabe se jogos e edição de vídeo podem ser utilizados via nuvem), os computadores pessoais para fins gerais como conhecemos hoje vão desaparecer gradualmente, sendo substituídos por dispositivos “burros” que podem ser levados para qualquer lugar e que foram desenvolvidos apenas para usar serviços online. Conforme a tecnologia de redes avançar, mais e mais coisas serão feitas na web, e menos coisas serão feitas localmente, fazendo com que o mercado de desktops e laptops encolha dramaticamente.

No fim das contas, Google e Apple vão entrar numa baita briga pela dominação mundial, e a Terra será destruída por armas nucleares e… não, eu estou brincando. Eu acho.

E você, o que acha? Será que a computação pessoal de propósito geral vai ficar para segundo plano, e que computadores de baixo desempenho que não passam de ferramentas são o futuro para as pessoas? Ou o mercado atual veio para ficar, os dispositivos sensíveis ao toque vão conseguir invadir a computação geral e vamos chegar a algum tipo de equilíbrio, onde ambos os dispositivos terão seus respectivos lugares? Será que toda essa coisa de computação em nuvem vai morrer porque as pessoas vão subitamente compreender como é errada a ideia de dar muito poder às grandes empresas?

Hadrien G. ‘Neolander’ é estudante de física e entusiasta da computação, passando boa parte do seu tempo livre visitando sites de notícias sobre computadores, escrevendo um sistema operacional e lendo livros de ciência da computação. Ele é o autor do blog http://theosperiment.wordpress.com , que narra suas tentativas de desenvolver um sistema operacional para computação pessoal, e que no momento está de mudança para o WordPress para se livrar do Google.

Créditos a Hadrien G. ‘Neolander’osnews.com

Tradução por Roberto Bechtlufft <info at bechtranslations.com.br>

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