Primeiras impressões do Fedora 12

First look at Fedora 12
Autor original: Jesse Smith
Publicado originalmente no:
distrowatch.com
Tradução: Roberto Bechtlufft

Há sete anos eu venho usando o Fedora (e antes dele, o Red Hat Linux) de forma intermitente, e posso dizer que o Fedora é uma distribuição que consegue sempre se manter no limite tecnológico do software de código aberto. Isso significa que volta e meia eu me pego de queixo caído com novas tecnologias, e que estou sempre fazendo novas instalações. De modo geral, minhas experiências têm sido positivas, especialmente com o lançamento da versão 11 do projeto, e passei os últimos meses ansioso pela chegada do Fedora 12.

O Fedora está disponível em várias versões, de acordo com suas necessidades. Há um DVD de instalação tudo-em-um para máquinas Intel de 32 e 64 bits. O DVD também traz uma edição para PowerPC. Para quem quiser experimentar antes de instalar, o Fedora tem live CDs. Esses live CDs oferecem o GNOME e o KDE, e decidi tentar a sorte com o live CD do KDE. Enquanto o download corria, dei uma olhada no site. O Projeto Fedora, que é uma base de testes para tecnologia de ponta, tem um site tecnicamente avançado. Para quem está acostumado a computadores e ao Linux em especial é fácil navegar, mas os novatos no código aberto podem achar os termos e informações muito complicados. O site passa a imagem de um projeto tocado por entusiastas do código aberto para entusiastas do código aberto.

Para testar o Fedora, usei meu bom e velho desktop (CPU de 2,5 GHz e 2 GB de RAM) e meu laptop LG (CPU de 1,5 GHz e 2 GB de RAM). Para ver como o sistema operacional se sairia com menos recursos, usei também uma máquina virtual. O live CD inicializou e exibiu um desktop KDE 4.3 moderno e vívido. Um plasmoid (widget) de pasta estava aberto, com um único ícone: um atalho para o instalador. Também no desktop estavam a habitual barra de tarefas e o menu de aplicativos. Na mesma hora, disparei o instalador e dei início aos trabalhos.

Instalação

O instalador do Fedora não mudou muito com os anos. Trata-se de uma interface simples à base de cliques que conduz o usuário pelas etapas necessárias. Confirmei o fuso horário, o layout do teclado e acertei as partições. O gerenciador de partições foi o primeiro problema que eu encontrei. Minha duas máquinas de testes têm discos rígidos pequenos para os padrões de hoje, e quando o assunto é sistema de arquivos eu prefiro ser mais conservador. Por isso, decidi formatar minha partição raiz como ext3. O instalador se recusou a fazer isso. Saí do instalador, apaguei o disco rígido e comecei tudo de novo. Mais uma vez, o instalador se recusou a usar qualquer sistema de arquivos que não fosse o ext4 para minha partição root. O swap foi criado sem problemas. Segui com a configuração do GRUB, e fui solicitado a criar uma senha para a conta de root. Depois disso, o instalador copiou todos os seus pacotes para o meu disco local. Uma coisa interessante é que a edição em DVD do instalador permite ao usuário selecionar quais pacotes serão instalados, mas o instalador do live CD não. Após a instalação dos pacotes, fui solicitado a reiniciar o sistema.

Na primeira inicialização, o usuário precisa passar por mais algumas etapas, como a leitura do contrato de licença, a criação de uma conta de usuário comum e a confirmação da data e da hora. Na etapa final, o sistema pede permissão para enviar um perfil do hardware para a equipe do Fedora. Eu acho essa uma ideia excelente, e sempre aceito enviar o perfil. O processo mantém o seu anonimato, e dá aos desenvolvedores uma ideia do tipo de hardware no qual devem se focar.

Fedora 12 – o instalador do sistema, o centro de ajuda do KDE e o pop-up de gerenciamento de energia

Nesse momento, todas as perguntas são respondidas e o usuário chega a uma tela gráfica de login. Nada fora do comum, exceto pelo fato das entradas de texto do menu terem sido substituídas por ícones gráficos. Os ícones casam bem com o fundo, tornando o design agradável aos olhos, mas o lado do meu cérebro que é usado no suporte técnico se contorce de medo ao imaginar que vai ter que explicar a um usuário, pelo telefone ou por email, que ele precisa clicar no “terceiro ponto branco da direita para a esquerda”.

Desktop e aplicativos

O desktop do Fedora tem um azul agradável e não tem ícones. Por padrão, o Fedora configura o KDE para usar a visão de Desktop, que não exibe ícones comuns. É possível obter um desktop mais clássico, com ícones, mudando as configurações do desktop. O menu de aplicativos usa o estilo de agrupamento Kickoff por padrão. Isso pode ser mudado facilmente, caso você prefira o agrupamento clássico. O menu está cheio de itens úteis, a maioria bem típica do KDE. Há várias ferramentas administrativas úteis, facilitando tarefas como o gerenciamento dos métodos de autenticação, de contas de usuário e do SELinux, a alteração de conexões de rede e a configuração do firewall. A coleção habitual de jogos do KDE está presente, assim como aplicativos para exibição e criação de imagens. Há aplicativos para gerenciar downloads, navegar na internet e trocar mensagens instantâneas.

Também no menu encontramos o popular gravador de CDs K3b, além de players de áudio e vídeo. A seção de escritório traz a suíte KOffice completa, e para completar há uma ampla variedade de aplicativos simples, incluindo uma calculadora e um editor de texto. O que está presente não surpreende muito, mas sim o que ficou faltando. Não temos GIMP nem Firefox, e o OpenOffice.org foi trocado pelo KOffice. A princípio, estive propenso a acreditar que era um problema de espaço. Só que o tamanho total da instalação a partir deste live CD com o KDE é de 2 GB. Só para comparar, a instalação do Mandriva 2010 com o KDE tem 3 GB e inclui todos os programas cuja ausência eu mencionei. Eu fico me peguntando como o Fedora pode oferecer só um terço dos aplicativos se as imagens de CD das duas distribuições têm quase o mesmo tamanho. É claro que esses pacotes podem ser baixados dos repositórios do Fedora após a instalação, mas seria bom se eles já viessem no CD.

Para ser justo com o Fedora, o que o CD fica devendo em termos de aplicativos ele compensa em desempenho. O Fedora iniciou rapidamente, em metade do tempo do Mandriva 2010. Quando cheguei ao desktop, o sistema manteve o bom desempenho. O KDE tem reputação de ser pesado, mas a configuração do Fedora responde muito bem. Em uma máquina virtual com 512 MB de RAM o desempenho foi ruim, mas ainda assim dava para usar.

Configuração do hardware e do sistema

O Fedora continua sendo um dos líderes no suporte automático a hardware. Minhas placas de vídeo foram detectadas e configuradas em suas resoluções máximas e o som funcionou sem a necessidade de qualquer ajuste. Minha conexão de rede foi detectada e habilitada por padrão, assim como a placa de rede sem fio do meu laptop (Intel 2200). Também fiquei feliz em ver que a internet móvel USB do meu laptop (modem de internet wireless Novatel, da Rodgers) foi detectada e usada corretamente. Minha única reclamação quanto ao hardware é com o touchpad do laptop. Ele respondia aos meus comando para mover a seta do mouse, mas para um toque rápido agir como um clique eu tive que mexer um pouco. Não chega a ser um grande problema, mas eu gosto muito desse atalho. Depois de adicionar alguns pacotes e de editar um arquivo de configuração, meu touchpad voltou a agir da maneira habitual.

O centro de controle Configurações do Sistema é uma maneira prática de gerenciar o Fedora. Através dele, o usuário pode ajustar o visual do desktop, gerenciar atualizações e configurações relacionadas, configurar o som e acertar aspectos da rede do sistema operacional. Também há ferramentas para a gerenciar fontes, impressoras e opções de acessibilidade. Os controles estão bem organizados, e gosto especialmente do resumo de cada seção que aparece quando movemos o mouse sobre as categorias. Com isso fica mais fácil para os usuários novatos identificar rapidamente onde estão as configurações nas quais querem mexer. Há uma guia de opções avançadas, que permite ao usuário configurar maiores detalhes do KDE. Serviços específicos do KDE, a tela de login, as associações de arquivos, a interação com o hardware e a pesquisa no desktop podem ser facilmente configuradas nessa seção.

Fedora 12 – o Centro de Controle do KDE e o diálogo para adição de widgets

Gerenciamento de pacotes

A equipe do Fedora se dedica exclusivamente ao software livre. Isso significa que plugins proprietários, como o Flash da Adobe e os codecs para MP3, não estão inclusos na distribuição. Quero dizer, não diretamente. Quem quiser usar os codecs restritos, o Flash e outros recursos relacionados pode usar o repositório RPM Fusion. O grupo RPM Fusion oferece uma enorme quantidade de software que, por um motivo ou outro, não pode ser incluído no Fedora. Felizmente, é fácil adicionar repositórios de terceiros usando o gerenciador de pacotes YUM: basta clicar no link adequado no site do RPM Fusion.

O YUM era criticado por ser mais lento e menos poderoso do que outros gerenciadores de pacotes, como o apt-get. Mas em suas últimas versões, o YUM progrediu muito. Para começar, agora ele é rápido. A instalação de novos programas só é limitada pela velocidade da conexão do sistema com a internet. O YUM também se tornou mais flexível e útil. Se a atualização de um grupo de pacotes falhar por um motivo qualquer, o YUM se oferecerá para tentar resolver problemas com pacotes quebrados e garantir que o resto do sistema se mantenha atualizado. Da mesma forma, a instalação de novos pacotes também ficou mais tolerante a falhas.

Mas o meu recurso favorito, apresentado como um plugin no Fedora 11, é o “presto”. Com o plugin do presto, que vem instalado por padrão no Fedora 12, o Yum pode baixar apenas as partes necessárias das atualizações. Digamos, por exemplo, que um bug modesto tenha sido encontrado no Firefox, e que um arquivo tenha recebido um patch. Antigamente, o YUM baixava o pacote novo do Firefox inteirinho para substituir o antigo. Com o presto, um pacote menor, contendo apenas os dados atualizados, é baixado. Testei o recurso, e meus downloads se mostraram regularmente quatro vezes menores do que os anteriores (em uma instalação limpa do Fedora 11, com o presto habilitado, o tamanho das minhas atualizações caiu de 1 GB para 150 MB. Em uma das minhas instalações do Fedora 12, as atualizações caíram de 45 MB para 27 MB). Pode não parecer muita coisa para usuários domésticos com conexões rápidas, mas isso vai poupar dias para quem usa linha discada. Redes em pequenas empresas sem um proxy de atualizações vão poupar vários gigabytes de transferência de dados.

Segurança e serviços

A equipe do Fedora levou a segurança a sério, e tomou providências importantes para proteger a distribuição sem atrapalhar. O instalador do sistema permite que as partições sejam criptografadas logo de cara, tornando o processo quase transparente. Isso é especialmente útil para proprietários de laptops. Fiz a experiência no meu laptop, e não vi perdas de desempenho causadas pela criptografia. Outro recurso de segurança que amadureceu foi o SELinux. Nas versões anteriores do Fedora, eu sempre acabava desabilitando o SELinux, porque ele me atrapalhava o tempo todo. Mas agora ele foi devidamente aprimorado, e não bloqueia mais as tarefas comuns, e as ferramentas de configuração dele voltadas para o usuário final estão melhorando. Espero que essa tendência de tornar o SELinux mais amigável continue, porque o SELinux é uma ferramenta muito poderosa para proteger o sistema.

Fedora 12 – o diálogo de administração do SELinux e o aplicativo de gravação de discos K3b

No Fedora 12, a maioria dos serviços de rede vem desabilitada por padrão, com exceção do Sendmail, que tem o acesso de origem externa bloqueado pelo firewall. Em versões anteriores, o OpenSSH rodava por padrão, e acho que é a primeira vez que ele já vem desabilitado. Embora esses passos tenham sido dados na direção certa, o Fedora também regrediu em um ponto na questão da segurança. O Fedora 12 permite que usuários sem privilégios (contas que não sejam de root) instalem pacotes dos repositórios do Fedora. Isso pode ser feito pelo gerenciador gráfico de pacotes e representa um sério risco de segurança para qualquer sistema em execução com vários usuários, já que qualquer usuário local agora pode instalar milhares de pacotes de software, o que torna o sistema mais vulnerável e pode acabar lotando a partição root. Enquanto eu escrevia este artigo, a equipe do Fedora havia sido contatada com relação ao problema e se recusado a voltar ao comportamento padrão. Há um gatilho para quem quiser voltar ao comportamento anterior, mais comum.

Embora isso não seja uma novidade do Fedora 12, eu também gostaria de comentar sobre o compilador MinGW. A função desse compilador é a de, essencialmente, possibilitar que código fonte de aplicativos do Linux seja compilado na forma de um binário executável para o Windows. Fiz o teste com projetos menores e o compilador funcionou bem, mas projetos de tamanho médio não eram compilados corretamente ou não rodavam após a compilação. Não sei até que ponto essas falhas são causadas por dependências ausentes, problemas de compatibilidade do Wine ou pelo próprio compilador. É uma ferramenta útil e espero que continue sendo apoiada pelo Fedora, já que ela reduz muito o tempo que desenvolvedores multiplataforma passam rodando o Windows.

Conclusão

Depois de dias com o Fedora, posso dizer que fiquei feliz com a nova versão. O live CD em si foi um pouco abaixo da média, mas a distribuição como um todo está excelente. É provável que esta seja a versão mais estável e bem acabada que a equipe do Fedora já lançou até hoje. A segurança é forte na maior parte do sistema, embora o buraco criado pelo sistema de gerenciamento de software seja motivo de preocupação. O gerenciamento de pacotes é rápido e o KDE parece estar recebendo a atenção que merece. O sistema responde bem e ainda não tive nenhum problema mais sério. Devido à natureza tecnologicamente avançada da distribuição e ao seu rápido ciclo de suporte, eu não recomendaria o Fedora para novatos no Linux. O Fedora é para quem tem experiência no Linux e quer saber o que o futuro reserva. Para quem pula de distro em distro, esta é uma versão confiável e que vale a pena ser experimentada.

* * * * *

Uma observação rápida sobre o problema do gerenciador gráfico de pacotes. Na análise acima, eu mencionei a preocupação com o gerenciador gráfico de pacotes, que permite que usuários comuns instalem software dos repositórios do Fedora sem saber a senha de root. Minha análise representa a situação que se apresentou diante de mim na sexta ou no sábado, dependendo do seu fuso horário. Eu sabia que a história não ia parar por aí, e pedi ao desenvolvedor Adam Williamson que me mantivesse informado sobre qualquer mudança. E foi isso o que ele fez, e no fim de semana decidiu que usuários comuns deveriam usar a senha de root para instalar pacotes. Pouco depois uma atualização apareceu, implementando o novo comportamento. Somando tudo, desde o lançamento oficial do Fedora, o software recebeu uma correção em menos de uma semana.

Créditos a Jesse Smith distrowatch.com
Tradução por Roberto Bechtlufft <info at bechtranslations.com.br>

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Esta postagem foi modificada pela última vez em 26/11/2009 12:28