O desktop web eyeOS

O desktop web eyeOS
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The eyeOS web desktop

Autor original: Nathan Willis

Publicado originalmente no: lwn.net

Tradução: Roberto Bechtlufft

O projeto eyeOS se descreve como um “desktop web“, ou seja, um sistema operacional que emula um ambiente de desktop funcional completo dentro de uma simples página da web. Os benefícios certamente são atraentes: privacidade, acesso aos seus arquivos em qualquer lugar com internet e capacidade de colaboração em tempo real com outros usuários. Ele é licenciado pela AGPLv3, o que o posiciona bem alto na lista de serviços web que protegem a liberdade do software. Mas há muita concorrência nas áreas de desktops remotos e colaboração em tempo real, e o eyeOS vai ter que dar duro para conquistar os usuários.

Para ter uma ideia melhor do que torna o eyeOS diferente de outros pacotes de desktop para a web, temos que analisar sua interface e sua arquitetura. Afinal, o AbiWord, o Zoho, o Google Docs, o Etherpad e até o Microsoft Office já permitem colaboração online para tarefas comuns de escritório.

Embora rode dentro do navegador, para o usuário o eyeOS tem jeitão de desktop comum, do menu e das barras de ferramentas até o gerenciador de arquivos e as preferências de usuário. Para começar, é preciso ter uma conta no servidor remoto do eyeOS. Depois de fazer login, uma sessão completa de desktop é iniciada no servidor e na janela do navegador. O paradigma da computação para desktops está embutido no núcleo do design do eyeOS. O back-end do ambiente de desktop roda como um aplicativo PHP no servidor, e o navegador é usado apenas para executar uma interface baseada em JavaScript, que se comunica com o processo do servidor via AJAX.

Qualquer aplicativo que o usuário abra (um processador de texto, um cliente de email ou um gerenciador de arquivos) é iniciado como um processo separado no lado do servidor, que se comunica com o processo do desktop do eyeOS no back-end, enquanto o front-end se comunica com a interface em JavaScript que está sendo executada no navegador. Pode parecer simples – o front-end em Javascript imita o comportamento do sistema na janela, e o back-end age como um sistema operacional tradicional – mas o modelo aqui é distintamente diferente daquele usado por outros serviços web como o Zoho, que não usa um processo separado para supervisionar tudo e gerenciar componentes individuais de aplicativos.

O sistema eyeOS básico vem com um pequeno grupo de aplicativos instalados: programas de rede e escritório, utilitários e por aí vai. E as APIs do front-end e do back-end são livres. Ao longo dos anos, uma coleção respeitável de software de terceiros para o eyeOS foi desenvolvida pela comunidade. Para instalar novos aplicativos é preciso ter acesso administrativo ao servidor do eyeOS, mas isso pode ser feito pela interface do desktop.

Testando o eyeOS

Você pode criar uma nova conta de usuário e testar uma sessão do eyeOS para ver como o sistema funciona. Duas opções estão disponíveis no site oficial: versão 1.x e versão 2.x, ambas marcadas como “estáveis” e “prontas para ambientes de produção“. O código da versão 1.x (que parece ser a versão 1.9) está em desenvolvimento desde 2007. A versão 2.x é uma reescrita que teve início em março de 2010. A instância em execução em servidores públicos por vezes figura como 2.1, por outras como 2.2 (esta é a mais provável, e as referências à versão 2.1 devem ter passado desapercebidas na hora de atualizar o HTML).

Abertura de pasta no eyeOs 1.x

Abertura de pasta no eyeOs 1.x

O projeto afirma ter mais de 250 aplicativos disponíveis para o eyeOS 1.x, e mais de 20 para o 2.x, mas isso contando aplicativos de terceiros (a maioria hospedada em eyeos-apps.org), e não o que está disponível nos servidores de demonstração. Comecei usando a versão 2.x, mas a falta de aplicativos me levou a testar a versão 1.x também. Mesmo depois de uma pesquisa no wiki, no fórum e no site, ainda não sei se o servidor de demonstração é um serviço gratuito oferecido pelo eyeOS ou se tem limite de espaço de armazenamento, tempo ou de algum outro recurso. Você cria sua conta para fazer login fornecendo um endereço de email, mas esse endereço não é validado no processo de criação de usuário.

Depois de trabalhar com as duas encarnações do eyeOS por um dia inteiro, não sei bem o que pensar. Por um lado, a velocidade do sistema surpreende: é óbvio que a interface web é mais lenta do que a interface de um desktop local, mas fica quase no mesmo nível de uma máquina virtual no VirtualBox. Recursos que eu pensei que não funcionariam bem, como o som e o suporte à rodinha do mouse, funcionaram sem qualquer problema. Por outro lado, falta acabamento, especialmente no sistema 1.x, onde era de se esperar que esses probleminhas já tivessem sido resolvidos há anos.

A interface de usuário é inconsistente entre os aplicativos, especialmente nos widgets para o desktop, e a terminologia também (por exemplo, há um aplicativo chamado de “eyeOS Board” e “eyeBoard” em lugares diferentes da interface). Os ícones misturam 2D, 3D e perspectiva de 45 graus, sendo desenhados com cores e estilos diferentes. Alguns dos widgets padrão da interface são ilegíveis, como o que exibe texto branco sobre um fundo cinza claro. Para mudar o tema é preciso reiniciar a sessão, mas como a opção de reinício não existe, você tem que fazer logout e tornar a fazer login manualmente. O menu do sistema fica no canto inferior direito, e usa um ícone que não é bem o logo do eyeOS, e parece com o símbolo usado em botões liga/desliga. Para minha surpresa, quando tentei abrir a pasta de documentos, o gerenciador de arquivos integrado não sabia como fazer isso, mostrando uma janela de seleção de aplicativo onde eu tinha que escolher quem abriria a pasta.

Troca de tema no eyeOS 1.x

Troca de tema no eyeOS 1.x

A versão 2.x é um pouco melhor na consistência da interface, mas também sofre do mal dos ícones misturados. Os lançadores de aplicativos no desktop não funcionam, mas dá para resolver tudo usando os dois conjuntos adicionais de atalhos sempre visíveis nos painéis superior e inferior do desktop. Vários dos aplicativos padrão tinham itens de menu que não funcionavam (principalmente o aplicativo de calendário). Se você abrir um arquivo novo no editor de textos, ele fecha o documento anterior sem nem lhe dar a chance de salvar o trabalho.

Tirando os problemas com a interface, alguns outros problemas intrínsecos do sistema me deixaram decepcionado rapidamente. Para começar, eu notei que todos os aplicativos eram lançados com janelas de tamanhos muito reduzidos, geralmente pequenas demais para serem utilizadas sem redimensionamento. Isso deve ser para compensar o fato do desktop inteiro estar rodando em um quadro dentro de uma janela no seu ambiente de desktop local: não há muito espaço disponível na tela.

A escassez de espaço é ampliada pelo uso da metáfora do desktop: ter outra barra de tarefas dentro do navegador e barras de título para todos os aplicativos acaba consumindo espaço, e sem tornar os aplicativos mais utilizáveis. O eyeOS também exige que o usuário faça logout de uma sessão manualmente (como faria em um desktop comum). Fechar a janela do navegador não fecha a sessão. Esse comportamento faz sentido se o objetivo for emular um desktop comum, mas resulta em uma falha de segurança que prejudica um dos objetivos declarados do projeto: manter seus arquivos a salvo.

Também fiquei desapontado com o conjunto de aplicativos padrão. Não fosse o apelo de estar rodando dentro do navegador, o eyeOS seria um desktop bem fraquinho. O aplicativo de calendário não assina calendários remotos, o processador de textos é minimalista, a calculadora tem apenas quatro funções. E não entendo por que o eyeOS 1.x precisa de um aplicativo para navegação na web (embora tenha gostado de ver que o eyeOS pode ser rodado dentro do navegador do próprio eyeOS).

Além do desktop

Talvez os defensores do eyeOS me indiquem a biblioteca crescente de aplicativos adicionais disponíveis para instalação, como forma de aprimorar a experiência. E eles têm razão em um ponto: se você rodar seu próprio servidor, vai poder oferecer um ambiente consideravelmente mais caprichado para seus usuários do eyeOS. Dá até para habilitar o suporte ao formato de arquivo do Microsoft Office nos aplicativos do eyeOS. É só instalar o OpenOffice.org no servidor, junto com o servidor X xvfb. Há aplicativos para o eyeOS que aprimoram a experiência de desktop padrão com melhor suporte a PDF, email mais caprichado e ferramentas de comunicação com o IRC.

Mas no fim das contas, não me convenci de que a experiência computacional de usar o ambiente do eyeOS no navegador seja melhor do que a de apenas usar os aplicativos web de código aberto que já existem. Navegando pelo repositório de aplicativos em eyeos-apps.org, você vai notar que a maioria dos aplicativos não triviais são ports de projetos existentes, como o RoundCube, o Moodle e o Zoho. Some a isso o fato de que você precisa ter acesso a uma pilha LAMP completa para rodar sua própria instância do eyeOS, e não sobram muitas vantagens no uso desses aplicativos em um desktop “encaixotado”. Não é mais fácil implantar o RoundCube no eyeOS do que em seu próprio servidor, nem é mais fácil torná-lo seguro. Ele também não vai rodar mais rápido nem ser mais fácil de usar para seus usuários.

Como sempre, há pontos negativos a considerar, como o trabalho de configuração necessário quando se fala em dar suporte a um grupo grande de usuários. Pelas minhas estimativas, os aplicativos padrão do eyeOS não oferecem uma experiência poderosa o suficiente para que se diga que seu processo de implantação mais simples torna o trabalho do administrador mais fácil do que ao configurar individualmente outras ferramentas de compartilhamento de arquivos e colaboração de código aberto. No momento, faltam ao eyeOS ferramentas robustas para o gerenciamento e a pré-configuração de aplicativos para grandes implantações.

O termo “desktop web” pode ser interpretado de muitas maneiras diferentes. O ChromeOS, por exemplo, tenta ser um “desktop web” substituindo todos os aplicativos do lado do cliente por aplicativos web. No outro extremo, os aplicativos do GNOME e do KDE cada vez mais têm a capacidade de colaboração em rede, e com a popularidade dos serviços de armazenamento na nuvem, como o Ubuntu One, o Dropbox e outros, é até possível que um usuário do Linux armazene suas preferências do desktop em um servidor remoto, tornando o mesmo ambiente disponível em qualquer lugar. O eyeOS certamente é uma abordagem inovadora em relação ao “desktop web”, mas no momento eu não tenho muita certeza de que ele ofereça uma vantagem atraente quando comparado à integração entre web e desktop que já está ocorrendo em outras áreas.

Créditos a Nathan Willislwn.net

Tradução por Roberto Bechtlufft <info at bechtranslations.com.br>

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