Entrevista com Paul Sherman, desenvolvedor do Absolute Linux

Entrevista com Paul Sherman, desenvolvedor do Absolute Linux

Interview with Paul Sherman, Absolute Linux lead developer
Autor original: Chris Smart
Publicado originalmente no:
distrowatch.com
Tradução: Roberto Bechtlufft

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O Slackware Linux, a mais antiga das distribuições atuais, é pai de muitos projetos Linux contemporâneos. O Absolute Linux é uma dessas distribuições, e é personalizado para ser fácil de usar e veloz. Ele vem com muitos aplicativos para uso cotidiano, mas com apenas um “desktop rápido-que-não-fica-no-seu-caminho”, e mantém a compatibilidade com pacotes oficiais do Slackware. O Absolute Linux 12.2.1 foi lançado na semana passada.

Paul Sherman, principal desenvolvedor do Absolute Linux, fez a gentileza de responder a algumas perguntas sobre seu amor pelo Slackware, que o levou a criar o Absolute Linux.

DW: Paul, muito obrigado pela atenção. Você pode contar para nossos leitores quem é você, onde mora, o que faz para sobreviver e como chegou ao Linux e ao software livre?

PS: Eu trabalho em casa. Conserto computadores em Rochester, Nova York, nos Estados Unidos. Eu me mudei para essa casa em 1998 e tinha a idéia de montar um servidor web com um cable modem. O Windows não era uma solução que me satisfizesse, então procurei um pouco e achei o Slackware Linux. Uau.

Aprender não foi fácil, mas logo que comecei a mexer nele fiquei fissurado. Liguei todas as minhas máquinas Linux e Windows em rede, compartilhei a conexão e disparei um servidor Apache. Com o DNS dinâmico mantendo um endereço IP pelo cable modem, eu tinha um site com 20.000 visitas diárias, e a máquina rodou por oito anos sem parar. Tirando dois reinícios causados por falta de luz, a única manutenção consistia em tirar a serragem da ventilação frontal do velho servidor da Dell (com dois processadores Pentium Pro, e que ficava no porão ao lado da minha serra de mesa). Antes do Slackware eu nem conseguia imaginar tamanho poder e confiabilidade. E foi muito divertido.

DW: Pode nos falar um pouco sobre o Absolute Linux? Quais as maiores diferenças entre o Slackware e o Absolute Linux, e porque você escolheu o Slackware como base ao invés, digamos, do Debian?

PS: Logo no início eu modifiquei o Slackware para que atendesse às minhas necessidades. Eu queria instalar tudo de uma vez sem selecionar pacotes e chegar a um desktop com o X sem que os usuários tivessem que aprender nada (minha idéia era revender máquinas velhas com Linux). Eu queria software voltado para o desktop, e não para os servidores, com todos os menus e configurações de aplicativos já realizadas, além de uma seção separada no menu só com documentação. Tinha que rodar rápido, sem a sobrecarga causada pelo KDE e pelo GNOME, e com alguns ajustes para acelerar o sistema básico. De modo geral, eu não queria o sistema operacional no caminho do usuário.

O sistema foi configurado para usar pequenos utilitários gráficos de ajuda na criação de novas contas de usuário com as permissões padrão, alteração de fontes do sistema, configuração da resolução da tela e outras coisas. Tudo isso foi desenvolvido para que os novatos se sentissem confortáveis e para poupar tempo dos ‘experts’, sem tirar deles a capacidade de modificar o sistema à moda do Slackware, pelos arquivos de configuração.

Também incluí alguns programas que eu procurei e não encontrei, e por isso escrevi por conta própria, como o ‘htmlpage’, o editor HTML padrão do Absolute, e o ‘WPClipper’, parte do pacote WPClipart que eu criei. Outros incluem o controle de volume rápido e o utilitário para configurar a resolução da tela. Ambos podem ser incluído na barra de tarefas do GNOME e do KDE. Você ainda pode editar o xorg.conf para configurar a tela, mas vai ter que descobrir as freqüências do monitor, gerar a linha modeline apropriada e editá-la. E se errar, vai ter que se virar pelo terminal. O utilitário de configuração da tela me permite escolher uma resolução, e clicando em OK ele faz o teste para mim.

Usuários sem acesso root não podem fazer alterações no sistema, nem instalar software. Algumas pessoas não gostam disso, mas eu acho que é pior quando meus filhos vêm toda semana me dizer que alguma coisa não está funcionando, como acontecia no Windows. Se configurar o Absolute com tudo o que o usuário precisa, você pode instalar e esquecer, porque ele vai continuar funcionando até o hardware pifar. Isso é ótimo para os pais e para a turma de TI. Muita gente reclama disso, mas eu sempre acreditei que se você quer fazer algo que o root deveria fazer, deve se logar como root para fazê-lo. É para isso que serve a conta de root.

Escolhi o Slackware e deixei-o o mais leve possível para que o Absolute pudesse ser instalado em hardware ultrapassado. Nada é tão rápido e estável como o Slackware Linux.

DW: O Slackware parece ter a reputação de ser uma distribuição difícil de usar. Essa reputação é merecida?

PS: Para novos usuários, sim. O tipo de controle que o Slackware fornece ao usuário tem um preço: é preciso descobrir O QUE controla cada coisinha. E não dá para ir muito longe se você não se sentir confortável operando um console de texto e digitando comandos. Você precisa saber onde procurar e como extrair a informação de que precisa, e isso certamente não é muito intuitivo para um novo usuário.

O outro lado da moeda é que, depois de alterar algo, nenhum processo automatizado vai alterar de volta. Não é preciso passar por uma dúzia de caixas de diálogo (que podem mudar de versão para versão) para alterar uma configuração. As configurações e permissões podem ser definidas com um nível de detalhes impossível em outros ambientes. A sobrecarga do sistema é baixa. E finalmente, uma vez configurado ao seu gosto, o sistema roda e roda e roda…

DW: Por que os usuários podem preferir o Absolute Linux, e o que ele tem a oferecer para os usuários que não queiram um desktop leve? Você tem planos de acrescentar outros desktops no futuro?

PS: Além de leve, o Absolute é bem simples de configurar, usar e manter. Eu gosto de pensar que ele tem todas as vantagens do Slackware, somadas a um bocado de coisas que facilitam o uso. Os pais e profissionais de TI devem gostar porque podem configurá-lo sem ter que fazer consertos o tempo todo. Os programadores devem gostar dele porque, como no Slackware, todas as seções ‘dev’ dos pacotes permanecem na distribuição. Além disso, a maioria das modificações e scripts de utilitários do Absolute são instalados em /usr/local/bin e /usr/local/sbin e/ou do pacote a/etc, e com isso é fácil analisar e brincar com as alterações que eu fiz, e talvez até criar uma versão personalizada. Para quem quer aprender o Slackware, o Absolute mostra o caminho das pedras, diminuindo a inclinação da curva de aprendizado.

Não tenho planos para outros desktops no futuro. Acho que às vezes as distribuições tentam oferecer tudo para todos, e há um preço a pagar por tanta complexidade e sobrecarga. Não tenho a ambição de transformar o Absolute no próximo Ubuntu. Se alguém quiser um desktop diferente no Absolute, é muito bem-vindo a fazer alterações nele ao seu gosto e redistribuí-lo com o nome que quiser, com minha sincera bênção – essa é a beleza do código aberto!

DW: O quão fácil é manter e atualizar o sistema, especialmente entre versões, e os usuários podem misturar pacotes do Slackware com o Absolute Linux sem problemas?

PS: A atualização ficou bem mais fácil quando Darren Austin do Slackware.org.uk disponibilizou um repositório para o Absolute em 2008. Posso subir atualizações rapidamente com o rsync e os usuários podem usar o GSlapt (pré-instalado e pré-configurado) para atualizar seus pacotes para a versão mais nova.

Os pacotes de software são compatíveis com os pacotes do Slackware que sejam exatamente da mesma versão (por exemplo, Slackware 12.2 -> Absolute 12.2). As únicas exceções são os pacotes do kernel, que foram alterados e recompilados para obter melhor desempenho no Absolute, e as bibliotecas do KDE que também foram alteradas para o Absolute (principalmente para tornar possível a execução do K3b, pois eu não consigo viver sem ele). Mas eu devo destacar que os usuários têm toda a liberdade para substituir as bibliotecas do KDE e a versão do Slackware, bem como todo o resto do KDE. Só que o desempenho não será tão bom.

DW: Com que freqüência você pretende lançar versões novas?

PS: Eu acompanho as versões do Slackware, mas faço muitas atualizações entre cada versão. O Absolute passou a usar FUSE, HAL, D-BUS, wicd e outros antes do Slackware.

DW: Você sabe o que a comunidade do Slackware pensa sobre o Absolute Linux? Já teve a chance de colaborar com seus desenvolvedores e compartilhar o desenvolvimento?

PS: Essa história é engraçada. Eu usei minhas modificações do Slackware por muitos anos antes de lançá-las formalmente como uma distribuição. Como eu considerava o Absolute uma simples modificação, eu o chamei de “Absolute Slackware”. Achei que seria pretensão chamá-lo de algo totalmente diferente.

Aí eu recebi um email do Patrick Volkerding sobre o assunto. Ele disse que alguns dos desenvolvedores do Slackware tinham visto o anúncio e avisado a ele que o nome infringia a marca comercial do Slackware. O nome, obviamente, levaria as pessoas a acreditarem que o Absolute havia sido sancionado e/ou desenvolvido pela equipe do Slackware, e não era o caso. Pelo visto, ao me esforçar para que o Absolute não parecesse ser mais do que realmente era, eu acabei causando a impressão errada. Obviamente, eu é que errei no nome original.

Depois que eu disse que ia mudar o nome, o Pat me escreveu de maneira casual. Ele até bateu um papo, disse que pelo que tinha lido no meu site nós estávamos em posições parecidas, trabalhando em casa e cuidando das crianças. E ficou nisso. Sou capaz de passar o dia inteiro falando do meu trabalho, mas não sou muito sociável na internet. Eu aceitaria de bom grado uma troca de idéias com a equipe do Slackware. Quem sabe se este artigo não age como um catalisador?

DW: Para onde você acha que o Linux de modo geral e o Absolute Linux vão seguir no futuro?

PS: O Linux certamente vai continuar crescendo. Eu acho que o maior crescimento a curto prazo ocorrerá nas escolas e nas corporações por dois motivos: custo e controle. Conforme mais profissionais de TI vão se interessando pelo Linux, os benefícios de um custo menor ou inexistente por unidade, somados à facilidade de separação das permissões de usuários e administradores de maneira clara tornam o Linux perfeito para funcionários e alunos. E eu fiz o Absolute, em grande parte, para essas pessoas. Eu acho que o Linux tem que se estabelecer primeiro no lado escolar/corporativo antes de se tornar realmente popular nos desktops domésticos. Sei que eu e meus companheiros geeks hippies de cabelo comprido do software livre costumamos achar que a liberdade é a chave para tudo, mas também temos que oferecer ao pessoal de TI em certos ambientes a capacidade de controlar facilmente os usos de suas máquinas. Às vezes, mais é menos. Depois que as pessoas se acostumarem com o Linux na escola e no trabalho, elas vão estar muito mais aptas a utilizá-lo em casa.

A curto prazo, o objetivo do Absolute é encontrar desenvolvedores. O Absolute agora tem seu próprio domínio e servidor FTP, que permite o upload anônimo via FTP para ftp.absolutelinux.org/incoming. Eu e os usuários queremos pacotes, sugestões e, acima de tudo, feedback. O Absolute melhorou MUITO depois que eu o coloquei online e passei a ouvir as opiniões dos usuários no fórum. Estou aberto a qualquer sugestão. Há coisa no Absolute das quais eu gosto muito, mas eu não sou casado com nada. Tirando a minha esposa – ainda bem que lembrei disso antes de terminar a resposta 🙂

DW: Obrigado pela atenção, Paul. Desejamos a você o mais absoluto sucesso no futuro!

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Absolute Linux 12.2 – desktop padrão com o IceWM

Créditos a Chris Smartdistrowatch.com
Tradução por Roberto Bechtlufft <roberto at bechtranslations.com>

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