Debian, a distribuição do século!

Debian, a distribuição do século!

No mercado existem diversas distribuições GNU/Linux, voltadas para os mais variados propósitos (e elas são tantas, que existem muitas as quais sequer sabemos direito para que servem). De todas elas, apenas um número reduzido chega ao nosso conhecimento, graças ao seu sucesso e empenho de seus desenvolvedores. Muitas, são comerciais; outras, criadas por organizações sem fim lucrativos, sem contar ainda aquelas distribuições “feitas por um homem só” (mas que na prática, é auxiliado por muitos colaboradores). No geral, só uma boa consulta ao site DistroWatch nos dará uma visão mais aprofundada, da imensa quantidade de distribuições. No entanto, nenhuma delas possuem particularidades tão impressionantes quanto o Debian…

Debian Lenny & GNOME.

À grosso modo, o Debian é uma distribuição GNU/Linux de proporções gigantescas, dada a grandeza do projeto e a enorme quantidade de colaboradores. Mas o sistema vai bem mais além disso: ele possui um caráter universal, por englobar um incrível repositório de pacotes, suportar uma variada quantidade de arquiteturas e – principalmente – por possuir um ciclo de desenvolvimento extremamente sólido, que estima pela qualidade, estabilidade, modularidade e funcionalidade do sistema. Por fim, o Debian é mais que um sistema operacional: é uma filosofia, baseada no Manifesto Debian o qual “ao invés de ser desenvolvido por uma ou um grupo isolado de pessoas, como outras distribuições de Linux foram, o Debian está sendo desenvolvida abertamente, no espírito do Linux e da GNU”.

Pois bem: não vou entrar em aspectos históricos da distribuição, bem como os demais aspectos técnicos (até porque existem inúmeros artigos disponíveis na Internet sobre o assunto). No entanto, se os leitores do GdH quiserem se aprofundar mais sobre o assunto, sugiro a leitura do livro “Linux, Guia Prático”, escrito pelo Carlos E. Morimoto.

Apesar da óbvia importância, as distribuições têm chamado a atenção de desenvolvedores. Há uma razão simples para isso: elas não são simples nem ‘legais’ de construir e requerem uma grande quantidade de esforço e tempo de seu criador para que ela mantenha-se livre de erros e sempre atualizada. Uma coisa é criar um sistema do ‘nada’. Outra coisa é ter certeza que o sistema é fácil dos outros instalarem, que funcionará com uma larga variedade de configurações de hardware, que conterá programas que serão úteis aos outros, e que será atualizado quando seus componentes são melhorados. Muitas distribuições começaram como sistemas muito bons, mas com o passar do tempo, a manutenção da distribuição recebe uma atenção secundária.” — [“Manifesto Debian”, por Wikipedia.org]

Embora não tenha os atrativos das distribuições comerciais – fortemente evidenciado no Manifesto Debian -, o Debian ganhou uma grande reputação de sistema operacional que “funciona de fato”, em virtude de sua postura conservadora em relação ao processo de desenvolvimento, que junto com o seu repositório de pacotes e as ferramentas de gerenciamento, foram os principais responsáveis por este grande sucesso. Para variar, a grande rede de suporte promovida pelos seus usuários – que testam pacotes, que resolvem problemas e reportam soluções, entre outras atividades -, tornaram o sistema confiável de tal maneira, que se tornou uma opção de peso para o uso em diversos propósitos especialmente críticos. Assim, o Debian se tornou uma grande referência de sistema GNU/Linux.

Diz uma velha máxima que, “quando uma ideia é realmente boa, todos copiam”. Pois bem: graças à sua reputação e infraestrutura, o Debian é o sistema operacional pelo qual mais existem distribuições derivadas! Ubuntu, Knoppix, Xandros, Mint, Siduz, entre muitas outras, são apenas as mais populares. Outras, como o JoliCloud, gNewSense e Chromium, são baseadas diretamente no Ubuntu, que por sua vez é uma das mais importantes derivada no Debian. Inclusive, através do Knoppix, muitos sistemas live-CDs baseados diretamente nele obtiveram grande popularidade, culminando com diversas outras distribuições derivadas, assim como foi com o finado Kurumin. No geral, a contabilização de todas as distribuições derivadas – direta ou não – , pode nos dar uma ideia do quanto o Debian é importante no cenário mundial das distribuições Linux.

Eis que na minha opinião, o grande legado do Debian é: embora não seja usado diretamente pela maioria dos linuxers, a existência de distribuições derivadas – especialmente o Ubuntu – tornaram o sistema operacional livre mais popular do planeta. E uma vez que a grande maioria destas derivações compartilham a maior parte de suas características – graças ao seu denominador comum -, a fragmentação da plataforma é drasticamente reduzida, facilitando bastante o desenvolvimento de soluções universais. Por exemplo, um software empacotado para o formato .deb terá grandes chances de funcionar sem problemas nas demais distribuições baseadas no Debian.

Embora a disponibilidade de opções interessantes seja saudável no universo do Software Livre, a existência de uma infinidade de distribuições GNU/Linux acaba trazendo um efeito indesejável: a fragmentação do sistema. Este processo consiste na criação de distribuições, que por serem tão diferentes, quase se tornam sistemas distintos (fragmentados). Estas diferenças e distinções trazem uma série de dificuldades para todo o ecossistema Linux, que vão desde a dificuldade de assimilação para a administração de diferentes distribuições a homologação de produtos e serviços para a plataforma. E como efeito negativo, os fabricantes deixam de produzir soluções personalizadas (no máximo, certificam apenas uma ou outra distribuição) e os usuários novatos não migram de outros sistemas para o Linux, entre outras consequências indesejáveis.

No entanto, se estas mesmas distribuições derivadas partirem de uma origem comum, teremos uma variedade interessante de sistemas com as suas particularidades, ao mesmo tempo em que mantém um certo “padrão”, atenuando assim a temida desfragmentação. Assim, o desenvolvimento de produtos e serviços passa a ser mais compatibilizado (desde que seja suportado pela distribuição de origem, certamente será suportado pelas derivadas), ao mesmo tempo que o processo de aprendizado de diferentes sistemas torna-se mais suave. No fim, todo o ecossistema formado em volta da distribuição origem acaba trazendo uma nova cultura de assimilação, o que facilitará em todos os aspectos, a integração e padronização deste ecossistema Linux.

Mas este não seria o papel da Linux Standard Base?

A Linux Standard Base, iniciada em 1998, foi projetada não apenas para impedir a fragmentação, mas permitir que os fabricantes da aplicação liberem uma única versão de software certificada ao funcionamento em toda a distribuição com conformidade LSB Linux. Para empresas, o sucesso do LSB deve significar a habilidade de mudar entre diferentes distribuições e levar todas de aplicações em conformidade com LSB junto sem nenhuma modificação necessária. — [“Linux Standard Base”, por Wikipedia.org].

Embora tenha sido desenvolvida para a finalidade acima, o LSB sofre inúmeras críticas devido ao fato de não ser imparcial, tendo os seus padrões & especificações moldados de acordo com os interesses de grupos e corporações. Só para citar o maior exemplo, na época de seu lançamento, o sistema de gerenciamento de pacotes escolhido foi o RPM (Red Hat Package Management) em detrimento do APT, por ser o mais popular numa época de pleno crescimento das distribuições red-likes (sistemas baseados na distribuição Red Hat ou que compartilham as suas características). Embora funcional, o RPM passou a existir bem depois do APT, sem considerar que este último é considerado tecnicamente superior e mais robusto.

Então, “quem” define os padrões, de fato? Não deveria ser os seus usuários?

Sendo uma distribuição livre e de desenvolvimento aberto, sem laços com governos, empresas e instituições, além de possuir um caráter universal e ser mantida por um numeroso grupo de voluntários (como já citado no início deste artigo), o Debian se tornou um terreno fértil para a manutenção de uma base comum, que pode dar ao ecossistema Linux, a tão sonhada padronização que muitos linuxers sonham. Exageros da minha parte? Talvez. Mas, das iniciativas, projetos, sistemas e regulamentações que surgiram desde então, quais delas vocês considerariam a mais promissora e/ou de maior alcance, neste sentido?

Eis porque, considero o Debian a distribuição do século! &;-D

Leia também: “Ubuntu, a porta de entrada para o Software Livre”.

Por Ednei Pacheco <ednei.pacheco [at]gmail.com>

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