O Blu-ray desembarcou de fato no Brasil em 2007, com o player Samsung BD-P1200 custando cerca de R$ 3.999 e exigindo TVs de alta definição que passavam fácil dos R$ 8.000. Entre guerra com o HD DVD, poucos títulos nacionais e fabricação local só em 2009, o formato virou objeto de desejo de nicho, não de massa.
Antes do Blu-ray: Brasil ainda “treinando” para a alta definição
Ao olhar para o mercado em 2006, quando o Blu-ray foi anunciado, o Brasil ainda estava dando os primeiros passos em alta definição, com TV digital prometida “para o fim do ano” e HDTV tratada como novidade cara em vitrines de shopping. Em janeiro de 2007 já era possível comprar TVs LCD ou plasma de 42 polegadas por cerca de R$ 3.500, enquanto modelos de ponta chegavam a R$ 39.999 em 52 polegadas Full HD da Sony. A maioria das telas vinha com selo HDTV ou “HDTV ready”, mas quase não havia conteúdo em alta definição disponível no país, o que transformava essas TVs em exibidoras de DVD em baixa resolução esticada.
Em 2006, o Hi-Fi Show em São Paulo já ensaiava o futuro ao colocar lado a lado demonstrações de HD DVD pela Semp Toshiba e Blu-ray pela Samsung, mas sem qualquer previsão oficial de lançamento para o consumidor brasileiro. O evento ainda era território de entusiastas, e a guerra de formatos parecia distante da sala de estar comum, com a própria organização admitindo que quem decidiria o vencedor seriam os grandes estúdios de cinema
HD DVD chega primeiro
Em fevereiro de 2007, a nova geração de DVD estreou no Brasil pela Semp Toshiba, com o primeiro player HD DVD a R$ 2.999 e foco em conexão direta à TV. Naquele momento, a Sony já vendia drive de Blu-ray no país, mas apenas para PCs, sem ainda um tocador de mesa voltado para a sala de estar. Na prática, quem quisesse alta definição em casa no começo de 2007 entrava no mundo HD DVD, mesmo com a guerra de formatos ainda em aberto e o fantasma Betamax x VHS pairando sobre a escolha.
A virada simbólica acontece em março de 2007, quando o Blu-ray chegou ao Brasil em forma de player de mesa com o Samsung BD-P1200, custando R$ 4.999.
A experiência Blu-ray no Brasil: qualidade absurda, catálogo frustrante
Ao longo de 2007, a experiência prática de usar Blu-ray no Brasil misturava demonstração de showroom com frustração de catálogo raso. Este teste da época da Folha de S.Paulo com o BD-P1200 destacava o salto de qualidade em relação ao DVD: As cores são reproduzidas com enorme nitidez, enquanto o brilho ajuda a conferir uma boa luminosidade. Detalhes como a textura de algumas superfícies são exibidos com uma fidelidade impressionante.
A capacidade de 25 GB (single layer) ou 50 GB (dual layer) por disco, contra 4,7 GB de um DVD comum, permitia mais dados de vídeo e áudio, convertidos em imagem mais limpa e som mais rico.
Diferente da lenda popular de que “Blu-ray sempre foi completo desde o início”, os primeiros títulos testados no Brasil, como “xXx” e “Stealth”, não ofereciam vários recursos prometidos pela especificação, sem ângulos alternativos de câmera, sem busca avançada por cenas ou atores, e com menus mais tímidos do que o marketing vendia.
Em compensação, recursos de navegação como avanço em múltiplas velocidades, câmera lenta quadro a quadro e marcação de trechos favoritos já mostravam que a experiência de uso ia além do DVD tradicional, embora ainda atingisse só quem topava investir em hardware muito caro.
Guerra global: o protagonismo do Blu-ray
Enquanto o consumidor brasileiro decidia entre pagar R$ 2.999 em um HD DVD ou R$ 3.999–4.999 em um Blu-ray, o cenário internacional já começava a pender claramente para o lado do formato apoiado pela Sony. No primeiro trimestre de 2007, 70% dos discos de alta definição vendidos nos EUA eram Blu-ray, contra 30% em HD DVD, com oito dos dez títulos mais vendidos no novo formato da Sony. Em março daquele ano, três em cada quatro DVDs de alta definição no mercado americano já eram Blu-ray, o que pressionava fabricantes e estúdios a apostar no padrão com maior apoio de Hollywood.
Na Europa, o movimento era ainda mais explícito: até novembro de 2007, o Blu-ray já respondia por 73% de todas as vendas de discos de alta definição, com mais de 1 milhão de unidades vendidas e vantagem clara sobre o HD DVD. Esses números, somados ao apoio exclusivo de gigantes como Sony, Disney e Fox, acabariam se refletindo nas decisões de licenciamento e catálogo.
Do luxo importado à fabricação nacional com qualidade duvidosa
Em 2007, montar um setup Blu-ray completo no Brasil significava somar TV de alta definição cara, player importado ou de primeira geração, e discos que custavam frequentemente entre R$ 100 e R$ 170, com muitos títulos sem legenda em português.
A consequência prática: o formato cresceu devagar, restrito a audiófilos, cinéfilos hardcore e entusiastas de home theater que já tinham feito a migração do VHS para o DVD e queriam “o próximo salto” em qualidade. Gravadoras como ST2 e Sony BMG apostaram em shows e concertos em alta definição, com pacotes de blu-rays musicais entre R$ 79,90 e R$ 99,90, reforçando o uso do formato como vitrine de som e imagem em sistemas caros.
2009 marca um ponto de inflexão com o anúncio da primeira fábrica de discos Blu-ray da Microservice na Zona Franca de Manaus, com investimento de R$ 10 milhões e capacidade planejada de 400 mil unidades por mês. Os primeiros discos nacionais chegaram às lojas em 2009 por cerca de R$ 70, ainda caros, mas com perspectiva de queda à medida que a escala aumentasse e que outras empresas, como Videolar e Sonopress, entrassem no mercado em 2010.
A Microservice, porém, carregava reputação controversa entre colecionadores desde os tempos do DVD. A empresa era conhecida por discos com impressão de baixa qualidade, superfície áspera ao toque, e pelo uso do estojo Scanavo multiuso de plástico fino, cuja “maior vantagem”, segundo o então diretor Isaac Hemsi, era “a redução do custo em embalagem e transporte”, economia que nunca chegava ao consumidor.
Casos como o Blu-ray de “Arraste-me Para o Inferno” lançado pela Universal viraram motivo de piada. Capa sem o título do filme na lombada, algo que passou despercebido por todo o controle de qualidade.
Em fóruns e blogs especializados, a Microservice era descrita como “disparadamente a mais desleixada” entre as replicadoras nacionais, com produtos de “mais baixa qualidade” e discos comparados a “lixa em forma de disco”.
Em janeiro de 2012, a Microservice se fundiu com a Videolar sob o nome AMZ Mídias Industriais, concentrando cerca de 70% do mercado nacional de replicação de mídias. A fusão tinha como objetivo liberar caixa para novos investimentos diante do declínio das mídias físicas.
O 3D
Ao longo de 2008 e 2009, o Blu-ray se encaixou num vácuo curioso do mercado brasileiro: TVs de alta definição vendiam bem, mas a TV digital aberta e por assinatura não entregava conteúdo HD na mesma velocidade. Fabricantes como Microservice apontavam justamente para essa falta de programação em alta definição como oportunidade para que discos Blu-ray preenchessem a prateleira das locadoras e justificassem o investimento em HDTV. O argumento era simples e direto: com até 50 GB por disco, um Blu-ray podia armazenar nove horas de programação em qualidade muito superior à de um DVD, algo impossível de replicar em transmissão aberta naquele período.
Em 2010, a chegada das primeiras TVs 3D da LG ao Brasil, com preços a partir de R$ 7.000 e chegando a R$ 15.000, consolidou o Blu-ray como produto ultra premium para da sala de estar high-end. As próprias fabricantes recomendavam essas telas 3D para uso com conteúdo Blu-ray e games, amarrando a percepção de que quem queria ver o máximo que a TV podia entregar precisava de um player Blu-ray dedicado, discos originais e um sistema de som multicanal adequado
Não deixe de conferir também a nossa outra reportagem especial sobre os 20 anos do Blu-Ray em que detalhamos como foi a guerra dos formatos contra o HD DVD, e comos Sony, com o PS3, e o apoio da Warner, foram fundamentais para que esse formato fosse o vencedor na disputada contra a Toshiba.