Blu-ray completa 20 anos: relembre a batalha bilionária que a Sony venceu graças ao PS3 e a Warner

Entre 2006 e 2008, Blu-ray e HD DVD travaram uma guerra de formatos que custou à Toshiba US$ 986 milhões. O PlayStation 3 foi o “cavalo de Troia da Sony”: cada console vendido colocava um player Blu-ray nas casas. Quando Warner Bros anunciou exclusividade Blu-ray em janeiro de 2008, a guerra acabou!

A aliança em torno da alta definição

Em janeiro de 2006, durante a CES daquele ano, Sony, Panasonic, Pioneer e Samsung anunciavam oficialmente o Blu-ray para o público e a imprensa especializada. Mas poucos lembram que aquele formato quase perdeu antes mesmo de começar. De 2006 a 2008, travou-se uma guerra corporativa brutal que lembra VHS vs Betamax.

De um lado, Sony, Panasonic, Philips e cinco estúdios de Hollywood (incluindo Fox, Disney e Sony Pictures) apostando no Blu-ray. Do outro, Toshiba, Microsoft, Intel e três estúdios (Universal, Paramount e DreamWorks) empurrando HD DVD. Ambos usavam laser azul-violeta de 405nm. Ambos prometiam alta definição, mas apenas um sobreviveria.

O Blu-ray oferecia 25-50 GB por disco; HD DVD entregava 15-30 GB. Mas capacidade não vence guerras sozinha. O que decidiu foi uma jogada estratégica da Sony em colocar um drive Blu-ray no PlayStation 3, mas antes disso precisamos relembrar como a Blockbuster ajudou a jogar o HD DVD ao vale da morte.

Blockbuster escolhe Um Lado

Em 17 de junho de 2007 a Blockbuster, maior locadora de vídeos dos Estados Unidos na época, fez um anúncio que mudou tudo. Após testar ambos os formatos em 250 lojas, a empresa descobriu que 70% das locações de alta definição eram Blu-ray.

A decisão foi pragmática: a Blockbuster anunciou que passaria a estocar apenas títulos Blu-ray em suas 1.450 lojas nos EUA (exceto 250 que continuariam oferecendo ambos). Matthew Smith, vice-presidente da Blockbuster, foi direto ao ponto: “Os consumidores estão votando com suas carteiras”.

A Toshiba minimizou o impacto, argumentando que a maioria dos americanos comprava discos em lojas de varejo, não locadoras. Mas o estrago estava feito. A percepção de mercado havia virado.

“O cavalo de troia de US$ 600”

Em 17 de novembro de 2006, o PlayStation 3 chegou ao mercado americano custando US$ 499 (versão 20GB) e US$ 599 (versão 60GB) — preços absurdos para um videogame. Analistas previam desastre para a Sony, a própria empresa sabia que o cenário era amedrontador.

Mas aqueles até US$ 599 cobrados pelo console incluíam algo que ninguém da concorrência tinha: um player Blu-ray completo. Na época, players Blu-ray standalone custavam US$ 1.000, já os players HD DVD saiam por US$ 499. A diferença de preço era uma vantagem inicial da Toshiba, até o PS3 entrar na equação.

A aposta gerou críticas. Michael Goodman, analista do Yankee Group, foi direto: “O Blu-ray aumenta o preço do produto em entre US$ 150 e US$ 200. Eles criaram algo que não se destina ao mercado atual. O drive não cria mercado; apenas torna o preço do produto mais alto”.

Entre outubro e novembro de 2006, a Cymfony analisou quase 18 mil posts em blogs, fóruns e sites de resenhas. O resultado foi brutal: havia 46% mais referências positivas ao HD DVD do que ao Blu-ray. Jim Nail, porta-voz da empresa, resumiu: “As menções negativas ao Blu-ray indicam falta de confiança dos consumidores quanto à Sony, bem como o desagrado dos compradores quanto à ideia de que o Blu-ray esteja sendo vendido como parte do PS3”.

John Davison, diretor editorial da 1Up Network (rede com 13 milhões de usuários na época), foi mais cético: “O PS3 viverá ou morrerá de acordo com os jogos. O fato de ter um drive de Blu-ray é um bônus, e não é por isso que as pessoas compram ele”. A comunidade gamer via o Blu-ray como bagagem indesejada que encarecia o console.

Trabalhando na alteração da narrativa

Mas a Sony não recuou. Todo PS3 lançado na América do Norte vinha com um disco Blu-ray de demonstração chamado “Welcome to PlayStation 3 and PlayStation Network”. Não era um jogo. Era propaganda pura: trailers de jogos, demonstração da PlayStation Network, e crucialmente, trailers de filmes em Blu-ray mostrando capacidades de alta definição. A mensagem era cristalina: você não comprou só um videogame, comprou uma central de entretenimento em alta definição

O disco incluía seções dedicadas a “fotos, música, vídeo e games” e mostrava filmes como exemplo de uso. Era um tutorial disfarçado de marketing, ensinando gamers a usar o PS3 como media center. Funcionou melhor do que qualquer campanha publicitária tradicional.

Diferente da lenda popular de que “ninguém comprava filmes Blu-ray”, os números contam outra história. Em fevereiro de 2007, a Sony anunciava que títulos Blu-ray vendiam 2 para 1 contra HD DVD nos EUA, e 3 ou 4 para 1 na Europa.

Quando o PS3 chegou à Europa em março de 2007, as vendas de filmes Blu-ray aumentaram 1.000% em relação ao mês anterior. Alguns fabricantes de filmes chegaram a incluir demos de jogos PS3 em discos Blu-ray de filmes. Distrito 9, por exemplo, vinha com demo de God of War.

Havia um precedente histórico que a Sony apostava: o PlayStation 2 havia feito o mesmo pelo DVD. Lançado três anos após o DVD chegar ao mercado, o PS2 ajudou a massificar o formato. Com mais de 106 milhões de unidades vendidas até 2006, o PS2 provara que consoles podiam mover formatos de mídia. “Acreditamos que o mesmo acontecerá com o PS3 e o Blu-ray”, disse Bob Parsons, executivo da Sony na época.

Em 2000, DVD já estava ganhando. Em 2006, Blu-ray estava empatado ou perdendo nas pesquisas de opinião. A Sony não estava empurrando um vencedor, estava tentando criar um vencedor.

O último prego: Warner Bros e os tais US$ 250 Milhões

Em 4 de janeiro de 2008, véspera da CES em Las Vegas. O anúncio chegou como uma bomba: Warner Bros, o maior estúdio de Hollywood, declarava exclusividade ao Blu-ray a partir de junho de 2008.

Até então, Warner era neutra, lançava títulos em ambos os formatos. Sua biblioteca incluía franquias gigantes como Harry Potter, Matrix e Batman. Perder Warner significava perder uma fatia expressiva do catálogo para o HD DVD.

Barry Meyer, CEO da Warner, justificou: “A janela de oportunidade para DVD de alta definição pode ser perdida se a confusão de formatos continuar”. Mas rumores na indústria contavam outra história. A jornalista Nikki Finke reportou que a Sony teria pago cerca de US$ 250 milhões à Warner pela exclusividade. Nunca foi confirmado oficialmente, mas executivos da época deram a entender que valores “substanciais” estavam envolvidos.

A Toshiba cancelou sua apresentação na CES, marcada para dias depois. A empresa tentou uma última cartada desesperada: cortou preços de players HD DVD em 40-50%. Alguns modelos que custavam US$ 499 caíram para US$ 199.

19 de Fevereiro de 2008: A rendição

A Toshiba convocou uma coletiva de imprensa em Tóquio no dia 19 de fevereiro de 2008. Atsutoshi Nishida, presidente da empresa, anunciou formalmente: “Toshiba vai descontinuar o desenvolvimento, fabricação e marketing de players e gravadores HD DVD”.

A declaração oficial citava “mudanças recentes no mercado”. Nishida foi mais honesto em entrevista: “Quando Warner tomou sua decisão, basicamente acabou. Se tivéssemos continuado, criaríamos problemas para os consumidores — e simplesmente não tínhamos chance de vencer”.

A produção seria interrompida até o final de março de 2008. Walmart e Netflix anunciaram nos dias seguintes que venderiam e alugariam apenas Blu-ray. Universal Studios, último bastião do HD DVD, declarou que “focaria” em Blu-ray.

A guerra havia durado 25 meses. Custou aos cofres da Toshiba aproximadamente US$ 986 milhões. Milhares de consumidores que compraram players HD DVD ficaram com hardware obsoleto. O revés de mais uma guerra de formatos.

E o 3D?

Dez anos após o anúncio original do Blu-ray, chegava o UHD Blu-ray 4K. Mas antes disso, houve um lançamento que muitos nem lembram mais: o Blu-ray 3D, lançado em 2010 surfando na onda de “Avatar”.

Durou apenas 6-7 anos. TVs 3D custavam 30-50% mais caro, exigiam óculos especiais caros, e cansavam a vista. Fabricantes descontinuaram TVs 3D entre 2016-2017. Consumidores escolheram 4K sem óculos, e tridimensionalidade, ao invés de 3D com óculos. O UHD Blu-ray aprendeu, focou em resolução, HDR e wide color gamut, tecnologias que funcionam sem acessórios.

Blu-ray nunca esteve perto de encostar no DVD

O Blu-ray nunca se tornou o padrão absoluto que o DVD foi. E os números de 2025 revelam uma ironia cruel: o formato que venceu a guerra está sendo “prensado” pelo DVD e seu sucessor direto, o UHD Blu Ray.

Em junho de 2023, entre os 50 discos mais vendidos nos EUA, a divisão era:

  • DVD: 39,1%

  • Blu-ray (1080p): 40,7%

  • UHD Blu-ray 4K: 20,2%

Avançando para dezembro de 2025 temos o seguinte cenário:

  • DVD: 55,1% (+16 pontos)

  • Blu-ray (1080p): 22,6% (-18,1 pontos)

  • UHD Blu-ray 4K: 22,3% (+2,1 pontos)

Entre 2023 e 2025, o Blu-ray 1080p perdeu quase metade do market share. O DVD segue como a opção mais barata, e o UHD 4K virou escolha premium para cinéfilos dispostos um valor bem considerável por uma mídia, ainda mais no Brasil, em que a distribuição é bem limitada e os preços não são nada convidativos . O Blu-ray 1080p ficou espremido no meio: caro demais para quem quer economia, qualidade de menos para quem busca referência.

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Esta postagem foi modificada pela última vez em 05/01/2026 13:17

William R. Plaza: Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br