A Apple vai embarcar na onda da web?

A Apple vai embarcar na onda da web?

Will Apple Embrace the Web? No.

Autor original: Kroc Camen

Publicado originalmente no: osnews.com

Tradução: Roberto Bechtlufft

Já faz algum tempo que quero escrever este artigo, e quanto mais eu adiava, mais incisiva a opinião que eu queria expressar se tornava, e as notícias que iam surgindo davam ainda mais corpo ao meu ponto de vista. Quando comecei a escrever este artigo, o iPad ainda não havia sido revelado, o iPhone OS 4 nem estava no mapa e a Apple ainda não havia adquirido a Lala. Você provavelmente notou que todos esses eventos, na verdade, indicam que a Apple estaria embarcando cada vez mais na onda da web, e neste artigo vou explicar por que não é esse o caso, e por que eu acredito que as intenções da Apple sejam semelhantes a outras intenções que já vimos recentemente.

A Apple mantém um dos mais usados mecanismos de renderização de páginas da web, o WebKit. Ele está em toda a parte: em navegadores para desktops no Windows, no Mac, no Linux e até no Haiku, no Amiga e em sistemas móveis (na forma do Android, do WebOS e do iPhone OS). Ele se mostrou altamente portável e desejável para novos projetos de navegadores web interessados em oferecer uma experiência web plenamente funcional, sem a necessidade de começar do nada. O WebKit tornou viáveis, praticamente sozinho, novas plataformas móveis e sistemas operacionais alternativos. O Gecko está passando por maus bocados nessa área, e o Internet Explorer não oferece nem recursos nem portabilidade para competir.

A decisão técnica e movida pela emoção de não permitir plugins no iPhone e no iPad jogou os desenvolvedores no fogo e, ao mesmo tempo, iluminou o caminho do HTML5. Até o momento, o iPad foi quem mais atraiu a atenção do público para o HTML5. Antes dele, o HTML5 era uma ideia distante, sem usos práticos ou bons motivos para adoção. Agora ele é o assunto do momento, e tem gente falando nele sem se preocupar muito em ser preciso.

Do meu ponto de vista, como desenvolvedor web que desde 2008 levanta a bandeira do HTML5, acho que a Apple fez muito para levar a web adiante e emplacar esse movimento na mente de corporações lentas e indispostas. Só que há uma diferença fundamental entre a forma como a Apple conduz a web e a forma como a Mozilla o faz – a Mozilla teve êxito ao quebrar um mercado estagnado, agitando-o novamente.

Lembram de quando saiu o Internet Explorer 6? Ele era o navegador com maior conformidade com os padrões. O Netscape havia se perdido, e o abandono do Netscape 5 em prol de uma reescrita mostrou que o trôpego Netscape 4.7 estava em óbvia desvantagem diante do Internet Explorer. Sem falar que o IE havia conquistado uma sólida fatia de mercado e desenvolvedores desde o lançamento (e subsequente empacotamento com o Windows) do IE4, anos antes. No começo, a vida com o IE6 era boa.

O plano de negócios da Microsoft era o de oferecer o IE sem a intenção de lucrar, para atingir dois objetivos:

  1. Aumentar a dependência dos desenvolvedores, vinculando a web ao Windows, aumentando as vendas de seu sistema operacional a longo prazo (e a estratégia foi tão bem sucedida que até hoje sentimos seus efeitos);

  2. Vender mais cópias do Visual Studio para que os desenvolvedores tirassem proveito do ActiveX, que oferecia tudo o que o HTML não podia oferecer.

A web chegou onde chegou em 2003, com 99% de uso do IE, porque ela não era um negócio para a Microsoft. Para a Microsoft, a web não era para gerar dinheiro. A web só vendia cópias do Windows e do Visual Studio e mais nada. Isso ficou evidente com a total e completa falta de grandes atualizações para o IE6 por cinco anos. E hoje, a adoção do HTML5 pelos navegadores segue em alta velocidade.

O que aconteceu com o IE é típico de uma empresa que assume a liderança em um mercado que não é o foco de seus negócios, especialmente quando esse mercado ameaça tornar obsoleto o verdadeiro foco da empresa. A Microsoft tinha que matar a inovação nos navegadores, ou isso afetaria diretamente as vendas do Windows e do Visual Studio, com as pessoas podendo usar o sistema operacional e as ferramentas de desenvolvimento que quisessem para participar da web.

Estão seguindo o meu raciocínio?

Estou prestes a fazer uma declaração que vai permanecer controversa por anos, e Gruber, se você estiver lendo isto, pode marcar como uma daquelas previsões que parecem sensatas mas estão terrivelmente equivocadas.

O Safari vai ser o próximo IE6.

A web não é o negócio da Apple. A web vende iPhones e iPads, e iPhones e iPads vendem Macs para que os desenvolvedores usem o XCode para desenvolver aplicativos nativos – já que os aplicativos nativos oferecem aquilo que a web não pode oferecer. E se não houver fiscalização nessa web, ela pode acabar com a necessidade de se estar vinculado a iPhones e iPads e Macs e XCode e à App Store. Se a web fizer tudo o que aplicativos nativos fazem, por que você compraria um Mac para criar código no XCode e ficar restrito à abordagem dura da App Store no suporte ao cliente e aos mandos e desmandos da Apple quanto ao que seja ou não aceitável?

Como a web poderia contar com as capacidades de aplicativos nativos? Essa tecnologia não está tão longe assim!

pNaCl (Portable Native Client, ou cliente nativo portátil)

A tecnologia Native Client do Google oferece uma maneira de se distribuir binários a computadores via navegador web. Velocidade e capacidades nativas, sem o processo de baixar, instalar e rodar. No momento só há suporte a x86 e x64, mas o Google está preparando um projeto para uso do LLVM, de modo que o desenvolvedor possa mandar o bytecode para ser compilado ou executado via JIT nativamente. O que isso significa? Que se você estiver usando x86, x64, ARM, MIPS, PPC ou o que quer que seja, o desenvolvedor vai poder te mandar um aplicativo pela web que rode com velocidade nativa, seja qual for o sistema operacional, a plataforma, o dispositivo ou a arquitetura.

Como isso afetaria a Apple?

O pNaCl, assim como a web, flexibiliza a escolha da plataforma, e resolve os problemas de velocidade com HTML/JS. Se um desenvolvedor puder criar um jogo uma vez e rodá-lo em qualquer navegador habilitado para pNaCl, que motivo esse desenvolvedor teria para comprar um Mac, usar o XCode e o Objective-C para focar-se apenas no iPhone? Que motivos o usuário teria para se ater a uma marca de dispositivo ou plataforma, se seus aplicativos favoritos funcionassem em qualquer dispositivo?

Como a Apple poderia impedir isso?

Do mesmo jeito que fez com o Flash. Basta recusar-se a implementar o PNaCl. Se o iPhone e o iPad não derem suporte ao pNaCl, os desenvolvedores vão ter que continuar usando a App Store. Em sua defesa, a Apple pode dizer que o pNaCl não é seguro, pois ele permite que qualquer URL execute um binário (só para constar, ele roda em uma sandbox) e apenas a App Store oferece a segurança do sistema de seleção de itens que vai manter seus filhos seguros.

APIs de Dispositivos da W3C

As APIs de Dispositivos da W3C oferecem um jeito de fazer com que o HTML e o JavaScript acessem hardware como webcams e microfones. A web já oferece a geolocalização, e essas APIs levam as coisas ainda além, permitindo o surgimento de novos tipos de aplicativos web inovadores, que até então só podiam ser feitos em Flash ou na forma de aplicativos nativos. Não ter que baixar e instalar nada, nem se preocupar com a compatibilidade da plataforma, é algo que vai garantir que a migração desse tipo de funcionalidade para a web seja uma boa ideia.

Como isso afetaria a Apple?

Isso também dá aos aplicativos web mais funcionalidade nativa, com suporte multiplataforma que não ajuda a vender iPhones e Macs. Basta fazer login em uma página da web em qualquer computador para começar uma chamada de vídeo com alguém. Bem melhor do que ter que instalar o Skype.

Como a Apple poderia impedir isso?

Enchendo o saco dos usuários e desenvolvedores em nome da privacidade e da segurança. Sem dúvida, é difícil acertar nos setores de privacidade e segurança com dispositivos na web. Conceder a URLs não confiáveis o acesso a seus recursos exige uma segurança sensata e gerenciável, que impeça as coisas de darem errado e permita a você lidar com isso, caso aconteça.

A Apple só precisa se recusar a implementar novos recursos web (como o acesso à webcam, aos contatos ou aos calendários locais) em nome da segurança e da privacidade, ou bombardear o usuário com perguntas sobre permissões sempre que ele visitar sites com esses recursos, com o objetivo de assustá-lo. Os desenvolvedores vão preferir oferecer aplicativos nativos para evitar essas barreiras adicionais e desencorajadoras para seus usuários.

Essencialmente, desde que o iPhone e o iPad consigam manter sua atratividade, o suporte dos desenvolvedores e uma fatia de mercado digna de nota, a Apple poderá moldar o mínimo denominador comum para a web (mesmo que esse mínimo seja altíssimo, como o melhor suporte a HTML5 e CSS3), assim como o Internet Explorer foi e continua sendo em grande parte o mínimo denominador comum para a web como a vemos através de computadores desktop.

É por essa razão que a Apple e o Google são concorrentes. O Google exige que as pessoas usem a web para tudo que fazem, para alimentar o seu negócio principal: anúncios. A criação do Chrome pelo Google não vai contra seus interesses comerciais – pelo contrário. O Android existe porque o Google quer que mais gente use smart phones, para que obtenham acesso à web e para que o Google possa fazer mais propaganda neles. O modelo de negócios do Google significa que é preciso manter a saúde da competição e do progresso dos navegadores caso uma empresa obtenha a chave para a web e interrompa todo o progresso, como a Microsoft fez com o IE. Uma web parada estimula os aplicativos nativos e corta o barato do Google. A Apple quer que os aplicativos nativos continuem sendo nativos, e a web um peculiar navegador centrado em documentos que nunca oferecerá uma experiência tão refinada quanto a oferecida pelos itens da App Store.

O que a Apple quer é que, para desenvolver o melhor conteúdo para os usuários, você tenha que comprar um Mac e usar o XCode para desenvolver aplicativos nativos em Cocoa para a App Store. A Microsoft queria que, para desenvolver o melhor conteúdo para os usuários, você tivesse que comprar um PC com o Windows e usasse o Visual Studio para desenvolver controles ActiveX para o Internet Explorer.

Mas a Microsoft teve êxito! Há um monopólio de 99% do IE na Coreia do Sul. Leia o artigo e você vai ver como uma monocultura de navegadores é ruim para os consumidores. Embora eu não acredite que um dia teremos um monopólio do Safari como foi o do IE, eu posso acreditar que o iPhone OS e a App Store pretendam ser monopólios de desenvolvedores, onde empresas como a EA (que não gostam muito de desenvolvimento multiplataforma) só irão desenvolver para o iPhone OS, e os consumidores serão atraídos em massa para a plataforma, porque o conteúdo mais atraente estará lá. Um círculo vicioso de oferta e demanda.

Vamos voltar aos eventos que eu mencionei no começo. Eu já falei sobre como o iPhone e o iPad, apesar de oferecerem uma ótima experiência na web, podem ser seletivos quanto aos futuros rumos da web. E quando aos serviços online da Apple, como o Mobile Me e a compra do serviço de streaming Lala? Eles não representam a adesão ao modo web de se fazer as coisas.

O iTunes, como nós sabemos, é uma ferida aberta. A Apple foi de novata nesse mercado (e talvez de primeira fonte legal de músicas disponível para o usuário) à completa dominação. Desde o começo o objetivo dela era esse, e a Apple mostrou um foco matador nessa área. O iTunes cresceu, e passou a incorporar muito mais do que apenas música. O nome “iTunes” (“tunes” significa músicas em inglês) passou a ser inadequado. É um aplicativo monolítico que tenta manter tudo sob o mesmo teto, como o único ponto de interface entre seu PC, seu iPhone e seu iPad. Tanto é que quando a Apple tenta embutir sincronização de documentos nele, os remendos começam a aparecer, porque o design do iTunes está sendo “esticado” demais.

O iTunes é um jardim cercado por muros que abriga a sua mídia, e só há um portão por onde o conteúdo pode sair para o iPhone e o iPad, e mais uma vez, a Apple precisa manter as coisas desse jeito para garantir que sua mídia continue no iTunes, onde ela pode fica de olho nela e onde a Apple pode fazer alterações sem a aprovação ou a compatibilidade com outras empresas.

Até agora, o que a Apple fez com a Lala? Fez pequenos orifícios para se espiar através do muro e gerou spam para SEO (o link leva para um ótimo álbum altamente recomendado). Não dá para comprar nada nessa página. Ela só existe para você baixar e instalar o iTunes. Ela é inerentemente incompatível com a web em uma ampla variedade de plataformas, como telefones celulares e TVs.

Se a Apple criar algum tipo de serviço de streaming, será outro jardim cercado por outro muro. Seu stream tem que ser feito seguindo os nossos termos, nós temos que autorizar o conteúdo, autorizar os dispositivos que vão recebê-lo (H.264) e gostaríamos muito de coletar alguns dados sobre você. Não consigo visualizar a Apple criando um serviço que não exija hardware da Apple para a loja iTunes. Ele até pode funcionar em outros navegadores e dispositivos, mas seu único propósito será o de direcioná-lo para o iTunes. O streaming é um ponto que não traz lucros, e só serve para prender o usuário ao iTunes.

E o Mobile Me? A Netscape tentou emplacar um navegador pago quando a situação começou a mudar. Quando você não podia mais pagar pelo navegador, eles tentaram manter as coisas com um servidor. Mas não havia como prender o cliente aos dois produtos. Um servidor é uma tecnologia agnóstica por natureza, não dá para vinculá-lo exclusivamente ao seu navegador. A tentativa de cobrar pelo Mobile Me é uma tentativa da Apple de se agarrar a um modelo antigo. Ela está sendo ultrapassada por empresas que são melhores na web, e que contam com produtos melhores. Só o que restou para ela foi vincular o MobileMe ao iPhone OS, como único navegador realmente capaz de se integrar a ele. Eu me pergunto quanto tempo isso vai durar.

Espero estar errado, mas algo me diz que o Safari vai ser o próximo IE6. Não que ele vá ficar tão ultrapassado quanto o IE, ou que vá atingir 99%, mas sim no sentido de que ele será o elefante que só vai se mover para um único homem: Steve Jobs.

Créditos a Kroc Camenosnews.com

Tradução por Roberto Bechtlufft <info at bechtranslations.com.br>

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