Do aluguel de DVDs à compra da Warner: 7 momentos importantes da história da Netflix

A Netflix anunciou nesta sexta-feira, 5 de dezembro, um acordo de US$ 82,7 bilhões para comprar a Warner Bros. Discovery. É o mais recente capítulo de uma trajetória que começou há 28 anos com DVDs pelo correio e chegou ao topo da indústria do entretenimento.

 

Para entender como a empresa de Scotts Valley, na Califórnia, se transformou em um gigante capaz de engolir um dos maiores estúdios de Hollywood, reunimos seis marcos decisivos dessa história.

Netflix: 7 momentos decisivos

Ano Evento Destaques
1997-98 Fundação no auge do DVD DVDs leves viabilizam envio pelo correio; catálogo inicial de 925 títulos; assinatura ilimitada sem multas; serviço durou até 2023
2000 Blockbuster recusa US$ 50 mi Reunião em Dallas; executivos riem da proposta; Blockbuster faliu em 2014 com 9.000 lojas
2002 IPO na Nasdaq US$ 15/ação; 1M assinantes (2003) → 5,6M (2006) → 14M (2010)
2007 Lançamento do streaming “Watch Now” em jan/07; 1.000 títulos iniciais;
2011 Chegada ao Brasil R$ 14,99/mês; Netflix no PS2 via DVD especial (exclusivo BR); 43 países da América Latina
2013 House of Cards Primeira produção original da Netflix, 13 episódios de uma vez; US$ 100M de orçamento; origem do “binge watching”
2025 Compra da Warner US$ 82,7 bi; inclui HBO Max + estúdios WB; fechamento previsto Q3/2026​

1997-1998: O começo

Reed Hastings e Marc Randolph fundaram a Netflix em agosto de 1997, durante conversas nos deslocamentos diários entre Santa Cruz e o Vale do Silício. Eles testaram diversos conceitos de e-commerce antes de apostar nos DVDs — um formato que estava explodindo no mercado e permitia envio pelo correio. O timing foi essencial: com fitas VHS, o negócio seria inviável pelo peso e custo do envio, mas os DVDs eram leves, compactos e resistentes o suficiente para o correio.

A empresa começou a operar em abril de 1998 com um catálogo de 925 títulos, quase tudo o que estava disponível em DVD na época. O modelo inicial cobrava US$ 4 por filme mais taxas de envio, mas logo evoluiu para uma assinatura mensal ilimitada sem multas por atraso. Mesmo após a migração para o streaming, a Netflix manteve o serviço de DVDs pelo correio por 25 anos, encerrando-o apenas em setembro de 2023.

2000: Blockbuster recusa comprar a Netflix por US$ 50 milhões

Em 2000, Hastings e Randolph entraram na sala de reuniões do 27º andar da Renaissance Tower em Dallas para encontrar os executivos da Blockbuster. Foram seis meses de tentativas apenas para conseguir a atenção do CEO John Antioco. A proposta era direta: a Blockbuster compraria a Netflix por US$ 50 milhões e usaria a tecnologia para expandir seu negócio online. Os executivos da Blockbuster literalmente riram da oferta.

“Quando me deitei naquela noite e fechei os olhos, visualizei todos os 60 mil funcionários da Blockbuster explodindo em gargalhadas”, lembrou Hastings anos depois. Na época, a gigante das locadoras tinha mais de 9.000 lojas pelo mundo e faturava bilhões — muito além dos modestos 300 mil assinantes da Netflix. A Blockbuster tentou reagir em 2004 com seu próprio serviço de correspondência, mas já era tarde: perdeu US$ 984 milhões naquele ano, entrou em recuperação judicial em 2010 e encerrou as operações em 2014.

2002: Abertura de capital e crescimento exponencial

A Netflix abriu capital na Nasdaq em maio de 2002, a US$ 15 por ação (ou US$ 1,21 ajustado para desdobramentos posteriores). O IPO aconteceu dois anos após a humilhação em Dallas e representou uma virada estratégica: em vez de ser comprada, a Netflix captou recursos no mercado para crescer sozinha.

Naquela época, o negócio era 100% aluguel de DVDs por assinatura, o streaming ainda era tecnicamente inviável pela velocidade limitada da internet banda larga. A abertura de capital injetou capital para expansão do catálogo e logística: a empresa alcançou 1 milhão de assinantes em 2003, pulou para 5,6 milhões em 2006 e chegou a 14 milhões em 2010.

A estratégia de crescimento agressivo funcionou: enquanto a Blockbuster dependia de milhares de lojas físicas e funcionários, a Netflix escalava seu modelo de correio com custos muito menores por cliente.

2007: Nasce o streaming

O streaming da Netflix estreou em 16 de janeiro de 2007 como “Watch Now”, um recurso experimental acessível só por navegadores como Internet Explorer.

Inicialmente, oferecia apenas 1.000 títulos — 1% do catálogo de 70 mil DVDs —, exigindo conexão mínima de 1 Mbps (3 Mbps para qualidade DVD), algo raro na época quando a banda larga ainda engatinhava nos EUA.

A expansão foi gradual, chegando a todos os assinantes só em junho, enquanto a empresa enviava 1,6 milhão de DVDs por dia e atingiu 1 bilhão de discos enviados em fevereiro (um exemplar de Babel para um cliente no Texas). Reed Hastings investiu US$ 40 milhões em infraestrutura, canibalizando receitas do DVD para licenciar conteúdo digital a 10x o custo, apostando num futuro que ninguém pedia ainda. O risco valeu: receita saltou 21% para US$ 997 milhões, com 7,48 milhões de assinantes e lucro crescendo 36%.

2011: Expansão internacional começa pelo Brasil

A Netflix iniciou sua expansão global em 2010 com o Canadá, mas em setembro de 2011 chegou ao Brasil e outros 42 países da América Latina simultaneamente. Reed Hastings veio pessoalmente anunciar o serviço no Brasil, que custava R$ 14,99 mensais. O catálogo inicial era limitado, mas a proposta de acesso ilimitado por um preço fixo conquistou rapidamente o mercado brasileiro.

Um dado curioso dessa época é que, apesar do PlayStation 2 não ter suporte para download de aplicativos, a Netflix estava disponível na plataforma no Brasil. Entre 2009 e 2012, os brasileiros puderam acessar a Netflix no PS2 por meio de um DVD especial, que conectava o console à internet para o streaming de filmes e séries. Essa funcionalidade era exclusiva do Brasil — outras regiões não tiveram essa experiência. A presença em dispositivos variados, que hoje inclui smartphones e smart TVs, já começava a ganhar forma por aqui com iniciativas inovadoras como essa.

2013: House of Cards inaugura a era do conteúdo original

Em fevereiro de 2013, a Netflix lançou os 13 episódios da primeira temporada de House of Cards simultaneamente, inaugurando um modelo revolucionário de consumo “binge watching” — a possibilidade de assistir uma temporada inteira de uma só vez. Produzida com um orçamento estimado em US$ 100 milhões, a série foi a primeira grande aposta da Netflix como produtora, afastando-se da simples distribuição de conteúdo licenciado. Esse movimento estratégico reduziu drasticamente a dependência de estúdios tradicionais e permitiu que a Netflix controlasse totalmente os direitos das produções, gerando valor exclusivo para seus assinantes.

Além de impulsionar o crescimento global da plataforma, House of Cards serviu como laboratório para testar novos formatos de narrativa, distribuição e marketing digital, mudando para sempre a indústria audiovisual. A ousadia da Netflix com originais consecutivamente consagrados abriu caminho para um catálogo vasto e diversificado, fortalecendo sua posição competitiva e definindo um padrão para o streaming nos anos seguintes.

2025: Netflix compra a Warner Bros. Discovery

Nesta sexta-feira, 5 de dezembro de 2025, a Netflix anunciou a aquisição da divisão de estúdios e streaming da Warner Bros. Discovery por US$ 82,7 bilhões, incluindo dívidas, em um dos maiores negócios da história do entretenimento. A oferta de US$ 27,75 por ação (US$ 23,25 em dinheiro e US$ 4,50 em ações da Netflix) superou rivais como Paramount e Comcast após três rodadas de lances, consolidando a posição da Netflix como a maior força global no setor.

A aquisição inclui não só os estúdios de cinema e TV da Warner Bros., mas também as plataformas de streaming HBO Max e HBO, agregando um vasto catálogo de conteúdo original, franquias icônicas e propriedades intelectuais que fortalecem a oferta da Netflix. Esse movimento traz ganhos estratégicos essenciais: aumento dramático do poder de barganha da Netflix frente a fabricantes de dispositivos e provedores de conteúdo, potencial expansão da base de assinantes graças a pacotes combinados e maior controle sobre a cadeia de produção e distribuição audiovisual.

Além disso, ao incorporar o catálogo da Warner e suas novas produções, a Netflix poderá ampliar significativamente sua produção de conteúdo original, oferecendo uma diversidade e volume capazes de competir com qualquer outro serviço, mesmo diante do crescimento acelerado de concorrentes globais como Disney+, Amazon Prime e Apple TV+. A compra deixa clara a aposta da Netflix em se transformar não só em plataforma de streaming, mas num estúdio audiovisual completo, capaz de ditar tendências de consumo e moldar o mercado.

A conclusão do negócio está prevista para o terceiro trimestre de 2026, sujeita à aprovação regulatória em Estados Unidos e Europa, que podem impor condicionantes para evitar concentração excessiva. No entanto, o fechamento desse acordo pode redefinir o cenário da indústria do entretenimento por anos

Ver Mais

Esta postagem foi modificada pela última vez em 10/12/2025 08:53

William R. Plaza: Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br