Microsoft e Epic Games criticam uso de IA para copiar seus jogos, mas são acusadas de hipocrisia
O avanço das ferramentas de inteligência artificial capazes de recriar jogos a partir de código gerado automaticamente colocou Microsoft e Epic Games em uma situação controversa. As duas empresas recorreram a notificações de direitos autorais para derrubar projetos que reproduzem suas franquias, enquanto também investem em tecnologias de IA cujos modelos enfrentam questionamentos sobre o uso de materiais protegidos durante o treinamento.
A discussão ganhou força nas últimas semanas, com a proliferação de versões de jogos para navegadores e recompilações não oficiais de títulos conhecidos. Embora grandes editoras tenham recursos jurídicos para combater essas iniciativas, desenvolvedores independentes também estão entre os afetados, mesmo quando não utilizam inteligência artificial na criação de seus jogos.
Epic Games took down a recent project that allowed Fortnite (recreation) to be playable through a web browser.
They also DMCA (copyright) almost every post featuring it LMFAOO pic.twitter.com/7lSK4QksBk
— Backers (@BackersGamesF) October 14, 2026
Epic Games e Microsoft combatem recriações de seus jogos
A Epic Games enviou uma notificação de direitos autorais contra uma versão de Fortnite para navegadores desenvolvida com auxílio de IA em 10 de outubro, ao mesmo tempo que tem cada vez mais incluído a inteligência artificial no seu desenvolvimento.
A Microsoft também enfrenta questionamentos sobre sua postura em relação à propriedade intelectual. A companhia investe bilhões de dólares em infraestrutura de inteligência artificial e incorporou ferramentas generativas a diferentes produtos e processos de desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, a empresa enviou notificações de remoção contra diversas recriações de jogos para navegadores relacionadas a Minecraft, Call of Duty e Halo. Pelo menos seis projetos ligados a Call of Duty teriam sido retirados do ar no período analisado pela reportagem original.
Em documentos internos da Microsoft obtidos durante o processo judicial movido pelo The New York Times contra a empresa e a OpenAI, os registros revelam preocupações sobre as consequências do treinamento de grandes modelos de linguagem com conteúdo disponível na internet.
Brent Hecht, diretor de ciências aplicadas da Microsoft, teria descrito a coleta de materiais por modelos de linguagem como o maior roubo de trabalho da história humana. Em outra comunicação interna, funcionários alertaram que a inteligência artificial generativa poderia prejudicar justamente os profissionais responsáveis por produzir os dados utilizados no treinamento dos modelos.
Isso gerou muitas críticas de hipocrisia nas redes sociais, acusando as empresas de usarem IA generativa treinada com trabalho dos outros, mas com medo que roubem seus próprios trabalhos.
This conflates a number of different things. Here is a breakdown of the separate components of what is happening –
– Does Epic let people use Fortnite IP without permission or compensation? No.
– Does Epic restrict AI training on outputs of Unreal Engine and MetaHuman? Yes…
— Tim Sweeney (@TimSweeneyEpic) October 27, 2026
Tim Sweeney responde às acusações
O CEO da Epic Games, Tim Sweeney, respondeu às críticas em uma publicação no X. Segundo ele, os usuários está misturando questões diferentes e apresentou uma explicação separando os aspectos envolvidos na controvérsia.
Sweeney reconheceu que a Epic não permite que terceiros utilizem a propriedade intelectual de Fortnite sem autorização ou compensação. Também confirmou que a empresa atualmente restringe o treinamento de modelos de IA com resultados produzidos pelo Unreal Engine e pelo MetaHuman, embora esteja trabalhando para remover essa restrição dos termos de licença.
O executivo também contestou a interpretação jurídica sobre o treinamento de modelos generativos. Segundo ele, a decisão judicial envolvendo a Anthropic considerou a obtenção de materiais pirateados por meio de torrents uma violação de direitos autorais, mas tratou o treinamento dos modelos como uso justo (fair use).
Essa distinção é importante: a legalidade da obtenção dos dados e a legalidade de seu uso para treinamento são questões diferentes. Além disso, decisões sobre conteúdos gerados por IA podem depender da semelhança entre o resultado e uma obra protegida.
Reação dos usuários
Microsoft And Epic Games Suddenly Agree That AI Is Theft
byu/tylerthe-theatre intechnology
A discussão no Reddit foi marcada por críticas à suposta hipocrisia da Microsoft e da Epic Games em relação à inteligência artificial. No subreddit r/technology, a publicação conto com muitos usuários apontando que as empresas apoiam o uso de IA quando isso favorece seus próprios negócios, mas passam a questionar a prática quando suas propriedades intelectuais são utilizadas por terceiros.
Um dos comentários mais populares afirmou que empresas que consideram o treinamento de IA uma forma de roubo também deveriam evitar usar a tecnologia para se apropriar do trabalho de outros desenvolvedores. Outro usuário resumiu a indignação dizendo que executivos conseguem defender ideias completamente contraditórias sem se importar com a hipocrisia envolvida.
Parte dos comentários também questionou a falta de compensação aos artistas, escritores e programadores cujos trabalhos foram utilizados no treinamento de modelos de IA. Um comentário criticou justamente essa diferença de tratamento, sugerindo que o uso de IA só passa a ser considerado um problema quando ameaça os interesses financeiros das grandes empresas.
Outro tema recorrente foi a percepção de que as companhias estão tentando impedir que outras pessoas utilizem as mesmas ferramentas que elas próprias promovem. Alguns usuários ironizaram a situação, afirmando que a IA seria considerada uma forma legítima de progresso tecnológico enquanto beneficia as empresas, mas se transformaria em roubo quando consumidores conseguem utilizá-la para reproduzir jogos e serviços existentes.
Apesar do predomínio das críticas, houve quem questionasse a informação. Alguns participantes argumentaram que utilizar IA para desenvolver um produto não é necessariamente equivalente a copiar ilegalmente uma obra protegida, destacando a diferença entre treinar modelos com determinados conteúdos e gerar réplicas que reproduzem código, personagens ou outros elementos protegidos por direitos autorais. Para esse grupo, a questão central é a possível violação de propriedade intelectual, e não simplesmente o uso da tecnologia.
A disputa vai além das grandes editoras
A discussão não significa que recriar jogos comerciais com IA deva ser permitido indiscriminadamente. A reprodução não autorizada pode prejudicar tanto grandes empresas quanto estúdios independentes, especialmente quando envolve a distribuição de versões que utilizam código ou outros elementos protegidos.
A diferença está na capacidade de cada desenvolvedor de reagir. Microsoft e Epic Games possuem recursos para enviar notificações, contratar advogados e acompanhar disputas judiciais. Pequenos estúdios, por outro lado, podem enfrentar dificuldades financeiras para proteger seus trabalhos.
O caso de Slay the Spire 2, Celeste e RimWorld mostra que os efeitos dessa nova onda de recriações não se limitam às empresas que investem pesadamente em IA. Desenvolvedores que não utilizam essas ferramentas também podem ter seus projetos reproduzidos sem autorização.
O desafio para a indústria será estabelecer regras que protejam a propriedade intelectual sem criar padrões diferentes para empresas que desenvolvem inteligência artificial e para os criadores cujos trabalhos alimentam essas tecnologias.
Fonte: Kotaku
Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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