Estudo mostra que Smart TVs continuam enviando dados aos servidores mesmo após usuário desativar rastreamento
Uma pesquisa da Universidade Northeastern, nos Estados Unidos, identificou que Smart TVs da Samsung, Vizio e Roku continuam enviando tráfego de rede para servidores associados ao reconhecimento automático de conteúdo (ACR) mesmo depois que os usuários desativam o rastreamento nas configurações de privacidade dos aparelhos. A descoberta faz parte de um estudo publicado em 19 de outubro que investigava a eficácia dos controles de privacidade disponíveis nos televisores.
O trabalho analisou oito sistemas operacionais presentes em 12 televisores de 10 fabricantes, incluindo Amazon, Hisense, LG, Roku, Samsung, Sony, TCL, Vizio e Westinghouse. Ao todo, os pesquisadores realizaram 5.943 experimentos controlados para observar como os aparelhos se comunicam com servidores externos em diferentes situações de uso, incluindo a reprodução de conteúdo por aplicativos próprios, conexões HDMI e transmissões recebidas pela antena.
O estudo identificou tráfego compatível com atividades de ACR mesmo após a desativação do rastreamento em televisores com Samsung Tizen, Vizio OS e Roku OS. Entretanto, os pesquisadores ressaltam que não conseguiram determinar exatamente quais informações foram transmitidas, já que a criptografia impediu a inspeção do conteúdo dos pacotes.
Como funciona o rastreamento por ACR nas Smart TVs?
O reconhecimento automático de conteúdo é uma tecnologia que permite identificar o que está sendo exibido na tela de uma televisão. Para isso, o sistema pode analisar imagens, capturar amostras de áudio ou utilizar outros sinais relacionados ao conteúdo reproduzido.
Essas informações podem ser enviadas para servidores remotos e utilizadas para medir a audiência de programas, compreender hábitos de consumo e direcionar publicidade aos espectadores.
Uma das características do ACR é que ele pode funcionar independentemente do aplicativo utilizado para assistir ao conteúdo. Dependendo da implementação, a tecnologia pode identificar programas transmitidos pela antena, imagens recebidas por HDMI e outros conteúdos exibidos na televisão.
É justamente essa abrangência que torna os controles de privacidade importantes. Quando um usuário desativa o rastreamento, a expectativa é que a televisão respeite essa escolha nos cenários contemplados pela opção. O estudo da Northeastern investigou se esse comportamento corresponde ao que acontece na prática.

Samsung Tizen e Vizio OS apresentaram os resultados mais preocupantes
Embora os três sistemas tenham apresentado tráfego associado ao ACR em determinadas condições, os pesquisadores observaram diferenças importantes entre eles.
Samsung Tizen
Nos televisores com Tizen, o tráfego compatível com ACR permaneceu presente mesmo após a desativação do rastreamento em diferentes cenários de uso.
Os pesquisadores registraram esse comportamento em todas as 30 medições realizadas com aplicativos de streaming próprios da Samsung. Nas medições envolvendo conteúdo transmitido por radiofrequência, o tráfego também apareceu em 41 de 60 testes.
Já nos experimentos com HDMI, foram identificadas 18 ocorrências em 30 medições. Os testes incluíram a reprodução de conteúdo dinâmico com áudio a partir de uma fonte externa.
Os resultados indicam que a atividade de rede associada ao ACR não ficou restrita a um único tipo de conteúdo ou método de reprodução.
Vizio OS
O caso da Vizio chamou atenção porque o tráfego para um endpoint hospedado no Amazon Kinesis permaneceu presente em 100% dos cenários testados após a desativação do rastreamento.
Segundo os pesquisadores, o comportamento foi observado inclusive quando a televisão estava parada. Por outro lado, o tráfego para esse endpoint deixava de aparecer durante o uso de aplicativos de streaming de terceiros e no espelhamento de tela, comportamento compatível com declarações anteriores da empresa sobre as fontes de conteúdo que coleta.
O estudo não conseguiu determinar se os dados enviados continham efetivamente informações sobre o conteúdo assistido ou se eram utilizados para fins de rastreamento. Ainda assim, os pesquisadores destacaram que a configuração de desativação não produziu uma mudança observável no tráfego identificado.
Roku OS
Nos aparelhos com Roku OS, o comportamento foi mais restrito. O tráfego semelhante ao ACR apareceu quando os pesquisadores utilizaram o The Roku Channel, serviço de streaming integrado à plataforma. Nesse caso, a prática é descrita nos termos de serviço da Roku e, segundo o estudo, também nas configurações de televisores da TCL equipados com o sistema.
A diferença é importante porque o comportamento da Roku possui uma divulgação documentada, enquanto os resultados observados no Tizen e no Vizio OS levantam dúvidas adicionais sobre a relação entre as opções de privacidade e a atividade de rede.
Does opting out of smart TV tracking work? Research finds “suspicious” traffic.
byu/diacewrb ingadgets
Fabricantes podem estar desrespeitando a escolha dos usuários?
Os pesquisadores identificaram algumas explicações possíveis para o tráfego persistente, mas ainda não conseguiram determinar qual delas corresponde ao comportamento observado.
Uma possibilidade é que os sistemas continuem coletando informações mesmo após os usuários desativarem o rastreamento. Se confirmado, esse cenário levantaria preocupações sobre consentimento, transparência e respeito às preferências de privacidade.
Outra hipótese é a existência de um problema técnico que impeça a configuração de produzir o efeito esperado. Nesse caso, a situação continuaria sendo problemática para o consumidor, já que a televisão não se comportaria conforme a opção selecionada.
Também existe a possibilidade de os dados serem transmitidos aos servidores e descartados posteriormente. No entanto, Ilgar Mammadov, principal autor do estudo e pesquisador assistente da Northeastern, considerou essa explicação pouco provável, argumentando que enviar informações apenas para descartá-las seria ineficiente tanto para o usuário quanto para a infraestrutura das empresas.
A equipe ressalta, porém, que não tem como verificar o que acontece com os dados depois que eles chegam aos servidores.
O que muda para os consumidores?
O principal alerta do estudo é que uma opção de privacidade exibida nas configurações de uma televisão não garante, por si só, que toda atividade relacionada ao rastreamento tenha sido interrompida.
Os resultados não demonstram conclusivamente que Samsung, Vizio e Roku estejam utilizando dados coletados contra a vontade dos usuários. Ainda assim, mostram que o tráfego associado ao ACR pode persistir mesmo depois da desativação do rastreamento, dependendo do sistema e do cenário de uso.
Para os consumidores, isso reforça a importância de avaliar as políticas de privacidade dos aparelhos, limitar as conexões desnecessárias e cobrar informações mais claras sobre os dados coletados.
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