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Novo modelo de IA cria arma impressa em 3D sem número de série, mas resultado é bizarro

Treinado com arquivos de armas, o GatGPT projetou a pistola WASP e reacende preocupações sobre a facilidade de fabricar armamentos sem rastreamento.

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Cody Wilson, o ativista pelo direito às armas conhecido por criar a primeira pistola 100% impressa em 3D há mais de uma década, anunciou o que chama de “a primeira arma feita por IA”: o WASP, projetado inteiramente por um modelo de inteligência artificial customizado que ele batizou de GatGPT. O feito, por mais rudimentar que o resultado físico possa parecer, sinaliza uma preocupação no debate sobre os chamados ghost guns, armas fabricadas sem número de série, impossíveis de serem rastreadas.

Modelo treinado em DEFCAD

O WASP foi descrito pelo The Verge, que acompanhou o lançamento, como “pouco mais que um cano de pistola preso a uma caixa plástica com mola“, com semelhança clara ao Liberator, a arma de disparo único que tornou Wilson famoso. O design é estranho: a empunhadura foge completamente de qualquer ergonomia convencional e especialistas ouvidos pelo veículo apontaram detalhes que parecem alucinações do modelo, como um protetor de gatilho inacabado. Wilson, no entanto, rebateu com o argumento de que modelo irá melhorar com o tempo.

Wilson afirma não ter simplesmente pedido para uma IA gerar um projeto de arma, mas sim ter construído um modelo de IA especializado em criação de arma. O GatGPT, segundo ele, foi treinado sobre a biblioteca de arquivos do DEFCAD, o maior repositório online do mundo de modelos digitais de armas, e é capaz de auxiliar o usuário na escolha de componentes. A WASP foi projetada inteiramente via conversa com o modelo, o que os usuários já estão chamando de a primeira arma “vibe-coded”. A arma, convém registrar, dispara munição real.

Design bizarro, funcionalidade marginal

Ashley Hlebinsky, historiadora de armas de fogo e fundadora da consultoria The Gun Code, identificou escolhas de projeto que fogem ao padrão de qualquer designer humano experiente. O modelo parece ter iniciado a construção de uma guarda de gatilho, a proteção que normalmente envolve o dedo do atirador, mas não a concluiu, deixando o gatilho completamente exposto sem razão aparente. O punho também apresenta uma inversão de geometria. “Isso me lembra as vezes em que peço a uma IA para desenhar uma arma e ela acerta a maior parte, mas alguns detalhes ficam errados ou faltando”, disse Hlebinsky. “Tem uma aparência futurista, de ficção científica, que me lembra a pistola de raio do Marvin o Marciano.”

Jonathan Ferguson, curador de armas de fogo e artilharia no Royal Armouries Museum em Leeds, Inglaterra, foi mais contundente. “Do ponto de vista técnico, eu não chamaria isso de uma arma ‘sólida’ ou ‘boa’. Não parece confortável de segurar nem fácil de mirar e, com base nos disparos de teste, parece apenas marginalmente funcional”, disse Ferguson. Ele acrescentou que esperaria que a IA generativa em 2026 fizesse um trabalho melhor projetando uma arma confiável, e listou os problemas: miras que não funcionam, guarda de gatilho aberta e um punho de formato estranho. 

A barreira técnica que a IA acabou de derrubar

Até agora, o ecossistema de armas impressas em 3D tinha uma fricção natural: fabricar uma arma funcional exigia algum nível de conhecimento técnico. Não muito, mas o suficiente para filtrar uma parcela dos interessados. Um modelo como o GatGPT, treinado especificamente para esse fim, elimina essa barreira de entrada. Qualquer pessoa com acesso a uma impressora 3D e disposição para uma conversa com um chatbot passaria a ter, em tese, acesso ao processo completo de design de uma arma sem número de série.

Até o momento, esse era um território que os modelos mainstream se recusavam a entrar. O Google Gemini, por exemplo, responde a perguntas sobre o tema com um direto “não posso fornecer explicações ou detalhes sobre a criação, operação ou design de armas impressas em 3D.” Wilson precisou construir um modelo próprio, sem as restrições éticas e legais.

Wilson sabe que a WASP, sozinha, não é uma arma impressionante. O ponto é outro. “Eu argumentaria que o que fizemos não é uma arma gerada por IA, mas uma IA que pode gerar armas”, disse ele durante a demonstração. A distinção importa tanto do ponto de vista estratégico quanto jurídico: ao enquadrar o GatGPT como código, Wilson recorre ao mesmo argumento que usa há mais de uma década nos tribunais americanos: arquivos de armas são código, e para ele código é como um discurso, algo protegido pela Primeira Emenda. 

O front legislativo ainda está correndo atrás

O contexto regulatório nos Estados Unidos ainda não está definido. A Califórnia abriu um processo judicial contra uma fabricante de filamento para impressão 3D por promover o uso do material em fabricação de armas. Em agosto, um juiz federal derrubou uma determinação da ATF que tentava regulamentar kits de peças conversíveis em armas funcionais da mesma forma que armas completas. Em março, dois irmãos foram condenados por operar uma fábrica inteira de armas sem série com impressoras 3D. Agora, com o surgimento do GatGPT, pode acabar obrigando os legisladores a correr com mais urgência.

O WASP pode ser uma arma peculiar e longe de um modelo real, mas o que Wilson está apresentando é um precedente perigoso. Um modelo de IA treinado especificamente para projetar armas sem serial representa a democratização mais agressiva já vista nesse mercado. 

Fonte: Tom’s Hardware

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Foto de William R. Plaza
Postado porWilliam R. Plaza

Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br

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