Construir um data center de inteligência artificial pode exigir bilhões de dólares. Gigantes como Amazon, Google e Microsoft conseguem levantar esse dinheiro em condições favoráveis, mas empresas menores de infraestrutura dependem de crédito e contratos que convençam investidores de que haverá receita suficiente para pagar a conta.
É nesse ponto que a NVIDIA passou a desempenhar um papel incomum. Além de vender as GPUs usadas nesses data centers, a companhia investe em clientes e assume compromissos que ajudam a financiar a expansão da infraestrutura de IA.
A estratégia aumenta o mercado para seus produtos, mas também aproxima a Nvidia dos riscos financeiros de quem compra sua tecnologia.
CoreWeave mostra como funciona esse modelo
A CoreWeave é um dos exemplos mais claros dessa relação. Especializada em infraestrutura de nuvem para IA, a companhia utiliza grandes quantidades de hardware da Nvidia em seus data centers.
A NVIDIA investiu bilhões de dólares na CoreWeave e também assumiu um compromisso de adquirir até US$ 6,3 bilhões em capacidade computacional que não seja vendida a outros clientes até 2032, sujeito às condições previstas no acordo. Essa garantia ataca um risco importante dos data centers: construir uma instalação cara e não conseguir alugá-la suficientemente.
Para a CoreWeave, ter um comprador para parte da capacidade ociosa aumenta a previsibilidade do negócio. Para a Nvidia, existe um efeito circular: a expansão da CoreWeave cria demanda por sua infraestrutura, enquanto a fabricante assume parte do risco caso a capacidade instalada não encontre outros compradores.
NVIDIA quer ajudar a financiar centenas de bilhões de dólares
A estratégia já ultrapassa investimentos individuais. A Nvidia se associou a grandes instituições financeiras para desenvolver estruturas destinadas a mobilizar mais de US$ 500 bilhões para infraestrutura de IA. A companhia também vem ampliando sua presença para além das GPUs.
Um investimento de US$ 3,5 bilhões na MediaTek aproxima a Nvidia do mercado de chips personalizados. A empresa taiwanesa trabalha com o NVLink Fusion, tecnologia que permite integrar processadores desenvolvidos por terceiros à infraestrutura da Nvidia.
Isso é relevante porque Amazon, Google, Meta e Microsoft desenvolvem aceleradores próprios para reduzir custos e diminuir a dependência das GPUs Nvidia.
A aquisição da Hugging Face, anunciada por aproximadamente US$ 12,9 bilhões, adiciona outra peça. A plataforma reúne milhões de usuários e modelos de IA, colocando a Nvidia mais perto dos desenvolvedores e da camada de software que determina como esses modelos são distribuídos e utilizados.
O risco aparece se sobrarem data centers
A demanda atual continua elevada. A Nvidia registrou receita superior a US$ 96 bilhões em seu trimestre mais recente, enquanto grandes provedores de nuvem continuam ampliando suas instalações. Se a capacidade computacional crescer mais rapidamente que a procura, os preços de aluguel podem cair. Operadores endividados poderiam então encontrar dificuldades para alcançar as receitas projetadas.
Nesse cenário, a Nvidia enfrentaria dois problemas simultâneos: menor demanda por novos chips e maior exposição aos compromissos assumidos com parceiros.
Existe um precedente distante. Nos anos 1990, fabricantes de equipamentos de telecomunicações financiaram clientes para que construíssem redes e comprassem seus produtos. Quando parte da demanda esperada não apareceu, problemas dos clientes acabaram retornando aos fornecedores.
O mercado atual de IA possui diferenças importantes, e a enorme geração de caixa da Nvidia lhe oferece proteção. Ainda assim, a lógica financeira merece atenção. Quanto mais a Nvidia ajuda a financiar o mercado que compra seus produtos, maior pode ser sua participação nos ganhos da expansão da IA, e também nos riscos caso a infraestrutura cresça mais rápido que a demanda.
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