O emaranhado nos postes: fibra óptica se espalhou pelo Brasil e aumentou a disputa por um espaço que já era limitado

A fibra óptica já domina a banda larga fixa no Brasil e aumentou a disputa pelo espaço nos postes. Entenda por que os cabos se acumulam e quem deve organizar essa infraestrutura.

Mais de 80% dos acessos de banda larga fixa do Brasil já usam fibra óptica. Por trás dessa expansão existe uma disputa bem menos moderna: encontrar espaço nos mesmos postes que há décadas carregam redes de telecomunicações. É difícil encontrar o poste no meio dos cabos. Linhas de telecomunicações, caixas, emendas e grandes voltas de fios ocupam uma parte considerável da estrutura antes de seguirem em diferentes direções pela rua.

A primeira impressão é de que alguém simplesmente adicionou novos cabos sem retirar os antigos, mas a realidade é mais complicada. Nem todo fio enrolado está abandonado, diferentes empresas podem compartilhar a mesma infraestrutura e existem regras para determinar como esse espaço deve ser ocupado.

A fibra óptica já responde por 44,7 milhões dos 55,4 milhões de acessos de banda larga fixa existentes no país, mais de 80% do total registrado no segundo trimestre de 2026 pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Levar toda essa fibra para perto de casas, prédios e empresas exige infraestrutura física. Em muitas localidades, isso significa disputar alguns centímetros dos postes da rede elétrica. E esse espaço já apresentava problemas antes de a fibra se tornar dominante.

SaveClip.App 627982762 1977428006174452 7789475818111653440 n

O mercado brasileiro de banda larga fixa não é formado apenas pelas grandes operadoras nacionais. Provedores regionais ganharam enorme importância na expansão das conexões, inclusive em cidades e localidades onde grandes empresas tinham presença limitada. Essa concorrência trouxe um benefício evidente para muitos consumidores: mais opções de prestador e expansão da fibra para regiões que anteriormente dependiam de tecnologias mais lentas.

Mas concorrência no serviço não significa necessariamente uma única infraestrutura física.

A transformação aconteceu rapidamente. Redes ópticas que inicialmente eram empregadas principalmente para transportar grandes volumes de dados nos backbones avançaram progressivamente em direção ao usuário final. A própria Anatel relaciona esse movimento ao interesse crescente pelos postes. Segundo a agência, aproximar as redes de fibra dos usuários e das estações de telefonia móvel renovou a procura por essa infraestrutura por duas razões bastante concretas: menor custo e maior velocidade de implantação. No segundo trimestre de 2026, dos 55,4 milhões de acessos de banda larga fixa registrados no Brasil, 44,7 milhões eram atendidos por fibra.

Muito antes da popularização do FTTH, postes já sustentavam redes de telefonia fixa, conexões baseadas em cobre, TV por assinatura e outras infraestruturas de telecomunicações. A fibra não criou sozinha o problema dos postes desordenados, ela é mais uma etapa de uma infraestrutura que já era compartilhada e acrescentou uma nova onda de expansão de redes.

O espaço nos postes já era um problema antes da explosão da fibra

Em 2018, Anatel e Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) estimavam que o Brasil possuía aproximadamente 46 milhões de postes de distribuição de energia. Cerca de 9 milhões estavam naquele momento em situação considerada de maior urgência, segundo o critério utilizado pelas agências, que considerava a presença de fiação de quatro ou mais empresas de telecomunicações. Somente no Rio de Janeiro eram aproximadamente 800 mil postes nessa condição.

Em 2023, durante um seminário dedicado justamente ao compartilhamento dessa infraestrutura, a Anatel voltou a reconhecer problemas como ocupação irregular, insuficiência de governança, falta de clareza nas responsabilidades, grande dispersão nos preços cobrados e incentivos econômicos inadequados para a regularização.

Um mesmo poste pode carregar diferentes gerações de telecom

A chegada de uma rede nova não significa que toda a infraestrutura de telecomunicações instalada anteriormente na cidade desapareça imediatamente. Durante décadas, postes foram utilizados para telefonia fixa e posteriormente para serviços de internet sobre redes metálicas. Também receberam redes de TV por assinatura e outras tecnologias. Agora sustentam uma quantidade crescente de redes ópticas.

A própria Anatel descreveu essa transição ao observar que o Serviço Telefônico Fixo Comutado perdeu atratividade enquanto aumentou o interesse pelos serviços de comunicação multimídia, categoria regulatória na qual está a banda larga fixa.

Isso ajuda a explicar por que olhar para um poste pode ser quase como observar diferentes momentos da história das telecomunicações sobrepostos fisicamente. Cabos antigos podem coexistir com redes modernas enquanto infraestruturas são substituídas, desativadas ou regularizadas. 

Uma operadora não pode simplesmente escolher um espaço e passar outro cabo

pequenos provedores estao arruinando a estetica das cidades v0 k5bcn81npcye1

Apesar da aparência de alguns postes, existem regras específicas para sua ocupação. Uma das principais referências é a Resolução Conjunta nº 4, publicada por Aneel e Anatel em 2014. Ela estabelece regras para os chamados pontos de fixação utilizados pelas prestadoras de telecomunicações. Trata-se do ponto onde fica instalado o suporte mecânico da prestadora dentro da faixa destinada às telecomunicações. Como regra, uma empresa, ou prestadoras pertencentes ao mesmo grupo econômico, não pode ocupar mais de um ponto de fixação em cada poste. Há exceção quando existe inviabilidade técnica, situação em que pode ser autorizada a utilização de dois.

Os projetos e obras necessários ao compartilhamento precisam passar pela distribuidora de energia. A regulamentação também proíbe a ocupação de pontos de fixação à revelia da distribuidora.

Nem todo rolo de cabo no poste está abandonado

por que os postes de porto alegre possuem um emaranhado de v0 UC8zon1lGO1a61PWu NcqHgUTwpzDivnAGkW gJnmyQ

Uma grande volta de cabo presa ao poste pode parecer apenas sobra de uma instalação. Mas redes de telecomunicações podem manter uma reserva técnica de cabo, que fornece comprimento adicional para intervenções, emendas e manutenção. A própria regulamentação menciona a reserva técnica e determina que sua disposição siga o plano de ocupação da distribuidora e as normas técnicas aplicáveis.

Além dos cabos, os postes podem receber caixas de emenda, caixas de terminação óptica e outros componentes da rede.

Isso não significa que cabos inutilizados ou irregulares sejam apenas uma impressão visual. A retirada desse material continua ocorrendo em grande escala. Em 2025, a Enel Distribuição São Paulo afirma ter removido 75,9 toneladas de cabos irregulares de sua área de concessão, além de regularizar 76.041 postes e enviar 2.614 notificações a empresas de telecomunicações, e as operações continuam em 2026. Apenas nos dois primeiros meses deste ano, segundo a distribuidora, mais de 37 mil postes foram fiscalizados e 14,1 toneladas de fios irregulares foram removidas em municípios da Região Metropolitana de São Paulo. Em São Bernardo do Campo, outra operação retirou 900 kg de cabos em junho após inspecionar 1.791 postes; no acumulado do ano, o município já somava cerca de 1,7 tonelada removida.

A diferença é importante: as operações demonstram que cabos irregulares efetivamente ocupam parte dessa infraestrutura, mas não é possível identificar um cabo como irregular apenas porque ele está enrolado, parece antigo ou torna o poste visualmente desorganizado. A identificação depende de fatores como a empresa responsável, autorização para ocupação, condições da instalação e atendimento às normas técnicas.

Trocar de provedor também levanta uma questão: o que acontece com o cabo antigo?

A expansão da fibra acrescentou outro elemento às fachadas e aos postes das cidades: o cabo drop, usado no acesso final ao assinante em redes FTTH. É ele que pode fazer a ligação entre a rede de distribuição da operadora e a instalação do cliente. Quando um assinante cancela o serviço ou troca de provedor, porém, surge uma questão menos evidente: o que acontece com a infraestrutura da conexão anterior? Um cabo que permanece fisicamente instalado não pode ser considerado abandonado apenas pela aparência. Para saber se continua em uso, foi desativado ou deveria ser retirado, é necessário identificar a rede e a empresa responsável.

Cabos sem uso ocupam um espaço que já é limitado

Um dos desafios da organização dos postes está justamente na infraestrutura que deixa de ser utilizada. Pelas regras nacionais de compartilhamento, as prestadoras são responsáveis pela regularização de suas redes, enquanto as distribuidoras de energia devem acompanhar a ocupação dos pontos de fixação, identificar não conformidades e notificar as empresas responsáveis.

Alguns estados e distribuidoras também adotam ações específicas para enfrentar o problema. No Rio de Janeiro, por exemplo, uma lei estadual de 2023 estabeleceu prazo de até 180 dias para o alinhamento dos cabos em uso ou a retirada daqueles inutilizados. Outra legislação fluminense determina que concessionárias de energia notifiquem empresas de telefonia, internet e TV por assinatura para que alinhem a fiação e retirem equipamentos que não estejam mais sendo utilizados.

Minas Gerais oferece um exemplo recente de como essa regularização ocorre na prática. No primeiro semestre de 2025, a Cemig afirma ter vistoriado mais de 46 mil postes em 66 municípios e retirado 16,2 toneladas de cabos irregulares. A distribuidora também emitiu mais de 17 mil notificações para adequação das redes e identificou instalações de 45 empresas que, segundo a companhia, utilizavam sua infraestrutura clandestinamente.

Em um levantamento mais amplo, a Cemig informou ter vistoriado cerca de 2,3 milhões de postes em 774 municípios mineiros e encontrado mais de 900 empresas em alguma situação classificada pela distribuidora como clandestina, irregular ou sem projeto aprovado. São situações diferentes: um cabo sem uso não é necessariamente a mesma coisa que uma instalação clandestina ou tecnicamente irregular. Os exemplos ajudam, porém, a dimensionar o desafio de administrar redes construídas por diferentes empresas e em diferentes momentos sobre uma infraestrutura cujo espaço físico não aumenta.

Um poste visualmente carregado não pode ser considerado irregular apenas pela aparência, mas ações de fiscalização em diferentes estados mostram que redes sem autorização, instalações fora das normas e cabos que precisam ser retirados efetivamente fazem parte do problema.

O modelo dos postes continua em revisão

As regras de compartilhamento de postes estão em processo de reavaliação. Em 2022, ao apresentar uma proposta de nova regulamentação, a Anatel classificou como históricos os problemas relacionados à ocupação dos postes pelas redes de telecomunicações.

Uma das soluções discutidas é criar a figura de um explorador de infraestrutura, um agente encarregado de administrar comercialmente o espaço destinado às telecomunicações e participar da regularização da ocupação.

A Anatel aprovou sua proposta em 2023, mas divergências com a Aneel impediram até agora uma conclusão conjunta. Em dezembro de 2025, a agência de telecomunicações retomou formalmente a análise do tema. Mais de 44 milhões de acessos brasileiros de banda larga fixa utilizam fibra óptica. A rede que antes carregava principalmente telefonia e tecnologias anteriores passou a sustentar uma quantidade enorme de conexões ópticas e continua sendo disputada por empresas interessadas em chegar a novos clientes.

Como está a situação dos postes na região onde você mora? Comente abaixo.

Quais provedores lideram a banda larga no Brasil?

Postado por
Editor-chefe no Hardware.com.br/GameVicio Aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @williamrplaza Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
Siga em:
Compartilhe
Deixe seu comentário
Assine nossa Newsletter
Assine nossa newsletter e receba nossa seleção de conteúdo sobre tecnologia, games, IA e internet em seu email.
Veja também
Publicações Relacionadas
Img de rastreio
Localize algo no site!