Em 4 de fevereiro de 1998, Bill Gates levou várias tortadas de creme no rosto durante uma visita a Bruxelas, na Bélgica. O ataque foi organizado pelo ativista Noël Godin como uma ação simbólica contra a concentração de poder econômico. Gates havia sido escolhido por ser o homem mais rico do mundo.
O episódio não foi motivado especificamente pelo domínio cada vez mais incontestável do Windows no mercado de computadores, e a forma como a Microsoft o utilizava para alavancar o Internet Explorer e destruir concorrentes, como o Netscape. Godin admitiu que não entendia de computadores e nem sabia o que era uma URL. O ataque, porém, aconteceu no momento exato em que Gates se tornava o rosto de uma discussão maior: até onde uma empresa de tecnologia poderia usar seu domínio para escolher quais produtos e concorrentes teriam acesso aos consumidores.
3 meses depois das tortadas, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e procuradores de 20 estados abriram um dos processos antitruste mais colossais da história que colocou em risco até a continuidade da Microsoft como uma única companhia, se discutiu a possibilidade de dividi-la. O caso também chegou expor mensagens, negociações e métodos comerciais que modificaram a imagem pública de Gates.
A embostada numa manhã de 1998
Na manhã do dia 4 de fevereiro de 1998 Bill Gates se dirigiu ao Concert Noble para participar de encontros com representantes do governo e da indústria belga. O evento também envolvia uma conferência sobre educação patrocinada pelo governo de Flandres. A recepção foi completamemente diferente do que Gates poderia imaginar. O empresário foi humilhado com tortadas na cara que deixaram os óculos, o cabelo, o rosto e os ombros cobertos de creme. Ele foi levado para uma sala lateral, limpou-se e retomou sua programação.
Em uma entrevista concedida naquele mesmo ano, Noël Godin afirmou que 30 pessoas participaram da operação, divididas em pequenos grupos de três. O grupo havia comprado 25 tortas, das quais quatro teriam atingido o rosto ou o corpo de Gates. O cineasta belga Rémy Belvaux, conhecido pelo filme C’est arrivé près de chez vous, estava entre os participantes identificados.
Uma porta-voz da Microsoft disse à Associated Press que Gates ficou surpreso com o ataque, mas conseguiu lidar com a situação “com alguma elegância”. Ele até tentou aliviar o clima com uma piada: segundo a representante, comentou que a pior parte de tudo era o fato de a torta não ter sido nem um pouco saborosa. A Microsoft chegou a informar inicialmente que avaliava apresentar queixa. O caso não se transformou em uma disputa pública conduzida por Gates, mas dois dos participantes foram posteriormente condenados por um tribunal belga e receberam multas de 3 mil francos belgas cada.
Um funcionário da Microsoft teria ajudado os ativistas
A facilidade com que os participantes chegaram perto de um dos empresários mais poderosos do mundo levantou dúvidas sobre a segurança de Gates. Segundo Godin, a resposta estava dentro da própria Microsoft. O ativista afirmou que um funcionário da subsidiária belga entrou em contato com o grupo uma semana antes da visita. Esse informante teria repassado horários, compromissos, deslocamentos e detalhes sobre a equipe de segurança do executivo.
Ainda de acordo com Godin, o funcionário dizia ter admirado Gates no passado, mas acreditava que o crescimento de seu poder o havia tornado arrogante com os próprios colaboradores. A tortada serviria como uma “lição” para trazê-lo de volta à realidade. O nome desse tal funcionário nunca foi revelado e a Microsoft não confirmou publicamente a existência do informante. A operação teria explorado a quantidade de participantes para confundir seguranças, policiais e jornalistas. Quando o carro de Gates chegou à Rua d’Arlon, os pequenos grupos se aproximaram ao mesmo tempo, criando o que Godin descreveu como um redemoinho de tortas.
Uma reportagem publicada pelo San Francisco Chronicle no mês seguinte observou que executivos de grandes empresas estavam se tornando celebridades e, por isso, também alvos mais visíveis. Especialistas em segurança questionaram como alguém havia conseguido chegar tão perto de Gates e o que poderia ter acontecido caso o agressor carregasse uma arma, e não uma torta. Por mais que equipe de Gates tentou tratar o caso com leveza, a realidade foi bem mais chocante. Expôs uma vulnerabilidade que poderia ter se transformado em uma grande tragédia.
Quem era Noël Godin e por que ele escolheu Bill Gates
Noël Godin era um escritor, ator, crítico de cinema e ativista anarquista belga conhecido pelos pseudônimos Georges Le Gloupier e L’Entarteur, expressão que pode ser traduzida como “o homem das tortas”. Desde 1969, ele organizava ações contra políticos, empresários, apresentadores, intelectuais e outras figuras que considerava autoritárias, arrogantes ou excessivamente reverenciadas. Seus colaboradores ficaram conhecidos como uma espécie de brigada internacional da confeitaria.
Godin dizia que suas tortas eram preparadas para não provocar ferimentos. O objetivo não era machucar fisicamente o alvo, mas retirar temporariamente sua aparência de autoridade. Na entrevista concedida após o ataque, ele chamou Gates de “mestre do mundo” e disse acreditar que o fundador da Microsoft possuía mais poder efetivo do que governantes como Bill Clinton e Tony Blair. Para o ativista, o ataque simbolizava uma reação contra o poder hierárquico e econômico concentrado em uma única pessoa.

Bill Gates era o homem mais rico do mundo e o rosto de um monopólio
O dia em que Bill Gates foi entrevistado pelo Jô Soares e falou sobre o futuro dos computadores
A imagem atual de Bill Gates está associada principalmente à filantropia, à saúde global, à educação e aos projetos conduzidos pela fundação que criou com Melinda French Gates, ou, mais recentemente, ao escândalo da divulgação da sua amizade com Epstein. Em 1998, a percepção do mundo sobre ele era diferente, bem diferente. Gates ainda era CEO da Microsoft e participava diretamente das decisões comerciais e tecnológicas. Também ocupava o primeiro lugar entre as maiores fortunas do planeta. Seu patrimônio e o crescimento da companhia avançavam juntos, transformando-o no símbolo da expansão da computação pessoal.
Segundo as conclusões apresentadas posteriormente pela Justiça norte-americana, o Windows possuía mais de 90% do mercado mundial de sistemas operacionais para PCs compatíveis com processadores Intel havia uma década. Nos anos anteriores ao julgamento, essa participação havia alcançado pelo menos 95%. O percentual não incluía todos os tipos de computadores existentes, mas o mercado específico de sistemas para PCs compatíveis com a plataforma Intel. Ainda assim, era justamente a categoria que concentrava a maior parte dos computadores pessoais vendidos naquele período.
Esse domínio significava que fabricantes como Dell, Compaq, Gateway, IBM e outros dependiam do Windows para vender máquinas aos consumidores. Mudar para outro sistema exigia enfrentar a falta de programas compatíveis, o custo de treinamento dos usuários e uma base muito menor de desenvolvedores.
A internet passou a ameaçar o domínio do Windows
A principal ameaça surgiu de um programa que, à primeira vista, parecia ser apenas mais um aplicativo, o navegador. A Netscape havia conquistado grande parte do mercado inicial da web com o Navigator. O problema para a Microsoft não era apenas a possibilidade de perder usuários para um navegador concorrente.
Navegadores e tecnologias como o Java poderiam permitir que programas funcionassem em diferentes sistemas operacionais. Um desenvolvedor poderia criar uma aplicação para essa camada intermediária sem produzir uma versão específica para Windows.
Caso essa ideia avançasse, o sistema da Microsoft poderia perder parte de sua importância. O consumidor continuaria usando um computador, mas os programas dos quais dependia não precisariam mais estar vinculados ao Windows. As conclusões do tribunal afirmaram que executivos da Microsoft identificaram o Navigator como uma ameaça à barreira que protegia o Windows. Com o apoio de Gates, a companhia iniciou em 1995 uma campanha para convencer a Netscape a limitar as tecnologias de plataforma presentes em seu navegador.
Quando essa aproximação não produziu o resultado pretendido, a Microsoft passou a investir na distribuição do Internet Explorer.
A Microsoft colocou o Internet Explorer dentro do Windows
Guerra dos navegadores: como a Microsoft triturou a Netscape e sem querer ajudou a criar o Firefox
A resposta da Microsoft foi oferecer o Internet Explorer gratuitamente e integrá-lo ao Windows.
Para a empresa, o navegador estava se tornando uma função do próprio sistema operacional. Impedir essa integração seria equivalente a proibir a evolução do software, para o governo, concorrentes e mídia, a companhia estava utilizando o controle sobre um mercado para dominar outro. Os contratos impediam que fabricantes removessem partes do Windows, incluindo o Internet Explorer, antes de entregar os computadores. Como os fabricantes não possuíam uma alternativa comercialmente viável ao sistema da Microsoft, aceitavam as condições.
O tribunal concluiu que essa política garantia a presença do Internet Explorer em todos os novos PCs com Windows. Instalar um segundo navegador aumentava custos de suporte, ocupava espaço em disco e poderia confundir usuários pouco experientes, o que reduzia o interesse dos fabricantes em incluir o Netscape.
A Microsoft também misturou componentes do navegador com arquivos necessários ao funcionamento do sistema. O objetivo registrado nas conclusões judiciais era dificultar a remoção do Internet Explorer sem prejudicar outras funções do Windows.
Uma mensagem interna de Brad Chase, executivo da companhia, dizia que a empresa integraria o navegador ao sistema para tornar a experiência com qualquer concorrente “desconfortável” para o usuário. A Justiça concluiu que o Windows 98 continuava utilizando o Internet Explorer em determinadas situações mesmo quando o consumidor escolhia outro navegador como padrão.
“Cortar o ar” da Netscape
Uma das frases mais conhecidas do processo dizia que a Microsoft pretendia “cortar o suprimento de ar da Netscape” oferecendo o Internet Explorer gratuitamente. Steven McGeady, então vice-presidente da Intel, testemunhou que o executivo da Microsoft Paul Maritz havia usado a expressão durante uma reunião em 1995. Segundo McGeady, a gratuidade do navegador impediria que a Netscape obtivesse receita suficiente para continuar investindo no Navigator.
O Departamento de Justiça incorporou o relato às suas conclusões sobre a política de preços do Internet Explorer. As conclusões judiciais descreveram restrições impostas a fabricantes, provedores de internet e parceiros comerciais, além de ações contra Netscape, Java, IBM, Intel e Apple.
O processo antitruste já cercava a Microsoft antes das tortas
Quando Gates chegou a Bruxelas, a Microsoft já estava em conflito com o Departamento de Justiça. Em outubro de 1997, o governo acusou a empresa de violar um acordo anterior ao condicionar o licenciamento do Windows 95 à distribuição do Internet Explorer. Em dezembro, uma decisão preliminar proibiu a Microsoft de obrigar fabricantes a instalar o navegador para obter o sistema operacional. A companhia contestou a interpretação. Sua defesa sustentava que o Internet Explorer já havia se tornado parte do Windows e que o governo não deveria determinar quais recursos poderiam ser incluídos em um produto tecnológico. Em 3 de março de 1998, menos de um mês após as tortadas, Gates compareceu ao Senado dos Estados Unidos para defender a Microsoft diante de parlamentares e executivos de empresas concorrentes.
Em 18 de maio, o Departamento de Justiça e procuradores de 20 estados apresentaram a grande ação antitruste. A acusação afirmava que a empresa havia utilizado o monopólio do Windows para restringir a distribuição de navegadores rivais, firmar acordos de exclusividade e tentar monopolizar o mercado de navegadores. O momento era delicado porque o Windows 98 chegaria às lojas pouco mais de um mês depois, com o Internet Explorer integrado ao sistema.
O depoimento de Gates transformou sua postura em parte do julgamento
O golpe mais prejudicial à imagem de Gates não ocorreu nas ruas de Bruxelas. Veio de um depoimento gravado em vídeo e exibido durante o processo.
Questionado pelo advogado David Boies, Gates frequentemente contestava a formulação das perguntas, dizia não se lembrar de mensagens e discutia o significado de palavras como “competir” e “preocupado”. Em vez de reforçar a defesa, as respostas fizeram o empresário parecer evasivo e excessivamente preocupado em evitar afirmações diretas. Em uma das passagens mais conhecidas, Boies apresentou um e-mail relacionado à estratégia da Microsoft contra o Java. A mensagem dizia que a empresa passaria a “urinar” sobre a tecnologia da Sun em todas as oportunidades.
Gates afirmou inicialmente que não sabia o que o autor queria dizer especificamente com a expressão, em outros momentos, declarou não entender mensagens que descreviam a criação de obstáculos para a Sun.
O vídeo ainda mostrou Gates balançando repetidamente na cadeira enquanto respondia às perguntas. A revista Time descreveu a gravação como a imagem de um executivo que recorria a lapsos de memória quando a pressão aumentava.
A Microsoft quase foi dividida em duas empresas
Em novembro de 1999, o juiz Thomas Penfield Jackson concluiu que a Microsoft possuía poder de monopólio no mercado de sistemas operacionais para PCs e havia empregado práticas destinadas a preservar essa posição. Em janeiro de 2000, ainda durante o processo, Gates anunciou que deixaria o cargo de CEO. Steve Ballmer assumiu a administração da companhia, enquanto o fundador permaneceu como presidente do conselho e passou a ocupar a nova função de arquiteto-chefe de software. Gates e Ballmer negaram que a mudança estivesse relacionada à possibilidade de divisão da Microsoft. Segundo eles, a transição vinha sendo discutida havia meses e permitiria que Gates se concentrasse nas decisões técnicas.
Em abril de 2000, a companhia foi considerada responsável por violações da legislação antitruste. Dois meses depois, o tribunal determinou que ela fosse dividida em duas: uma empresa ficaria com o Windows; a outra, com programas como Office e Internet Explorer. A Microsoft recorreu.
Em junho de 2001, uma corte de apelações manteve parte central da conclusão de que a companhia havia preservado ilegalmente seu monopólio, mas anulou a ordem de divisão e devolveu a discussão sobre as punições ao tribunal inferior.
Em novembro daquele ano, o Departamento de Justiça e a Microsoft chegaram a um acordo. A empresa continuou inteira, mas aceitou restrições comerciais, obrigações de compartilhar determinadas interfaces e regras destinadas a impedir represálias contra fabricantes que distribuíssem programas concorrentes.