A Geração Z está perdendo a capacidade de se desconectar das telas

Mesmo sabendo da importância de reduzir o tempo de tela, a Geração Z é a que menos consegue se desconectar. Entenda o que explica esse comportamento.

Fazer uma pausa da tecnologia parece cada vez mais difícil, principalmente para quem cresceu conectado. Um levantamento da ClickMeeting aponta que a Geração Z, formada por pessoas entre 18 e 29 anos, é o grupo que encontra mais dificuldade para se desconectar conscientemente de computadores, smartphones e outras telas após um dia de trabalho ou estudo.

O resultado contraria a ideia de que os mais jovens, por dominarem melhor as ferramentas digitais, também conseguiriam administrar melhor seu uso. Na prática, ocorre o oposto: a hiperconectividade tornou o descanso uma tarefa cada vez mais complexa.

Segundo a pesquisa, apenas uma pequena parcela dos moradores de grandes cidades afirma conseguir se desligar da tecnologia de forma realmente eficaz, mesmo entre aqueles que reconhecem a importância de estabelecer limites. Nas metrópoles com mais de 500 mil habitantes, somente 13% dos entrevistados dizem conseguir fazer essa desconexão de maneira consistente.

O estudo também identifica uma relação entre escolaridade e uso intensivo da tecnologia. Quanto maior o nível de formação, maior tende a ser a exposição a atividades digitais e, consequentemente, maior o risco de permanecer conectado por períodos prolongados.

Para Martyna Grzegorczyk, gerente de Marketing da ClickMeeting, a chamada “regeneração digital” está se tornando uma competência essencial no ambiente profissional. O conceito envolve criar limites claros para o uso da tecnologia, recuperar o foco e permitir que cérebro e corpo se recuperem após longos períodos de trabalho online.

A diferença entre gerações aparece de forma clara no levantamento. Enquanto a Geração Z registra os piores índices de desconexão, os Baby Boomers, pessoas com 62 anos ou mais, lideram nesse aspecto: 68% afirmam conseguir estabelecer limites e descansar efetivamente das atividades digitais.

A pesquisa também dialoga com uma tendência observada em toda a Europa. Dados da Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho indicam que cerca de 39,4 milhões de trabalhadores da União Europeia mantêm contatos relacionados ao trabalho fora do horário de expediente pelo menos algumas vezes por mês. Esse comportamento reduz o chamado “distanciamento psicológico”, considerado por especialistas um dos fatores mais importantes para uma recuperação adequada após o trabalho.

Na prática, permanecer mentalmente conectado às demandas profissionais pode aumentar a sensação de fadiga e dificultar a recuperação da atenção. Isso explica por que empresas passaram a discutir não apenas capacitação em inteligência artificial e ferramentas digitais, mas também políticas que favoreçam períodos reais de descanso.

Há ainda um detalhe curioso: embora muitos profissionais busquem reduzir o tempo de tela utilizando aplicativos de bem-estar digital, atividades completamente desconectadas continuam sendo apontadas como uma das alternativas mais eficazes. Exercícios físicos, esportes, leitura e hobbies manuais ajudam a romper o ciclo de estímulos constantes produzido pelos dispositivos eletrônicos.

Mais do que uma questão de conforto, a capacidade de se desconectar pode se tornar uma habilidade valorizada nos próximos anos. Em um mercado de trabalho cada vez mais dependente da tecnologia, saber quando desligar as notificações pode ser tão importante quanto dominar as ferramentas digitais.

O desafio também faz parte da rotina dos brasileiros

Embora a pesquisa da ClickMeeting tenha sido realizada em outro mercado, seus resultados dialogam com a realidade brasileira. Segundo o relatório Digital 2026, do DataReportal, o Brasil já soma cerca de 185 milhões de usuários de internet, o equivalente a 86,9% da população, além de 217 milhões de conexões móveis ativas, reflexo de um ambiente em que a conectividade está presente praticamente o tempo todo.

Esse cenário é resultado de uma transformação acelerada nos últimos anos. Dados da TIC Domicílios 2024, do Cetic.br, mostram que cerca de 141 milhões de brasileiros utilizaram a internet nos três meses anteriores ao levantamento e que, em apenas duas décadas, o acesso à rede deixou de ser exceção para alcançar aproximadamente nove em cada dez moradores de áreas urbanas, com o smartphone consolidado como principal dispositivo de conexão.

A conectividade permanente também alterou a relação entre trabalho e descanso. Com aplicativos de mensagens, videoconferências e ferramentas de inteligência artificial disponíveis a qualquer momento, a separação entre expediente e tempo livre ficou menos evidente. Não por acaso, o chamado direito à desconexão passou a ganhar espaço em estudos brasileiros sobre relações de trabalho e saúde ocupacional, que discutem os impactos da disponibilidade constante sobre o bem-estar dos trabalhadores.

Quando a tecnologia deixa de ser ferramenta e vira apoio emocional

Angústia e medo de ficar sem emprego: Geração Z migrou para ChatGPT em busca de tarô, astrologia e terapia

A dificuldade da Geração Z em se desconectar das telas aparece também em outro comportamento recente. Em vez de recorrer apenas a mecanismos tradicionais de apoio, muitos jovens passaram a usar ferramentas de inteligência artificial para discutir dúvidas pessoais, ansiedade e até decisões sobre carreira.

Levantamentos recentes mostram que o ChatGPT vem sendo utilizado como uma espécie de conselheiro digital, oferecendo desde conversas sobre futuro profissional até interpretações de astrologia e tarô. A combinação entre um mercado de trabalho mais competitivo, a incerteza causada pela IA e a disponibilidade permanente desses chatbots ajuda a explicar por que muitos permanecem conectados mesmo quando já encerraram o expediente.

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Editor-chefe no Hardware.com.br/GameVicio Aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br
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