O fax que Sega of America recebeu, em 1990, era do personagem escolhido para enfrentar o Mario. Tom Kalinske, presidente da subsidiária americana desde junho de 1990, olha para as linhas na folha. O ouriço tem presas, usa coleira de espinhos, carrega uma guitarra elétrica e está ao lado de uma namorada humana chamada Madonna. Do outro lado da linha, em Tóquio, Hayao Nakayama, presidente da Sega, espera a reação de Kalinske.
“O novo mascote está pronto”, diz Nakayama. “Vou ficar na linha para ouvir sua reação”.
Kalinske responde: “Presumo que esta seja a namorada dele?”.
“Sim”, confirma Nakayama. “Essa é a Madonna”.
Kalinske leva o desenho até a sala de Madeline Schroeder, gerente de produto da empresa. Ela olha o rascunho e diz: “Seremos a primeira empresa de videogame com público-alvo gótico”. Os dois perguntam, ao mesmo tempo: “Você consegue consertar isso?”.
A origem do personagem
Um concurso interno no Japão buscou um substituto para Alex Kidd, mascote anterior da Sega. Os programadores enviam projetos de tatus, cães, gatos e um sósia de Theodore Roosevelt de pijama. Os finalistas eram um ovo com traços de anime e um ouriço desenhado por Naoto Oshima, batizado internamente de Mr. Needlemouse.
Michael Katz, presidente da Sega of America antes de Kalinske, rejeitou o design e escreveu a Nakayama que ninguém nos Estados Unidos sabe o que é um ouriço. Nakayama ignora a objeção e junta Oshima ao programador Yuji Naka, criador do RPG Phantasy Star, para construir um jogo de velocidade em torno do personagem.
O corte americano
Kalinske, Schroeder e o diretor de marketing Al Nilsen visitam uma loja Toys “R” Us para estudar personagens licenciados de sucesso. Eles observam que Mickey Mouse funciona pelo otimismo constante, enquanto as Tartarugas Ninja entregam a atitude rebelde sem ultrapassar limites comerciais.
De volta ao escritório, a equipe remove as presas, a coleira, a guitarra e a namorada Madonna do design. Schroeder escreve um documento de treze páginas sobre o universo do personagem. O texto define que ele vem de Nebraska, perdeu o pai jovem, treinou para desenvolver velocidade e tem como antagonista um cientista cujo experimento fracassado o transforma em vilão.
Nilsen fixa o artigo “The” como parte do nome comercial, criando “Sonic The Hedgehog”. A equipe descreve o resultado como uma combinação da atitude de Kurt Cobain, da confiança de Michael Jordan e o pragmastimo de Bill Clinton.
O conflito entre Tóquio e a Califórnia
Nakayama liga de volta confuso:
“Este não é o mesmo ouriço que demos a você. Onde está a amiga dele? E os dentes afiados?”.
A equipe japonesa que criou o personagem viu a mudança como desrespeito. Dias depois, Nakayama exige a reversão:
“Meu pessoal não gostou do que vocês fizeram com a criação deles. Devemos reverter para o original”
Kalinske responde com vinte anos de experiência na indústria de brinquedos, argumentando que o sucesso de um personagem depende da capacidade de convidar o jogador para seu mundo, não do formato ou da cor do design.
Schroeder então viaja a Tóquio para negociar diretamente com os criadores. A reunião termina com os programadores japoneses saindo da sala em silencio. A Sega of Japan propõe manter duas versões do personagem, uma com presas no Japão e outra suavizada nos Estados Unidos, citando adaptações regionais de Mickey Mouse como precedente
Schroeder rejeita a divisão e defende um ícone único. A versão americana prevalece e o jogo Sonic the Hedgehog é lançado em junho de 1991 no Mega Drive, com a persona que hoje está imortalizada na cultura pop.
A história da criação de Sonic e do embate entre as equipes da Sega no Japão e nos Estados Unidos faz parte de um dos capítulos de A Guerra dos Consoles, livro do jornalista Blake J. Harris. A obra reconstrói, com base em entrevistas com os principais envolvidos, a rivalidade entre Sega e Nintendo no início dos anos 1990 e mostra como decisões aparentemente pequenas, como retirar as presas, a guitarra e a personagem Madonna do design original de Sonic, ajudaram a moldar um dos mascotes mais famosos da história dos videogames.
Se você gosta dos bastidores da indústria dos games, é uma leitura que vale a pena conhecer. O livro pode ser encontrado na Amazon por este link.
A guitarra como uma espécie de homenagem ao design descartado
A guitarra elétrica removida do design original de Oshima reapareceu, de forma indireta, 25 anos depois, fora do jogo. Em 2016, a ESP Japan lançou, em parceria com a SEGA, quatro modelos de edição limitada para celebrar o 25º aniversário do personagem: o ESP Sonic-II, o ESP Shadow-II e as versões mais acessíveis SN-25th e SD-15th. Os modelos são baseados no instrumento usado por Jun Senoue, diretor de som da Sega e guitarrista da banda Crush 40, responsável por trilhas da franquia desde os anos 1990.
A ESP já havia produzido um primeiro modelo em 2011, para o 20º aniversário do personagem, vendendo mais de 100 unidades no Japão.
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