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Game Boy é para crianças? O portátil “adulto” da SNK que provocou a Nintendo e perdeu feio nas vendas

Relembre o NEO GEO Pocket Color, o portátil “adulto” da SNK que provocou a Nintendo, virou cult e perdeu feio nas vendas.

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O NEO Geo Pocket Color chegou em 1999 com um slogan nada sutil no Japão: “I’m not BOY. Os comerciais de TV e pôsteres impressos usavam jovens em cenário urbano, vestindo roupas de streetwear e enquadramentos próximos de editorial de revista, sugerindo que aquele portátil era para quem não queria mais ser visto como criança com o “brinquedo” da Nintendo.

Anúncio japonês do Neo Geo Pocket Color da SNK: garoto olhando para cima com um console portátil na mão, slogan "I'm not BOY" e modelos em cores diferentes na…

Enquanto o Game Boy Color aparecia cercado de mascotes e cores vibrantes, a SNK apostava em fotos com fundo desfocado, iluminação fria e um aparelho quase tratado como acessório de estilo, reforçando a ideia de portátil de gente grande. Isso encaixava bem com o DNA da empresa, conhecida por jogos de luta de arcade, um público que se enxergava como “hardcore” em relação aos jogadores de Mario e Pokémon;

O trocadilho: “GAME over, BOY”

Anúncio do Neo Geo Pocket Color, console portátil da SNK, com a manchete "Game over, boy" sobre um garoto de cabelo escuro e o aparelho cinza exibindo uma cena…

Os pôsteres com frases como “I’m not BOY” e “GAME over, B—” seguem a mesma lógica de ataque indireto que décadas de console war já tinham normalizado. A frase completa “The time has come for everyone to set down the ‘BOY’” aparece em transcrições dos comerciais, literalmente convidando o público a abandonar o Game Boy para migrar ao Neo Geo Pocket Color.

Anúncio japonês do Neo Geo Pocket Color da SNK, com dois jovens lado a lado, o slogan "I'm not BOY" e o console em destaque à direita

A iconografia reforça essa provocação: close no rosto de um adolescente sério, o portátil em destaque com jogo de luta na tela e tipografia grande, quase gritando, tudo isso sem mencionar a Nintendo pelo nome, mas reciclando a palavra “Boy” como símbolo de imaturidade. É a mesma escola de marketing que a SEGA usou antes, só que aplicada a um portátil que, em participação de mercado, nunca chegou perto do rival.

Antes da SNK mandar o recado com o “I’m not BOY”, a própria Nintendo já tinha brincado com a ideia de bolso de um jeito bem direto. Em 1996, a empresa lançou o Game Boy Pocket, uma revisão menor e mais leve do portátil original, vendida nos EUA por 69,99 dólares e pensada justamente para caber no bolso da calça sem parecer um tijolo. A campanha usava anúncios como o “What’s in YOUR pocket?”, com o formato do videogame marcado no jeans e chamadas que reforçavam que ele era “really small” e jogava “all Game Boy games”, apoiado também em comerciais de TV com bordões como “stick it in your pocket”

Anúncio antigo da Nintendo mostrando um bolso de calça jeans com um Game Boy Pocket prateado saindo, sob o texto "What's in YOUR pocket?

A escola SEGA: “Genesis does what Nintendon’t”

Anúncio antigo do Sega Genesis com a manchete "Genesis does what Nintendon't", lista de jogos de arcade, aventura, estratégia, ação e esportes e a imagem do co…

Uns anos antes, a Sega tinha escrito o manual dessa abordagem. Na virada dos 80 para os 90, a campanha “Genesis does what Nintendon’t”  cravou na TV um tipo de propaganda que comparava diretamente o Mega Drive a consoles da Nintendo. Os comerciais exaltavam gráficos 16‑bit, jogos licenciados com celebridades e um tom de rebeldia que conectava com adolescentes cansados da imagem “família” do NES.

Essa estratégia funcionou ao ponto de, por um período no começo dos anos 90, o Mega Drive garantir cerca de 65% do mercado de consoles domésticos nos EUA, invertendo a hegemonia da Nintendo na região. A mensagem era simples: se você é mais velho, mais “esperto” e quer algo sério, a SEGA é sua marca, uma abordagem que ecoa diretamente anos depois na SNK tentando posicionar o Neo Geo Pocket Color como portátil para quem já superou o Game Boy.

Mercado: a Nintendo nadava de braçada

Anúncio antigo do Game Boy Color roxo com Squirtle, Mr. Mime e Nidoran saindo de cards do Pokémon Trading Card Game, slogan "Catch the next evolution

Quando se olha para os números, o contraste é brutal. Somando Game Boy e Game Boy Color, a Nintendo chegou a cerca de 118,7 milhões de unidades vendidas no mundo, mantendo o portátil como um dos consoles mais vendidos da história. 

O Neo Geo Pocket Color, por outro lado, acabou ficando mesmo na área do nicho. Em 1999 ele emplacou cerca de 25 mil unidades no Japão só nos dois primeiros meses e passou de 100 mil consoles vendidos na Europa até o fim daquele ano, mas em maio de 2000 a participação nos portáteis nos EUA era de apenas 2%, contra o domínio quase absoluto do Game Boy e do Game Boy Color.

O hardware virou queridinho, o direcional em forma de mini‑stick, com micro‑switch e oito direções bem definidas, é lembrado até hoje como um dos melhores controles já colocados em um portátil, a tela sem backlight garantia algo em torno de 30 a 40 horas de jogo com duas pilhas AA e o catálogo, embora enxuto, tinha ports muito bem feitas dos arcades da SNK e crossovers como SNK vs. Capcom: Match of the Millennium.

Coleção de jogos da SNK para Neo Geo Pocket e Neo Geo Pocket Color, com caixas, cartuchos e o console portátil prateado ao lado, sobre fundo roxo

A vida comercial do Neo Geo Pocket Color foi curtíssima: depois de um início promissor, a Aruze, que havia comprado a SNK, fechou as operações da empresa na América do Norte e na Europa em 13 de junho de 2000, o que na prática tirou o portátil das prateleiras ocidentais em menos de um ano. O console seguiu sendo vendido apenas no Japão até 30 de outubro de 2001, quando a SNK entrou em falência e a linha Neo Geo Pocket foi oficialmente encerrada

Daí em diante, a história entra na fase “Playmore”: o fundador da SNK, Eikichi Kawasaki, criou a Playmore em agosto de 2001, já antecipando a falência da SNK original. A nova empresa comprou as principais propriedades intelectuais durante o processo de quebra e, em 2003, adotou oficialmente o nome SNK Playmore, a encarnação que manteve séries como The King of Fighters e Metal Slug vivas, mas nunca mais voltou a fabricar um portátil próprio.

Um resgate irônico no Nintendo Switch

Arte promocional da coletânea Neo Geo Pocket Color Selection Vol. 1 com personagens de jogos de luta da SNK e logos de títulos como Metal Slug, Samurai Shodown…

Anos depois dessa guerra desigual, a história ganhou um epílogo curioso: o Nintendo Switch virou uma das melhores formas de jogar o catálogo do Neo Geo Pocket Color. Em março de 2021, a SNK lançou NEOGEO POCKET COLOR SELECTION Vol. 1, em parceria com a Code Mystics, reunindo 10 jogos do portátil em versão emulada com filtros, bordas personalizáveis, rewind e até modelos 3D das caixas e cartuchos originais.

A coletânea inclui títulos como SNK vs. Capcom: Match of the Millennium, Metal Slug 1st Mission e 2nd Mission, The King of Fighters R‑2 e Samurai Shodown! 2, e acabou bem avaliada por resgatar, num único pacote, boa parte do que o portátil tinha de melhor.

Em novembro de 2022, chegou NEOGEO POCKET COLOR SELECTION Vol. 2, também para Switch e PC, com outros 10 jogos, entre eles SNK vs. Capcom Card Fighters’ Clash, Mega Man Battle & Fighters e Biomotor Unitron.

O resultado é que, duas décadas depois de perder feio para o Game Boy nas prateleiras, o “portátil adulto” da SNK acabou recebendo uma espécie de segunda vida justamente dentro de um console Nintendo, um fechamento irônico para uma rivalidade que nasceu na provocação dos pôsteres e terminou como homenagem retro em forma de coletânea.

Você já conhecia o NEO GEO Pocket Color? Comente abaixo.

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Foto de William R. Plaza
Postado porWilliam R. Plaza

Editor-chefe no Hardware.com.br, aficionado por tecnologias que realmente funcionam. Segue lá no Insta: @plazawilliam Elogios, críticas e sugestões de pauta: william@hardware.com.br

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