Índice das dicas

Smartphones: O Android

Por Carlos E. Morimoto em 15 de outubro de 2008 às 15h30

9

Apesar de ser mais conhecido por causa do mecanismo de buscas, do Gmail e do AdSense, o Google investe bastante nas mais diversas áreas, de painéis solares a novos algoritmos de AI. Em 2005 decidiram entrar também no ramo dos smartphones, adquirindo a Android Inc, uma pequena empresa de desenvolvimento de sistemas embarcados, dando origem aos boatos de que o Google estaria trabalhando no "Google Phone". Quando finalmente divulgado, em 2007, o projeto acabou se revelando mais ambicioso. Em vez de estarem simplesmente trabalhando em um modelo específico de smartphone, anunciaram um sistema operacional open-source (http://code.google.com/android/), baseado em Linux, que pode vir a se tornar a plataforma dominante entre os smartphones ao longo dos próximos anos.

Apesar de ter começado como um projeto do Google, a partir de novembro de 2007, o desenvolvimento foi transferido para a Open Handset Alliance, uma fundação sem fins lucrativos, que, além do Google, inclui algumas dezenas de fabricantes de aparelhos, empresas de telefonia e de desenvolvimento de softwares.

O Android é, sob diversos ângulos, uma antítese do iPhone. Enquanto a Apple optou por manter um controle estrito sob sua plataforma, impondo restrições aos desenvolvedores e controlando a distribuição dos aplicativos, o Google optou por seguir o caminho oposto, criando um sistema aberto e incentivando o desenvolvimento, inclusive com prêmios em dinheiro.

Grande parte da estratégia em torno do Android é centrada no desenvolvimento de aplicativos por parte de outras empresas e desenvolvedores independentes. O Google entendeu que, assim como nos desktops, as plataformas de smartphones estão se consolidando e o mais importante passam a ser os aplicativos e não apenas o hardware ou as funções básicas do sistema. Tendo isso em mente, faz sentido que, sendo a última empresa a entrar no mercado, o Google seja quem está investindo mais pesado nessa frente, montando uma grande equipe de desenvolvimento, investindo em contatos com fabricantes e na divulgação do sistema e incentivando a participação externa. Enquanto a Apple tenta restringir os desenvolvedores, com medo de que aplicativos ruins possam prejudicar a imagem da plataforma, o Google adotou uma atitude liberal, disponibilizando as ferramentas e deixando que a coisa flua naturalmente. Você mesmo pode baixar o SDK no http://code.google.com/android/download.html e começar a estudar o sistema.

Entra em cena então o Android Market, o canal de distribuição, que assume a função que no mundo Apple pertence à AppStore, servindo como um repositório central de softwares para a plataforma, permitindo que eles sejam instalados rapidamente. A principal diferença é que no Android Market os desenvolvedores podem publicar seus aplicativos diretamente, sem precisarem primeiro passar por um processo de aprovação. Essa desburocratização do processo tende a fazer com que ele conte com um maior volume de aplicativos a longo prazo. Nada impede também que os desenvolvedores disponibilizem seus aplicativos diretamente, fora do Android Market.

Inicialmente, o Android Market conterá apenas aplicativos gratuitos, mas eventualmente o sistema passará a permitir também a disponibilização de aplicativos pagos, que também são necessários dentro de qualquer ecossistema saudável, atendendo a nichos específicos. No caso dos aplicativos pagos, o trato será similar ao que usado na AppStore, com a renda sendo dividida entre o desenvolvedor e o Google.

O primeiro aparelho comercial baseado no Android é o HTC G1, que combina uma tela de 480x320 sensível ao toque com um teclado QWERTY deslizante, câmera de 3.2 mp, Wi-Fi, Bluetooth, GPS e suporte a 3G:

As telas de 480x320 são a nova tendência em smartphone voltados para navegação, já que a maior resolução, combinada com as maiores dimensões da tela realmente faz uma grande diferença. Um dos motivos do iPhone ser considerado tão superior a outros aparelhos com relação à navegação web é justamente a resolução e o tamanho da tela. Para quem está acostumado a navegar no S60, usando telas de 240x320, a diferença é realmente muito grande:

O acesso às funções pode ser tanto feito através de toques na tela quanto usando um pequeno trackpoint, posicionado entre os botões de atalho. O trackpoint opera um cursor de mouse virtual, que simplesmente passeia pela tela e permite clicar nos botões. Outros modelos podem substituí-lo por um direcional (como nos aparelhos baseados no S60), que permite alternar diretamente entre as funções.

A versão do Android incluída no G1 é ainda uma versão bastante crua, que desempenho bem as funções básicas, mas fica devendo recursos de sincronização e outras funções específicas. Ele cumpre a função de ponta de lança, apresentando a plataforma e atendendo aos early adopters que querem ser os primeiros a experimentar a nova plataforma, mas o sistema ainda tem muito o que evoluir. Outros aparelhos serão lançados por diversos fabricantes ao longo de 2009, colocando em teste o modelo de desenvolvimento aberto proposto pelo Google.

Diferente do Windows Mobile, ou mesmo do S60, que precisam ser licenciados, o Android pode ser usado sem custo nos aparelhos, o que representa uma redução considerável no custo dos aparelhos. As licenças do Windows Mobile, por exemplo, custam cerca de 15 dólares por aparelho (o custo varia de acordo com a versão usada e o volume), o problema é que estes 15 dólares entram logo na etapa inicial da produção, junto com os custos da matéria prima, o que faz com que, depois de aplicadas as margens de lucro, impostos e todos os demais custos envolvidos, eles acabam representando um aumento de até 50 dólares no preço final dos aparelhos, o que é mais do que significativo.

Isso explica por que fabricantes como a Motorola têm investido na formação de grupos de desenvolvimento para trabalhar no Android, de forma a adaptá-lo a seus aparelhos e ter assim uma alternativa mais competitiva da sistema operacional.

Como o sistema é open-source, existe também a possibilidade de portá-lo para diferentes plataformas conforme necessário. Já se tem falado em usar o Android em MIDs e outros tipos de aparelhos compactos voltados para acesso à web, baseados em processadores x86. A Intel também tem se mostrado bastante interessada na possibilidade de, futuramente, termos smartphones com o Android, baseados em futuras versões do Atom.

A combinação de tudo isso tem tudo para dar origem a aparelhos melhores e possivelmente também mais baratos que os atuais (devido à economia de escala), o que naturalmente tende a agradar a nós consumidores.

Você pode se perguntar o que o Google ganha investindo no desenvolvimento de um sistema operacional open-source para celulares apenas para distribuí-lo de graça depois. A resposta é que os aparelhos móveis são uma área bastante estratégica para o Google, pois permitirá levar seus produtos, como o Gmail, Google Maps, Google Docs, sem falar na própria pesquisa aos celulares, atingindo um público muito maior.

Talvez você ainda esteja coçando a cabeça, já que todos estes aplicativos são gratuitos, de forma que o Google não receberia nada pelo uso deles nos celulares. É aí que você se engana. O mercado de publicidade na web está crescendo rapidamente, superando mídias tradicionais, como a televisão, jornais e as revistas impressas e o Google é a maior força dentro do ramo de publicidade online, devido à incrível penetração do AdSense e de outros produtos, que são a principal fonte de renda do Google. Conquistando os smartphones, o Google conquista mais um novo grande mercado para seus anúncios.

Na verdade, os investimentos nessa área começaram muito antes do Android, na forma das versões móveis do Gmail, o Google Maps, Google Docs e outros, que podem ser usados mesmo nos aparelhos mais simples. Existem também versões nativas para o Symbian e para o Windows mobile, que oferecem mais funções. O Google Maps, por exemplo, é essencialmente o mesmo que está disponível no iPhone:

Temos também o portal genérico do Google Apps, disponível através do http://www.google.com/mobile/, ele é basicamente uma lista de links para os serviços disponíveis:

Um recurso interessante é a barra de pesquisa, que está disponível como um aplicativo nativo para os telefones baseados no S60 e no Windows Mobile. Ao instalar a barra, tenho acesso a um pop-up com a busca do Google pressionando a tecla Ctrl na tela inicial do sistema, sem precisar primeiro abrir o navegador. É uma melhoria simples, mas que acaba se revelando bastante útil, permitindo fazer pesquisar rápidas.

Você deve ter notado a presença de links para o Google Docs e para o YouTube no http://www.google.com/mobile/. O Google Docs talvez seja o próximo na lista de aplicativos nativos, mas por enquanto ele ainda está incipiente, permitindo apenas exibir os documentos em html de forma limitada, através do próprio navegador. O YouTube entretanto já funciona perfeitamente em diversos modelos de aparelhos que contam com players de mídia nativos. Acessando via EDGE ou 3G, os vídeos funcionam surpreendentemente bem.

Como você pode ver, estes aplicativos tem um bom potencial, mesmo em aparelhos relativamente limitados. Não é difícil imaginar as mudanças que versões atualizadas destes aplicativos, combinadas com outros recursos oferecidos pelo Android, rodando sobre aparelhos atualizados e com conexões 3G podem trazer. O Google pode ganhar alguns trocados com os aplicativos pagos do Android Market, mas sem dúvidas a grande aposta é com relação à publicidade.

Naturalmente, estes aplicativos dependem de um outro fator, que é a disponibilidade de conexões 3G e de planos de acesso de dados. Nesse aspecto, o lançamento do iPhone foi um fator positivo, pois incentivou as operadoras a oferecerem planos de dados junto com o aparelho. Nos EUA, por exemplo, a AT&T oferece um plano de acesso "ilimitado" (desde que você não tente compartilhar a conexão com o PC) para o iPhone 3G por US$ 30 mensais. No Brasil temos também opções ilimitadas por de R$ 49 a 99 mensais na Claro, TIM e na Vivo, além dos planos com megabytes avulsos que podem ser incluídos nos planos de voz. Para os mais geeks, existe até mesmo a opção de abandonar inteiramente os minutos de voz e passar a usar apenas dados, usando serviços de VoIP como o Skype e o Vono para as chamadas de voz.

Esta é uma mudança que lembra um pouco a transição do acesso discado para o ADSL por volta do ano 2000. Antes do ADSL, alguns poucos usuários gastavam muito com os pulsos conectando via modem, sem falar na mensalidade do provedor, mas em compensação a maioria acessava muito pouco. Com o ADSL, as operadoras passaram a cobrar taxas fixas pelo acesso, de acordo com a velocidade. Alguns usuários passaram a gastar menos com o ADSL do que gastavam com os pulsos, mas um número muito maior, que não acessavam, ou que acessavam pouco, aderiram ao ADSL e passaram a gastar mais do que gastavam antes. Com isso, as operadoras acabaram ganhando mais com o ADSL do que ganhavam com o acesso discado.

A disponibilidade de planos de dados com preços acessíveis são um pré-requisito para a popularização dos smartphones, especialmente no caso do Android, que é fortemente baseado no uso de aplicativos online.

Concluindo, o Android é entre as atuais, a plataforma que mais tem potencial para evoluir e tem a seu favor a constatação histórica de que as plataformas abertas tendem a prevalecer a longo prazo, conforme a tecnologia se populariza, pressionando os preços. Entretanto, com a abertura do Symbian, o Android terá um páreo duro pela frente, já que enfrentará outro sistema aberto, mas que já está muito bem estabelecido. Quem tende a perder espaço na briga são os aparelhos mais simples, incluindo os feature phones baseados no S40, que vão passar a perder espaço rapidamente conforme os smartphones baseados no Symbian e no Android crescerem em vendas.

9 comentáriosPor Carlos E. Morimoto. Revisado 23 de março de 2011 às 11h36

Comentários

 
por MBetioli (anônimo) em 12 de dezembro de 2008 às 21h16
Tenho plena convicção que o android entrou no mercado pra quebrar tudo.
É grande o número de empresas que apoiam a iniciativa do google, enquanto o symbian conta apenas com a Nokia. Que a meu ver, gastou uma fortuna e corre o risco de perder todo o investimento.
Infelizmente, em terras tupiniquins, a ambição e a carga de impostos põe tudo a perder.
Basta ver os valores cobrados pelas operadores pelo iPhone por aqui.
Eu lí que um pacote da AT&T de transferência ilimitada de dados sai por +- US$40,00.
Aqui acredito que não sairia por menos de US$300,00. Fora o custo do aparelho que chega quadruplicaado.
É um absurdo pagarmos 4x mais por tudo, ainda mais que nossa renda é 4x menor.
:(
Pelo visto toda esta tecnologia só estará acessível por aqui quando já for superada.
Sonho de consumo continuará sonho...
Quem sabe em 2015...
 
por Mad Learner (anônimo) em 31 de outubro de 2008 às 18h46
Eu, ao contrário do Phiron, acredito e apóio o Android. Não é porque uma coisa está consolidada no mercado que tem que continuar como está. Veja o que aconteceu com a Palm. É preciso se manter inovador e atual. E isso, o Android parece ser. Bom exemplo também foi esse do gmail, mencionado pelo Eudes. Então torço que que as plataforma abertas cresçam. Que fiquem as melhores.

PS: Sobre o IPhone, acho ele muito bonito e funcional pra o que se propõe, mas não tenho coragem de comprar nada fechado como ele. Nem o bluetooth pode ser usado pra enviar arquivos! Isso não serve pra mim!
 
por Eudes Cruz (anônimo) em 17 de outubro de 2008 às 06h58
"Eu sinceramente não acredito no Android porque a nokia comprou o symbian e vai abrir também esse sistema"

Mas o fato da Nokia ter cogitado abrir o Symbian não é justamente influência do Android? Então, o Android já está fazendo a diferença, é o mesmo que aconteceu quando o Google lançou o Gmail, pode não ser hoje o único webmail com grande capacidade e gratuito, mas na época causou uma revolução na qualidade e quantidade de espaço disponível. Lembro-me que na mesma época eu pagava e-mail do UOL, mas não tinha direito a cópia permanente, tinha que pagar um plano mais caro. Hoje estão oferendo e-mail de graça. Creio que coisa parecida acontecerá, devido ao Android.
 
por Fernando Aranha (anônimo) em 16 de outubro de 2008 às 09h21
Apesar da Nokia ter aberto o Sistema deles, isso não quer dizer que eles se tornarão tão liberais assim, eles vão querer manter ainda algum segredo a sete chaves. O sucesso do google já está começando, porque eles liberarão o sistema para qualquer um modificar e melhorar.
 
por Alexandre (anônimo) em 15 de outubro de 2008 às 22h31
como ele é baseado no linux, será que tem uma versão para pc?
Se houver, talves haja uma integração legal...
 
por ADALTO SENA (anônimo) em 15 de outubro de 2008 às 20h21
Eu acredito no Android do Google e é muito provável a ser o principal OS para smartfhones num futuro bem próximo. Como o nobre colega Morimoto disse, também acho uma verdadeira estratégia de marketing do Google lançá-lo gratuito, o que possibilitará aparelhos mais baratos e competitivos, pois, o sistema é muito bom mesmo.
 
por Marcelo (anônimo) em 15 de outubro de 2008 às 20h06
Não sei como é o SDK do Android agora, ainda não tive tempo de testar, mas tem um componente nos navegadores web da Nokia, mesmo nos modelos s40 que na minha opinião é muito util aos desenvolvedores que é a tag xhtml file upload.
Isso não encontrei no navegador web do Android.

Pode ser implementado usando java no Android em conjunto com o Webkit, porém nos celulares da Nokia a tag file upload ja vem pronto para uso.
 
por André Vitor Matos (anônimo) em 15 de outubro de 2008 às 19h04
O Android realmente é muuuiito bom. Por ser um sistema aberto, e apoiado pelo Google, se difundirá com relativa rapidez, nos próximos anos. Provavelmente, em alguns anos, todos os celulares e smartphones usarão Android, o que seria extremamente benéfico, pela compatibilidade que isso irá trazer entre os aparelhos e programas. Como sou um grande entusiasta de python, e o Google também, não vejo a hora de o Android abraçar de vez essa linguagem de programação, além do Java, talvez com Jython, para que as pessoas mais comuns também possam programar para seu celular. Se isso acontecer, num futuro não muito distante, muitos terão scripts personalizados para as funções mais básicas em seus celulares, aumentando muito a velocidade de operação. =]
Vamos apenas esperar, porque especulações já se mostraram extremamente falhas antes. Flwss
 
por Phiron (anônimo) em 15 de outubro de 2008 às 16h11
Eu sinceramente não acredito no Android porque a nokia comprou o symbian e vai abrir também esse sistema, dessa forma a principal vantagem do android cai por terra visto que o S60 é uma plataforma mais bem consolidada no mercado.