Índice das dicas

Placas 3D: da GeForce à Kyro II

Por Carlos E. Morimoto em 29 de setembro de 2009 às 14h40

9

Além do fato de terem quase todas sido lançadas entre 1997 e 1999, as placas do post anterior possuem outro fato em comum: todas elas são placas DirectX 5 ou DirectX 6, que mesmo descartadas todas as questões relacionadas ao desempenho, não são capazes de rodar jogos atuais.

A geração seguinte tem foco no DirectX 7 e o OpenGL 1.2, que oferecem um conjunto consideravelmente expandido de efeitos visuais, que ajudaram a tornar os jogos bem mais realistas em relação à primeira geração. Uma quantidade surpreendentemente grande de jogos atuais oferecem suporte de legado ao DirectX 7 (com menos efeitos visuais, mas essencialmente a mesma jogabilidade), o que permite que muitas dessas placas antigas ainda continuem em serviço.

A primeira placa DirectX 7 a chegar ao mercado foi a GeForce 256 (baseada no chipset NV10), que foi lançada no final de 1999. Ela trouxe uma arquitetura remodelada em relação ao Riva TnT, com o processamento de 4 pixels por ciclo de clock e uma engine bastante sofisticada de processamento de T&L (Transform and Lighting) via hardware.

O T&L é um recurso 3D básico, que consiste em calcular a luminosidade de cada pixel, baseado na distância e ângulo do foco de luz, aplicando efeitos de luz e sombra. Em jogos antigos, todo o processamento é feito via software (o que limita bastante o que se pode fazer, resultando em efeitos pouco convincentes), mas a partir da GeForce cada vez mais títulos passaram a exportar o trabalho para a GPU, deixando o processador livre para outras tarefas.

Entretanto, esta foi uma migração vagarosa, que só foi concluída anos depois, fazendo com que engine de T&L da GeForce acabasse sendo sub-utilizada e a placa não pudesse demonstrar todo o seu potencial. Isso limitou a aceitação da GeForce 256, que foi recebida com um certo ceticismo, assim como muitas outras placas high-end lançadas nos anos seguintes. Entretanto, com o passar do tempo o suporte ao DirectX 7 passou a fazer uma grande diferença no volume de títulos suportados.

Ao contrário do que o nome sugere, os "256" não se referem ao barramento com a memória (que continuou sendo de 128 bits) mas sim ao uso de 4 pipelines de 64 bits para a renderização (daí os 4 pixels por ciclo). Esse aumento no poder de processamento sem uma expansão equivalente no barramento com a memória (a GeForce 256 original era equipada com chips SDR de 166 MHz, assim como no TnT2 Pro) acabou fazendo com que as unidades de processamento fossem estranguladas e parte do potencial do chipset fosse desperdiçado.

O problema foi solucionado com a GeForce 256 DDR, que adotou o uso de memórias DDR de 300 MHz, oferecendo quase o dobro de banda no barramento com a memória e um desempenho em média 30% superior.

Apenas 6 meses depois, em abril de 2000, a nVidia lançou a GeForce 2, baseada no chipset NV15. Ele foi basicamente uma versão atualizada do NV10 usado na GeForce 256, que foi produzido usando uma técnica de 0.18 micron (contra a técnica de 0.22 micron do antecessor) e era capaz de operar a frequências mais altas. Com relação à arquitetura, a grande mudança foi a expansão nas unidades de processamento de texturas, que passaram a processar duas texturas por ciclo de clock.

Com isso, a GeForce 2 passou a ser capaz de processar 4 pixels e 8 texels por ciclo de clock, o que com o tempo se tornou uma grande vantagem, conforme os jogos passaram a fazer uso intensivo do multitexturing, onde (duas ou mais) texturas são aplicadas simultaneamente, uma sobre a outra, um efeito básico que permitia criar superfícies mais realísticas nessa era pré-shaders.

Usando o multitexturing, é possível aplicar uma textura base sobre uma pedra ou um pedaço de chão e aplicar texturas secundárias, sobrepondo áreas específicas. Com isso, é possível criar detalhes utilizando diferentes combinações de texturas primárias e secundárias, sem precisar de uma grande textura completa para cada variação desejada:

dx7_html_6d00fd4d

A versão inicial foi a GeForce 2 GTS, onde o NV15 operava a 200 MHz e fazia par com 32 ou 64 MB de memória DDR operando a 333 MHz. Ela foi seguida pela GeForce 2 Pro (GPU a 200 MHz e memória a 400 MHz) e pela GeForce 2 Ultra (GPU a 250 MHz e memória a 460 MHz), que apresentavam um desempenho proporcionalmente superior.
Em 2001 a nVidia apresentou uma versão de 0.15 micron do chip (ligeiramente mais barata de se produzir), que foi usada na GeForce 2 TI (GPU a 250 MHz e memória a 400 MHz), que oferecia um desempenho muito similar ao da GeForce 2 Ultra por um preço mais baixo.

Entretanto, a principal inovação dentro da linha foi o lançamento do chipset NV11, uma versão de baixo custo, que possuía apenas duas unidades de processamento (em vez de quatro), mantendo o barramento de 128 bits com a memória. Ele foi usada na GeForce 2 MX (GPU a 175 MHz e memória SDR a 166 MHz). Ela não era nenhuma campeã de desempenho (oferecia basicamente metade do desempenho de GeForce 2 GTS), mas o preço baixo fez com que ela se tornasse extremamente popular, dando início às derivações de chipsets destinados ao mercado de baixo custo que continua até hoje:

dx7_html_m41c95bda

A combinação do uso de apenas duas unidades de processamento e do clock ligeiramente mais baixo fez com que a GeForce 2 MX fosse uma das placas 3D de consumo mais baixo, com um consumo típico de apenas 4 watts (bem menos até que os chipsets de vídeo onboard atuais).

Posteriormente, a nVidia lançou três variações com variações nas frequências, barramento e tipo de memória usado. A GeForce 2 MX 100 era a mais castrada, com uma barramento de apenas 32 bits e memórias SDR. A GeForce 2 MX 200 era uma versão intermediária, com uma barramento de 64 bits e versões com memórias SDR e DDR, enquanto a GeForce 2 MX 400 era a versão mais rápida, sucessora direta da GeForce 2 MX original. Ela foi lançada em duas versões, uma com memória SDR e barramento de 128 bits e outra com memória DDR e barramento de 64 bits (que na prática era um pouco mais lenta).

Visando competir com as placas dual-head da Matrox, a nVidia lançou também versões da GeForce 2 MX com suporte a dois monitores, inaugurando o uso da tecnologia TwinView, que é encontrada em praticamente todas as placas atuais.

O meses seguintes ao lançamento da GeForce 256 e da GeForce 2 GTS foram dominados pela nVidia, que pôde se dar o luxo de manter os preços das placas na faixa dos US$ 300, enquanto as concorrentes se engalfinhavam para oferecer modelos mais baratos. Na época a 3Dfx lutava para sobreviver com as Voodoo 4 e Voodoo 5 e a ATI tinha apenas as placas da linha Rage 128 e a Fury MAXX.

A primeira concorrente direta para a GeForce foi a Radeon DDR (vendida em versões com 32 e 64 MB) que era baseada no chipset R100 e chegou ao mercado em julho de 2000. Embora o R100 fosse um chip com 30 milhões de transístores (bem mais complexo que o NV10 da GeForce) ele possuía apenas duas unidades de renderização, o que resultava em um output de apenas dois pixels por ciclo.

dx7_html_77adebda

Por outro lado, ele era capaz de atingir frequências mais altas (183 MHz na Radeon DDR) e cada uma das unidades oferecia três unidades de texturas (seis por ciclo, contra as 4 do GeForce), o que tornava a briga bem mais acirrada. O R100 oferecia também uma unidade de processamento de T&L mais elaborada (a Charisma Engine), entrada e saída de vídeo (conector S-Video analógico), decodificação IDCT de DVDs via hardware e o HyperZ, um mecanismo de compressão dos dados no Z-buffer que ajudava a reduzir o uso do barramento com a memória.

A Radeon DDR era em geral mais poderosa que a GeForce original. O grande problema foi que o lançamento atrasado fez com que ela tivesse que concorrer com as GeForce 2 GTS, que ofereciam um desempenho superior.
Apesar disso, a ATI conseguiu se manter na briga reduzindo os preços e lançando variações das placas. A primeira foi a Radeon SDR, uma placa de baixo custo que utilizava 32 MB de memória SDR, que foi seguida pela Radeon All-in-Wonder, que oferecia um sintonizador de TV integrado.

Quando a nVidia lançou a GeForce 2 MX, a ATI respondeu com a Radeon VE, uma versão castrada, com um dos pipelines de renderização desativado, resultando em uma redução de 50% no poder de processamento bruto, mas que era em compensação vendida por apenas US$ 99. Assim como a GeForce 2 MX, ela oferecia também suporte a dois monitores, usando a tecnologia HydraVision.

Mais tarde, o nome das placas foram alterados (sem mudanças no hardware), com as Radeon DDR e SDR passando a ser chamadas de Radeon 7200 e a Radeon VE assumindo o rótulo de Radeon 7000. Isso marcou o início da nomenclatura que continuou em uso até 2004.

O ano de 2000 marcou também o surgimento de uma nova concorrente, a Imagination Tecnologies, que lançou o Kyro (PowerVR Series 3), um sucessor do chipset 3D anteriormente usado no Sega Dreamcast. O Kyro foi usado em placas fabricadas pela STMicro e pela Hercules.

Embora fosse um chipset relativamente modesto, com 12 milhões de transístores e um clock de apenas 125 MHz, o Kyro utilizava um pipeline de renderização baseado no conceito de Tile Rendering, onde cada fraque é dividido em pequenos retângulos, processados de forma independente.

Essa abordagem permitia que diferentes componentes do chipset trabalhassem de forma bastante eficiente, descartando informações redundantes (polígonos não visíveis, por exemplo) e dividindo a renderização de forma que cada etapa era realizada com os dados armazenados nos buffers, reduzindo o volume de operações de acesso à memória. Isso permitiu que o Kyro competisse em pé de igualdade com a GeForce SDR em títulos como o Quake 3 e o Unreal, apesar da pouca potência bruta de processamento.

Em 2001 foi lançado o Kyro II, uma nova revisão do chipset que não trouxe novas funções, mas era capaz de operar a 175 MHz, o que resultou em um desempenho (nos jogos da época) próximo do da GeForce 2 GTS, por um preço mais baixo.

Por outro lado, uma das grandes limitações do chipset era a falta de suporte a T&L via hardware, o que simplificou o projeto do chip (ajudando-o a atingir frequências de operação mais altas) mas resultou em uma penalidade de desempenho cada vez maior, conforme os jogos passaram a utilizar o T&L cada vez mais pesadamente, fazendo com que o Kyro se revelasse um beco sem saída.

A STMicro conseguiu vender pouco mais de um milhão de placas Kyro e Kyro II, mas as vendas não foram suficientes para garantir o futuro da linha. Apesar disso, a série PowerVR continua viva no ramo de chipsets 3D para dispositivos móveis, incluindo o PowerVR SGX, usado no iPhone 3GS e no Palm Pre.

9 comentáriosPor Carlos E. Morimoto. Revisado 23 de março de 2011 às 12h38

Comentários

 
por marcelo (anônimo) em 5 de outubro de 2009 às 17h11
gostaria de saber, porq as placas geforce 8500gt de 512mb, não roda os games: UTornanment 2004 e Pro evolution soccer 2009??? to com um tremendo problema quanto a isso, e o erro que aparece é: nv_4 em uma tela azul......
Problema por Willan (anônimo)
 
por marcelo (anônimo) em 5 de outubro de 2009 às 17h14
minha palaca é : nvidia geforce 8500gt de 512mb... tb não roda o game: medal of honor pacifc assalt e call of duty 2... gostaria de uma orientção quanto a isso, desde de ja eu agradeço se puderem me ajudar... boa tarde...
 
por The Pretender (anônimo) em 1 de outubro de 2009 às 17h12
Bem legal, não conhecia esta Kyro..

Outra placa que entrou no mercado e sumiu (mas isso por idos de 2003) foi a Xabre da SIS. Infelizmente a SIS não soube investir nestas placas e acabaram caindo no esquecimento. Plaquinas que conseguiam competir em pé de igualdade com as Geforce4, mas devido a drivers péssimos acabaram sendo deixadas de lado pelos consumidores. Lembro que um user do forum tinha uma, e a bixinha tinha um desempenho superior a algumas Geforce4MX por um preço bem menor e com suporte a DX8, mas dava pau em alguns games devido aos drivers muito imaturos (coisa que NUNCA foi resolvido).
 
por Thiago (anônimo) em 30 de setembro de 2009 às 09h22
Aliás, corrigindo o que eu disse no post anterior, eu concordo com o Denis Roschel quando dizia que as matérias estão ótimas.
 
por Thiago (anônimo) em 30 de setembro de 2009 às 09h21
Concordo com o Rafael Barros e com o Pinguim-Fu: as matérias estão ótimas e estou curioso para ler a continuidade dessa história. Está muito bom! Eu não sabia nada disso. Hahaha! Vivendo e aprendendo (com um empurrãozinho de quem entende, é claro!).
 
por Pinguim-Fu (anônimo) em 30 de setembro de 2009 às 00h21
estamos chegando lá,eu estou adorando os posts morimoto,valeu,estou nuito curioso com essa historia que prova como a informatica evolui rapido....

agora queria ver como se deu o lançamento da minha Ge Force 4 MX que presta bons serviços por aqui com um clock de 200 Mhz e 64 MB de ram rodando até que de forma satisfatoria o Compiz aqui no Linux.....

agora estou ja começando a ver algumas similaridades como o inicio da serie MX que voce apontou ai,estou cada vez mais curioso

Obrigado por todo esse conhecimento que voce nos da a oportunidade de aprender e continue assim pois assim como eu muitos outros querem saber o fim dessa historia !
 
por Raphael Barros (anônimo) em 29 de setembro de 2009 às 20h20
Essas histórias das placas 3D estão uma beleza vocês tambem tinha que fazer das placas 2D desde as primeiras placas usadas no XT MDA.

Amanhã vou copiar esses 2 artigos sobre placas 3D que estão demais.
 
por Denis Roschel (anônimo) em 29 de setembro de 2009 às 17h29
Estas matérias sobre placas de vídeos estão ótimos!

Vamos ver o próximo!

Parabéns!