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Processadores: VIA C3 e o Crusoe

Por Carlos E. Morimoto em 15 de dezembro de 2009 às 18h29

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O C3 da VIA e o Crusoe da Transmeta foram dois coadjuvantes durante a briga entre o Athlon e os Pentium III e 4 da Intel. Apesar das vendas terem sido fracas, eles foram foco de grande curiosidade.

O C3 teve uma história conturbada, mudando de nome várias vezes (Jedi, Gobi, Cayenne, Joshua, Samuel...) e tendo samples produzidos com várias configurações de cache e mudanças na arquitetura, até ser finalmente lançado em 2001:

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Ele foi um sucessor do 6x86 e do MII, produzido pela VIA com base nos projetos anteriores da Cyrix. Ele ele era um processador de baixo consumo, que possuía 128 KB de cache L1 e 64 KB de cache L2 (similar ao Duron), que foi produzido em uma técnica híbrida de produção, com alguns componentes sendo produzidos usando uma técnica de 0.15 e outros em uma técnica de 0.13 micron.

Sendo um fabricante de chipsets, a VIA possuía licenças para o barramento GTL+, o que permitiu que o C3 fosse compatível com placas soquete 370 para o Pentium III e o Celeron. Na época a Intel estava fazendo a transição para o Pentium 4 e existia uma grande oferta de placas soquete 370 de baixo custo, o que ajudou nas vendas.

O C3 oferecia uma arquitetura bastante simples, com apenas duas unidades de execução (como o Pentium 1) e um coprocessador aritmético bastante fraco, que o tornava uma opção passável para aplicativos de escritório (o desempenho era levemente inferior ao de um Celeron do mesmo clock) porém bastante inadequada para jogos.

Por outro lado, a simplicidade o tornou um processador bastante barato de produzir. Mesmo com os 128 KB de cache L1, ele ocupava uma área de apenas 55 mm², o que permitia que a VIA produzisse quase duas vezes mais processadores por wafer que a Intel conseguia obter com o Celeron Coppermine, por exemplo. Isso permitiu que a VIA oferecesse o processador a preços bastante baixos, permitindo o aparecimento de um grande número de PCs e notebooks de baixo custo, que (apesar do fraco desempenho) fizeram um certo sucesso na época.

O C3 foi produzido em três versões. Todas utilizam a mesma configuração de caches (128 KB de L1 e 64 KB de L2, mas se diferenciam na técnica de fabricação e arquitetura.

A primeira era baseada no core Samuel 2, de 0.15 micron e foi produzido em pequenas quantidades em versões de 667 a 800 MHz. O seguinte foi o Erza, que inaugurou o uso da técnica híbrida de 0.15 e 0.13 micron e foi produzido em versões de 800 MHz a 1.0 GHz. O terceiro foi o Nehemiah, que manteve a mesma técnica de fabricação, mas adotou o uso de um pipeline mais longo (16 estágios contra os 12 das versões anteriores), o que permitiu que fosse lançado em versões de 1.0 a 1.4 GHz.

Embora ultrapassado, o C3 continuou sendo vendido em pequenas quantidades nos anos seguintes, servindo como uma espécie de refugo para fabricantes interessados em vender PCs de baixo custo e baixo desempenho, um posto similar ao que é ocupado atualmente pelo Atom.

Com o fim da plataforma soquete 370, a VIA passou a se dedicar à produção da plataforma EPIA, uma linha de placas miniaturizadas, que combinavam processadores C3 (e eventualmente C7) com chipsets próprios.

Entretanto, o baixo desempenho dos processadores, combinados com as dificuldades da VIA em vender as placas a preços competitivos fizeram com que ela nunca fizesse muito sucesso, apesar dos méritos técnicos. Temos aqui uma EPIA SP8000E, com um C3 de 800 MHz:

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O Crusoe por sua vez foi um projeto bem mais exótico e ambicioso, que adotou o uso de uma arquitetura radicalmente diferente, que foi uma tentativa de resolver o problema da carga de legado dos chips x86, sem com isso comprometer a compatibilidade com os softwares existentes.

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Diferentes de outros processadores atuais, que utilizam decodificadores de instruções e ordenadores para converter e ordenar as instruções x86 (executando uma boa dose de processamento antes mesmo que elas cheguem às unidades de execução), o Crusoe utilizava um projeto simplificado, onde o chip processava um conjunto próprio de instruções, composto apenas de instruções simples, como em um processador RISC.

A compatibilidade com o conjunto de instruções x86 era obtido através de um software de tradução, batizado de "Code Morphing Software", que tinha a função de converter as instruções x86 enviadas pelos programas nas instruções simples entendidas pelo processador, ordená-las de forma a serem executadas mais rápido e coordenar o uso dos registradores, tarefas que em outros processadores são executadas via hardware.

O Code Morphing Software ficava armazenado em uma pequena porção de memória ROM integrada ao processador. Ao ligar o PC, ele era a primeira coisa a ser carregada (antes mesmo do BIOS) e ficava residente em uma área protegida da memória RAM, funcionando como um intermediário entre a parte física do processador e o sistema operacional.

Todas as instruções traduzidas pelo Code Morphing Software eram armazenadas em um cache especial, chamado translation cache. Este cache ocupava parte dos caches L1 e L2 do processador e também uma área reservada da memória RAM que pode variar de tamanho de acordo com o volume de instruções diferentes processadas. Ele evitava que o processador perdesse tempo traduzindo os mesmos blocos de instruções repetidamente, mas em troca consumia parte dos caches e da própria memória RAM, novamente reduzindo o volume de recursos destinados ao processamento propriamente dito.

Internamente, o Crusoe era um chip VLIW de 128 bits, que processava as instruções x86 em agrupamentos de 4 instruções de 32 bits, em um design similar ao utilizado na implementação das instruções SSE, porém aplicado ao processamento de todas as instruções. A sigla "VLIW" vem de "Very Long Instruction Word" e enfatiza justamente o uso de unidades de execução largas, capazes de processar muitos bits de cada vez.

Graças à combinação dos dois fatores, o Crusoe era um chip muito mais simples e que consumia pouca energia. O TM5420 de 600 MHz, por exemplo, consumia menos de 2 watts operando em full-load, menos do que um 486. O grande problema é que o Code Morphing Software consumia grande parte dos recursos do processador, deixando menos recursos para o processamento de instruções. Isso fazia com que o Crusoe fosse muito lento se comparado a um Athlon ou Pentium III do mesmo clock, o que reduziu a procura pelo processador a ponto de inviabilizar o projeto.

O Crusoe existiu em versões de 500 MHz a 1.0 GHz. Todas ofereciam um consumo elétrico bastante baixo, o que fez com que ele fosse usado em alguns notebooks ultra-compactos e também em desknotes fabricados pela ECS. Entretanto, o desempenho era até 50% inferior ao de um Pentium III do mesmo clock, o que tornava os notebooks baseados nele bastante lentos.

Em 2004 a Transmeta lançou o Efficeon, uma versão atualizada do processador, que era baseado em uma arquitetura de 256 bits (ou seja, processava agrupamentos de 8 instruções de 32 bits) e oferecia um desempenho por ciclo quase duas vezes mais alto que o da versão original. O Efficeon foi lançado em versões de até 1.7 GHz e oferecia um desempenho bem mais competitivo, mas ele acabou chegando tarde demais para salvar a Transmeta, que abandonou a fabricação dos processadores em 2005.

10 comentáriosPor Carlos E. Morimoto. Revisado 21 de março de 2011 às 16h27

Comentários

 
por madtrek (anônimo) em 21 de dezembro de 2009 às 16h16
Artigo interessante, porém, na minha opinião incompleto .
Outros já citaram a omissão do C7, que se equipara a um Atom de clock igual, porém, devido aos enormes recursos contidos no chipset ( criptografia e processamento MPEG2/3/4 ) que a Intel vem prometendo a anos e nunca cumpriu, a performance com aplicativos do "mundo real" destas plaquinas superam de longe suas equivalentes Intel/Atom !
Tenho aqui no meu laboratório uma Phitronics PC2500 ( processador C7 Esther de 1.5 GHz ) e uma placa digitalizadora para 16 câmeras, com 1 GB de RAM, e ele realiza esta tarefa sem nem mesmo esquentar muito, o processamento nunca ultrapassa os 66% !!!
Um Atom de clock igual mau aguenta 8 câmeras !!!
E esta motherboard pode ser adquirida no Brasil por cerca de R$150,00 legalmente !!
Depois que descobri estas plaquinas nunca mais nem olhei para os Intel/Atom, simplesmente não valem a pena !!!

Fábio Rabelo
 
por Marco (anônimo) em 20 de dezembro de 2009 às 04h30
Agora espero pelo artigo com o Via C7 e seus recursos de criptografia e hash por hardware que só agora estão sendo implementados nos Sparc e são prometidos para Intel e AMD há anos.
 
por Thiago (anônimo) em 17 de dezembro de 2009 às 22h37
Muito bom! Eu já tinha lido sobre esses processadores da VIA e da Transmeta, com exceção desse Efficeon. Interessante ver que já existiram outras idéias no mercado bem diferentes do que vemos com AMD e Intel. Mas sinceramente provavelmente eu não compraria uma máquina com um processador tão exótico assim. Esse negócio de economia de energia é muito bem-vindo, mas tendo desempenho gritantemente mais baixo não é interessante em desktops. Talvez seria usual em netbooks, otimizando o tempo de duração da bateria e baixando o custo de produção.
 
por Rodolfo Machado (anônimo) em 17 de dezembro de 2009 às 14h08
Muito interessante esses processadores da VIA e da Transmeta, sempre é bom ver algo fora de Intel e AMD.
Nesta linha de processadores com arquiteturas alternativas, achei este artigo, em espanhol:

http://www.espacial.org/miscelaneas/computacion/elbrus_mcst1.htm

É sobre um centro de pesquisas em Moscou que projeta processadores, inclusive para PC , compatíveis com Intel x86 , Windows e Linux.
Um dos modelos citados no artigo, chamdo Elbrus, tem clock de 300 Mhz, pouco para os padrões atuais de Intel e AMD, no entando sua arquitetura interna segue um padrão diferente de Intel e AMD, chamada VLIW/EPIC (Very Long Instruction Word/Explicitly Parallel Instruction Computing).
Esta arquitetura permite que ele tenha um desempenho equivalente a um Pentium 4 2GHz mesmo tendo um clock de apenas 300MHz.
 
por Marcus Borelli (anônimo) em 16 de dezembro de 2009 às 20h46
Carlos

Estou com um problema de configuração do samba aqui no openSUSE 11.2 - 64 que antes, com a ajuda de seu livro, funcionava. Você poderia me ajudar?

Um abraço

Marcus Borelli
 
por Mike_Maluco (anônimo) em 16 de dezembro de 2009 às 09h50
Conhecimento nunca é inútil.
 
por Marcos FRM (anônimo) em 16 de dezembro de 2009 às 08h25
Falta falar do VIA Esther e Isaiah. O Isaiah é um forte concorrente do Atom.
 
por wcarmo (anônimo) em 15 de dezembro de 2009 às 21h17
Existem no mercado algumas placas com CPU VIA onboard com baixissimo consumo elétrico. O cooler do processador lembra o do 486. São boas opcões para terminais leves ou caixas com ECF.
 
por Maicos (anônimo) em 15 de dezembro de 2009 às 20h58
Morimoto como sempre um bom artigo...
VIA C7 EPIA é um otimo servitor torrent, aqui com o Slackware é prefeita...
as Plataforamas da VIA são muito boas para trabalahr principalmete para projetos de embadded System, pena que são caras :/ pico-itx e toda a familha preicipalmente, sem falar nos PC-104 onde são presentes também...
com tantos artigos sobre processadores e tudo mais é impreção minha ou vem algum livro por ai sobre processadores?
 
por Megaf (anônimo) em 15 de dezembro de 2009 às 19h53
Obrigado pelo texto!

Lembro que em meados dos anos 90 eu sonhava em adquirir alguns laptops ultra compactos equipados com estes processadores, e ficava baste impressionado lendo em livros de hardware a engenhosidade dos fabricantes ao desenvolver cpus como o Crusoe.